O equívoco de muitos está em olhar a promessa divina a Abraão e ao povo judeu como um pacto unilateral. Não há, na Bíblia, pactos unilaterais. Para toda promessa divina deve existir uma reação do homem em função do pacto firmado. Para Abraão ter o mérito de carregar sobre si a égide de todo o povo judeu, foi necessário passar por um universo de privações e dificuldades sem se reter, como, por exemplo, a estadia no Egito – em que teve que dizer que Sara era sua irmã – o Sacrifício de Isaac, a circuncisão em idade avançada…
Uma destas inúmeras provações esteve no episódio da destruição de Sodoma. D’us esperava de seu servo aquela reação subversiva de tentar convencê-lo a não destruir Sodoma por poder haver ali alguns inocentes. De certa maneira, o Eterno, quando afirma querer destruir Sodoma, coloca a todos os cidadãos no mesmo pote de perversão e, portanto, deve dar a todos o mesmo castigo. Entretanto, Abraão confronta a D’us em uma dialética célebre de uma negociação que começa com a possível existência de 50 inocentes e termina com a impossibilidade de salvar a cidade por não haver ali sequer dez inocentes.
A lição que Abraão quer nos passar é simples de se entender. Ele teima em generalizar o povo de Sodoma mesmo apesar de todos os revezes, afinal, ele não conhece cidadão por cidadão a fim de saber que, verdadeiramente, todos merecem o mesmo castigo.
Acredito que vivemos tempos sombrios, em que o ser humano se recusa a seguir a lição e o exemplo de Abraão. Tomo como exemplo o Islã, apesar de ser um tema polêmico. Passamos a generalizar o islamismo como uma religião na qual todos os seus adeptos são terroristas. Parece que teimamos em aprender a lição deixada por Abraão. Muitos, sem dúvida, desejam o extermínio do Islã mediante os atentados terroristas.
Os atos tomados por alguns expoentes da religião islâmica são até mais abomináveis do que os atos cometidos pelo povo de Sodoma. Entretanto, não nos cansamos de colocar todos os muçulmanos em um mesmo pacote e dizer que a Europa deveria expulsar os refugiados.
Conheci, no Rio De Janeiro, um garoto Sírio. Perdeu tudo: casa, família, amigos, bens. É muçulmano, jejua em Ramadã e vai à mesquita sempre e chora todos os dias ao se lembrar de como sua vida foi arruinada pelo Estado Islâmico que, repete ele diversas vezes, mancha a imagem e prejudica muito a relação de outros árabes com o mundo ocidental. “Não posso entrar no ônibus nestes tempos de olimpíadas que todos me olham pensando que sou um suicida extremista, sendo que só estou indo à faculdade”.
Devemos lembrar que o próprio cristianismo teve o seu tempo sombrio de perseguições na Idade Média e que, mesmo assim, muitos – a exemplo do Padre Vieira, que mantinha relações com judeus mesmo durante os éditos de expulsão e conversão forçada – se mantinham à parte da barbárie e ao mesmo tempo amordaçados. Amordaçados como nosso amigo Sírio que perdeu o irmão torturado e morto pelo ISIS por se manifestar publicamente contra os extremismos religiosos.
Engana-se e muito aquele que encontra na expulsão de todos os refugiados a resolução para o problema do terrorismo. Cada vez mais jovens europeus tem se curvado ante a barbárie terrorista e se convertido ao islã xiita. E por que? O que falta a essa juventude para que ela coloque sua desforra em um extremismo religioso assassino e covarde?
Quando generalizamos, colocamos no mesmo pódio: o terrorista suicida, o estudante da Universidade Federal do Rio de Janeiro que deseja uma vida melhor longe de seu país destruído pela guerra, a dona de casa que, não fosse o EI, a essa hora estaria talvez em uma praia tomando um banho de sol à vontade, a criança palestina que estuda todos os dias podendo morrer em uma explosão porque os terroristas usam sua escola como esconderijo… Ao generalizar, esquecemos da empatia para com o outro e passamos a nos ver como um pouco mais iguais do que o próximo.
Se o Talmud diz que o Lugar do homem é o homem, devemos ter em mente que, por tanto generalizarem o nosso povo, a última coisa que devemos fazer é cometer o mesmo erro. Lembremos do quanto D’us recorda ao povo de Israel do seu tempo de escravidão no Egito para que jamais se torne um povo escravocrata.

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