O amor, segundo o judaísmo, é medido pelo que queremos fazer por outra pessoa – quão disponíveis somos, quanto de nós estamos dispostos a dar e a sacrificar. O casamento significa abrir espaço dentro de si próprio para deixar o outro entrar. Mas quando a pessoa ama a si mesmo em demasia – quando ela deseja estar apenas consigo mesma – ela não pode esperar que seu casamento dê certo. É o amor o que abre espaço para o outro ser parte de nossa vida. O verdadeiro amor não é egoísta; pelo contrário, ele se manifesta quando a pessoa se esquece de si – esquece aquilo que quer ou que a incomoda – e pensa no outro.
Mas isso também significa que o amor pode ser perigoso e destrutivo. Como é uma emoção muito dominante, muitos se aproveitam de quem os ama, manipulando-os para seus propósitos egoístas.
Em um casamento feliz, não pode haver uma situação onde um explora o amor e a generosidade do outro. Há que haver reciprocidade, e mais, é preciso amar o outro no mínimo tanto quanto a pessoa ama a si própria. O Rebe de Lubavitch ensinava que o amor significa não poder viver sem o seu amado. É uma alma completando a outra. Na verdade, é a mesma alma em dois corpos diferentes que se unem sob a Chupá.
De acordo com a mística judaica o primeiro ser humano foi inicialmente criado metade homem e metade mulher. Isto significa que um homem não é completo sem uma mulher, nem ela é completa sem o homem. Os seres humanos procuram o amor e o casamento não nos sentimos inteiros quando sozinhos. É nosso cônjuge quem completa a imagem Divina que reside dentro de nós.
Casar-se significa unir-se à nossa metade que reside em um corpo diferente. O casamento é a reconexão de duas partes em um todo, e, assim sendo, é a cura para muitas feridas. Em hebraico, a palavra para homem é “Ish”, que contém a letra Yud; e a palavra mulher, “Ishá”, contém a letra Hei. Ambas formam um dos Nomes de D’us. Isto nos ensina que quando um homem e uma mulher vivem juntos com amor e harmonia e respeito, D’us habita em seu meio.
Vivemos ou existimos?
Nós, enquanto adultos, podemos escolher como levar nossa vida. Há um versículo na quinto livro da Torá, em que D’us nos diz que Ele está colocando dois caminhos diante de nós – a vida e o oposto da vida – e Ele nos ordena escolher a vida. Nossos Sábios perguntam: que tipo de escolha é essa? Quem optaria pelo oposto da vida? E respondem que, de fato, muitas pessoas optam por não viver – escolhem simplesmente existir.
O Talmud ensina que aquele que é mau, mesmo enquanto ainda está na Terra, é chamado de morto, ao passo que o justo, mesmo após deixar este mundo, é chamado de vivo. O Talmud explica que a verdadeira vida não é medida por quanto tempo passamos na Terra, mas pelo impacto positivo que causamos. Um justo deixa um impacto incomensurável e eterno, mesmo depois de não estar mais entre nós. Aqueles que optam pela vida são aqueles que infundem energia positiva nos demais. Aqueles que optam pelo oposto de vida são aqueles que sugam a energia dos outros. Eles não impactam as pessoas de forma positiva, não geram energia. Vivem apenas para si mesmos, geralmente levando uma vida egoísta e arrogante e se tornam um peso para quem os cerca. Eles não compartilham nada com ninguém e, como só se preocupam consigo mesmos , ninguém mais lhes importa, a menos que possam levar alguma vantagem. São muitos os que vivem assim, mas na realidade não estão realmente vivendo, eles apenas existem.
Viver, de verdade, significa diminuir a matéria e gerar energia. Significa abrir espaço ao “outro”. Significa não se importar tanto consigo mesmo, mas sim com o bem-estar dos demais. As histórias de amor geralmente terminam com as palavras: “E eles viveram felizes para sempre”. É importante observar as palavras: diz-se que eles “viveram”, não que “existiram” felizes para sempre.
Para ser feliz a pessoa precisa estar viva e, para estar viva, não pode preocupar-se apenas consigo própria. Quando a Torá descreve o casamento como uma união entre homem e mulher que se tornam uma só carne, está nos dizendo qual o segredo de um casamento feliz: somente quando um homem e uma mulher se tornam verdadeiramente um, eles podem viver felizes para sempre.

A Cabalá ensina que o casamento é a fusão de duas almas. Esta visão poética de duas almas que se reúnem e se fundem sob a Chupá é, sem dúvida, uma inspiração. Mas é importante observar que é mais fácil a fusão de duas almas do que de dois corpos, pois o ser humano é, por natureza, egoísta. Cada pessoa tem suas necessidades, seus desejos, suas preferências e suas antipatias. Viver com alguém – não em um mundo imaginário, mas no mundo real – geralmente requer algum sacrifício. Em geral temos que fazer coisas que não queremos e abandonar coisas que gostamos de fazer. É preciso deixar de lado nosso ego – e isto, para muitos, é o mais difícil de fazer. O Tzemach Tzedek, o terceiro Rebe de Lubavitch, ensinava: “As crianças são felizes e os adultos, infelizes, porque as crianças preferem ser felizes a estar certas, ao passo que os adultos preferem estar certos a estarem felizes”. É por isso que muitos casais carecem de paz e felicidade, pois cada cônjuge quer estar com a razão o tempo todo.
Vale a pena ouvir o conselho do famoso rabino e psiquiatra norte-americano, o Rabi Dr. Abraham J. Twerski: “Se você está certo o tempo todo e seu cônjuge está errado o tempo todo, significa que você está casado com um perdedor. E quem quer estar casado com um perdedor?”.
Intimidade e limites

Como viver realmente feliz? Quando construímos uma vida atraente, todos nós queremos dela participar. Quando um lar transborda não só de felicidade, mas de júbilo e entusiasmo, todos os obstáculos podem ser vencidos. Mas mesmo as relações mais felizes necessitam de limites para que possam perdurar.
Um dos conceitos fundamentais da Cabalá se refere às Sefirot, que são energias Divinas utilizadas para criar o mundo e que continuam a sustentá-lo. A alma humana também é composta dessas emanações Divinas. Há três que são Sefirot intelectuais e sete que são emocionais. A duas primeiras emocionais são Chessed e Guevurá – que são livremente traduzidas como bondade e severidade. Os místicos ensinam que todo relacionamento saudável precisa dessas duas forças opostas. Não pode haver bondade sem disciplina, nem disciplina sem bondade.

Quando esses conceitos são aplicados ao casamento, significa que o amor precisa ser restringido. Apesar da união, há que haver limites entre marido e mulher, senão a relação de respeito não se desenvolverá nem perdurará. A verdadeira intimidade não significa saber apenas como amar, mas também respeitar. Se há muito amor e pouco respeito, o casamento desandará. Isto é válido para qualquer relacionamento: entre pais e filhos, professores e alunos, entre o homem e D’us.
Outro conceito que é central a qualquer relacionamento, especialmente para o casamento, é a diferença entre direitos e deveres. A expressão “minha” mulher e “meu” marido não significa que os cônjuges são propriedade, um do outro, e, portanto, podem fazer ou dizer o que acharem por bem. Nenhum ser humano “possui” o íntimo do outro. Quando marido e mulher creem possuir o outro, os limites são ultrapassados e, por fim, o próprio relacionamento se desfará. “Meu” cônjuge significa que eu tenho obrigações com o outro, não direitos ou posse sobre o outro. Significa que é meu dever cuidar, fazer o melhor para atender suas necessidades e tentar fazê-lo feliz.

O mandamento de pureza familiar – época do mês em que marido e mulher não podem ter intimidade física – reafirma os princípios de limites e de respeito. Este mandamento da Torá pode parecer inconveniente, mas como os demais, foi-nos dado em nosso benefício. Há várias razões biológicas e relacionadas à saúde para um casal não ter intimidade durante o período da Nidá feminina. O ciclo menstrual é uma transformação para a mulher e, durante essa época do mês, ela necessita de espaço para si própria. Quando um casal consegue respeitar esse ritmo biológico – criado e ditado por nosso Criador – marido e mulher têm condições de manter acesas as chamas de seu relacionamento e, ao mesmo tempo, preservar o respeito e os limites entre si, algo que jamais deve ser ultrapassado.
O compromisso com o casamento
A maioria das pessoas percebe que para ter sucesso em tudo na vida a pessoa necessita dedicar tempo e esforço ao que quer. Não se pode ser um erudito sem estudar, não se pode ser um atleta sem treinar, não se pode ter um negócio bem sucedido sem dedicar-se ao mesmo. De igual maneira, não se pode ter um casamento feliz se não se é comprometido com o mesmo. As pessoas encontram tempo e energia para tanta coisa – trabalho, hobbies, atividades prazerosas, mas quanto tempo dedicam a seu casamento? Quanto cada um de nós investe em seu relacionamento? Mas não se trata apenas de quanto tempo se passa com o cônjuge, mas da qualidade desse tempo. Quando marido e mulher passam tempo com o outro, eles têm que estar presentes, não apenas fisicamente, mas também espiritualmente. E, se escolhermos nossos piores momentos para estar ao lado de nosso cônjuge – quando estamos cansados, aborrecidos, preocupados – esse relacionamento não florescerá.
Estar comprometido com o seu casamento significa, também, ser generoso com o cônjuge. A generosidade é o maior mandamento da Torá, aplicável a todos e, mais ainda, à nossa família. Se alguém tem um relacionamento comercial de valor – um grande cliente, por exemplo – fará o impossível para preservá-lo. Não quer perder o cliente. Somos atenciosos com as necessidades de nossos clientes ; atentamos para não perder a paciência ao falar com eles, tentando agradá-los para que não nos deixem por outro comerciante. Nosso cliente mais importante, nosso maior investidor é nosso cônjuge. É ele quem merece nossa maior atenção e respeito. Se as pessoas tratassem seus esposos como tratam de seus grandes clientes, os casamentos raramente fracassariam…
Se os atos de generosidade são instrumentais para construir e manter um casamento feliz, os atos de crueldade são uma forma certa de arruinar qualquer relacionamento. Quando os cônjuges se desrespeitam e se insultam, especialmente em público, eles estão envenenando seu casamento. Humilhar alguém em público, segundo o Talmud, é o mesmo que assassiná-lo. Isto se aplica a todos, inclusive aos membros de uma família. Obviamente os cônjuges podem apontar os erros um do outro, mas isto deve ser feito na privacidade e em tom respeitoso. E se um tiver que criticar o outro, devem fazê-lo de maneira carinhosa, nunca se esquecendo de mencionar as boas qualidades do outro. Se tiver que criticar alguém, teça elogios a esse alguém, no mesmo momento. Uma crítica deve ser acompanhada por, no mínimo, quatro elogios.
Todos nós merecemos um relacionamento feliz e amoroso, mas, mesmo assim, tantos casamentos estão ruindo. A razão para tal não é o fato de ser necessário seguir regras complicadas para que nosso casamento dê certo. É bastante simples o que temos que fazer. Sabemos o que promove e o
que arruína um relacionamento. O problema é nos empenharmos em fazer o casamento funcionar.
O casamento é, acima de tudo, um compromisso entre duas pessoas. E é a paixão desse compromisso o que leva a uma vida feliz para sempre. Os místicos ensinam que o relacionamento entre marido e mulher simboliza o relacionamento do homem com D’us. Se o casamento se baseia em compromisso, amor e respeito, certamente levará ao verdadeiro júbilo e felicidade entre os esposos. E quando o casal é forte, a família é fortalecida. Quando as famílias são fortalecidas, também o é a sociedade e o mundo, em geral. Oramos e esperamos o dia em que o amor e a luz, o júbilo e a satisfação se tornem a realidade de todos os seres humanos.

O Rabino Gabriel Aboutboul é rabino atuante da Sinagoga Agudat Israel e integra o corpo de rabinos da Sinagoga Beit Lubavitch, no Rio de Janeiro.

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