salsicha
Então Jeremias decidiu fazer aliá (imigrar para Israel)! Uau, que grande dia!
A família estava dividida – será que ele se acostuma com a vida dura em Israel, sem motorista, sem jardineiro, sem piscina em casa? – assim falavam alguns. Já outros se entusiasmavam – Tio Jeremias sempre foi Sionista convicto e, graças a D’us, ele tem um patrimônio razoável. Claro que vai dar certo!
Não era só na família que havia dissenso. Entre os amigos, principalmente os não Judeus, havia medo – quase pavor – da “situação permanente de guerra” que aparecia com frequência no noticiário. Já os que sabiam da real situação na “terrinha” achavam que não há melhor lugar para os anos de ouro – atividades mil para aposentados, serviço médico de bom padrão a custos baixíssimos e um verão quase que permanente permitindo atividades ao ar livre o ano todo.
Jeremias, por seu lado só via coisas boas. Ele evidentemente não queria encarar o fato que a falta de lingua poderia ser um empecilho e que a distância dos amigos, principalmente na terceira idade, pode ser um peso psicológico importante. Jeremias contava os dias…
E chegou o grande dia! Era Outubro, fim do pesado verão de Israel e início de um outono ameno. No Brasil acabara de acontecer uma despedida gostosa, num restaurante alegre, com música Brasileira e Israelense, com amigos, família, crianças correndo, piadas soltas e bate papos curtos. A viagem foi agradável, com uma senhora bastante atraente sentada a seu lado.
Ela, também Brasileira, vivia em Israel há alguns meses e tinha viajado ao Brasil para assinar escrituras de venda de seu apartamento e de seu consultório. Conversa fluída durante toda a primeira etapa da viagem, Jeremias ficou sabendo que ela morava em Holon, estava bastante feliz mas debatia-se com as dificuldades da língua.
Ester, este era seu nome, não havia estudado em escola Judaica e não tinha o menor conhecimento de Hebraico. Decidira fazer a classe básica, pela segunda vez, porque sentira nada ter avançado no domínio da língua. Ester era viúva desde muito cedo, sem filhos e apesar de seus 48 anos, era extremamente jovem e lépida. Jeremias, já chegando aos 60, tampouco era de jogar fora. A troca de avião em Milão dera-lhes um tempo para caminhar pelo aeroporto, visitar algumas lojas, tomar um capuccino com torta e dar algumas boas risadas.
A segunda parte da viagem os pegou esgotados. Dormiram ambos. No aeroporto, na chegada, trocaram telefone e prometeram encontrar-se.
Jeremias foi para o norte, começou a estudar Hebraico na classe de adiantados e avançou rapidamente no domínio da língua. Fez alguns amigos entre os imigrantes – Russos, Franceses, Sul Africanos, Etíopes – mas nenhum sul-americano. A falta da cultura comum começou a incomodar.
Jeremias se lembrou de Ester e resolveu ligar – será que ela se lembraria dele depois de nove longos meses? Mas ela não só lembrava como esperava ansiosamente o telefonema. Encontraram-se uma, duas e mais vezes. Havia algum mel naqueles encontros. Jeremias aceitou mudar-se para… Holon.
Ester resolveu preparar um lindo jantar de boas vindas mas se as dificuldades com o Hebraico seguiam. Ainda assim foi ao açougue para comprar o necessário para seu jantar. Como falar “Coxa de Galinha”? Teve uma idéia, levantou sua saia e bateu em suas coxas. O vendedor entendeu e lhe deu as coxas. Ela precisava também de peito de frango. Segurou com ambas as mãos seus peitos, os balançou com força e, de novo, o vendedor entendeu. Faltava só comprar as salsichas. Então ela teve uma grande idéia. Correu até a casa de Jeremias e o trouxe ao açougue.
Jeremias… sabia Hebraico!
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