Para qualquer cidadão antenado é desejável planejar sua viagem de turismo; para portadores de necessidades especiais e com mobilidade reduzida, este planejamento é ainda mais crucial e a acessibilidade em locais turísticos torna-se condição sine qua non para o passeio.

Eu sabia que na hora que conseguisse me aproximar do muro das lamentações, ia permanecer lá por um bom tempo … Foram muitas horas de voo para atravessar o Atlântico e chegar até a única parte que sobrou da destruição do Templo de Salomão, na Terra Prometida. É certo que voar na classe executiva dormindo a 180 graus tem suas vantagens, no entanto viver é uma viagem de first class ! Tinha e tenho ainda muito a agradecer ao Criador.

Tenho a benção de dizer que não me recordo quantas foram minhas visitas à cidade velha de Jerusalém ao longo dos meus 40 e poucos anos, mas esta última foi ainda mais especial, pois foi a primeira [de ainda muitas outras !], após ser submetido a uma cirurgia de amputação abaixo do joelho há poucos meses.
Calçada acessível com pictograma, vias necessárias, piso podotátil, guias rebaixadas e rampas de acesso com inclinação adequada … Tudo tão acessível que nem acreditava ser real para aquele cenário bíblico. Eu mesmo nunca havia me dado conta disto no passado até que a necessidade se revelou diante de mim. Fato é que alguém muito nobre, merecedor de créditos, pensou nisto antes, colocando-se no lugar do outro.

O medo do desconhecido é um sentimento universal. Natural que nas circunstâncias que atravesso, o receio de viajar sozinho seja grande, porém maior ainda é minha fé, na sua máxima extensão possível. O Kotel, como é chamado em hebraico o muro, não se move do lugar e portanto, o desafio a ser ultrapassado seria chegar até ele, mesmo que demorasse um pouco mais de tempo nesta trajetória, me equilibrando na prótese e testando meus atuais limites de marcha. Deixei as compras das lembrancinhas de lado e segui perambulando calma e cuidadosamente, passo a passo, pelos mesmos caminhos que Jesus atravessou em sua saga, a Via Dolorosa, tendo em mente que o roteiro percorrido deveria me levar, por fim, ao destino tão esperado.

O ser humano normal é um ser diferente. Ninguém é igual ao outro. A normalidade é não sermos iguais, mas à medida que me aproximava do ápice do passeio, como qualquer outra pessoa, minha excitação aumentava e a vontade de fazer xixi se exponencializava ! Um binômio perfeito para um quase desastre com alguém que não corre 100 metros em 10 segundos !
Para alguns pode parecer exagero uma série de medidas que foram adotadas nas instalações no entorno e no controle de acesso ao muro das lamentações, seja no aspecto imperioso da segurança ou no âmbito subjetivo da religião, mas basta colocar na balança o respeito à dignidade humana – que é parte da tradição milenar do povo judeu e, surpreender-se favoravelmente com a aplicação também ali, do conceito do desenho universal e seus princípios – que traz em sua essência o projeto de ambiente para ser utilizado por todos e, assim, poder desfrutar das instalações de um banheiro acessível, que adicionalmente respeitando as leis da religião, dispõe de jarros de purificação para o ritual judaico de netilat yadaim.
O ritual de lavagem das mãos não é somente uma cautela higiênica, mas implica, segundo os Sábios, num símbolo de purificação espiritual, vertendo-se água com um recipiente, por três vezes alternadamente, na mão direita e em seguida na mão esquerda.

Com a bexiga esvaziada, sem ter de precisar deslocar-me ao banheiro durante minhas preces e, uma vez purificado, o tempo investido na minha conexão com o Eterno, sentado confortavelmente defronte ao local mais sagrado para o povo escolhido, não só foi mais longo e melhor potencializado, resultou numa catarse mais abençoada.
Que cada vez mais possamos encontrar instalações apropriadas para todos em quaisquer locais onde precisarmos transitar e quisermos visitar; que o mindset de acessibilidade torne-se também universal e não apenas o seu desenho. Que todos os seres humanos possam praticar suas religiões onde quer que estejam em suas sociedades. Que o turismo acessível, seja realmente possível. Israel já me mostrou que isto é, de fato, exequível, com instalações impecáveis para atender às necessidades mais distintas de todos seus cidadãos e turistas.

Be’ezrat Hashem como se diz em hebraico com referência à ajuda de D’us, ainda contarei sobre a futura peripécia de um mergulho em Eilat, ao sul do país, quase na fronteira com o Egito ! A propósito, alguém se atreve a dizer se nas pirâmides também encontrarei infraestrutura e tecnologia acessíveis para todas as necessidades do turista idoso; da mamãe grávida; da titia empurrando o carrinho de seu bebê, do obeso e por fim, das minhas ?
A vida é dura para quem é mole; quem fica estático é o ponto turístico, não eu que quero ainda acumular muitas milhas pelo mundo afora, deixando minhas pegadas em todos as instalações onde eu puder acessar !

http://portaljudaico.com.br/vendoo/uploads/2016/11/banheiro-jerusalem.jpghttp://portaljudaico.com.br/vendoo/uploads/2016/11/banheiro-jerusalem-150x150.jpgVilli BravermanACESSIBILIDADEEXPERTSacessibilidade,banheiro,desenho universal,ierushalaim,JerusalémPara qualquer cidadão antenado é desejável planejar sua viagem de turismo; para portadores de necessidades especiais e com mobilidade reduzida, este planejamento é ainda mais crucial e a acessibilidade em locais turísticos torna-se condição sine qua non para o passeio. Eu sabia que na hora que conseguisse me aproximar do...Comunidade Judaica Paulistana