No post de hoje dissertarei um pouco sobre os movimentos que defendiam diversas identidades judaicas ou jewishness no período do Segundo Templo. Este quadro é de extrema importância para entendermos o contexto da época.

essenios

Hassidim

O movimento hassidim, ou piedosos, defendia uma religião “pura” baseada na Lei, longe dos estrangeirismos praticados pelas diversas comunidades judaicas, inclusive a de Judá.[1] Sua identidade era contraposta à dos grandes sacerdotes de Jerusalém, a da elite helenizada e a dos dominantes estrangeiros responsáveis pelo governo da Coelet-Síria. Os grandes sacerdotes aceitavam a Lei escrita, mas não estavam completamente fechados a estrangeirismos fator de conflito entre os próprios e os hassidim. Outro ponto de discórdia era a questão da democratização do ensino das Leis defendido com fervor e negado pelos grandes sacerdotes.

Eram apocalípticos, ou seja, segundo E. Kaunder (2000, p.152) se “interessavam especialmente em calcular e descrever o fim desta era, a vinda do Messias e o estabelecimento do Reino de Deus.” O movimento pode ser considerado uma continuação das obras dos profetas, servindo para julgar os fatos que oprimiam a comunidade judaica da época. Defendendo estas idéias o movimento age de forma dual: de um lado criticando os estrangeiros  de outro compartilhando, idéias originárias do caldeirão cultural do Oriente.

Várias obras tradicionais da cultura judaica na Antiguidade e Idade Média descreviam a importância dos hassidim para a sobrevivência e manutenção da Lei na identidade judaica. Na obra Ética dos Pais o ideal hassid é apresentado em uma máxima: “O que é meu é seu e o que é seu é seu, isto é um hassid (Avoth 5;13). A essência dos hassidim, como apresenta Rabbi Yehuda He-Hassid em seu livro Sefer Hassidim é “agir em todas as coisas não sobre a linha, mas dentro da linha estrita da justiça.”.

Essênios

A jewishness deste grupo político-religioso é, basicamente, caracterizada pela busca incessante da pureza.  A busca da pureza para os essênios estava relacionada com o isolacionismo, a fuga para o deserto e a busca da sabedoria.[2] No período do domínio romano estava ligada à resistência contra o dominante, fosse ele quem fosse.

Benedikt Otzen (2003, p.178-185) apresenta algumas outras características, tais como o celibato, a ordem baseada na liderança dos anciões, a prática mais rigorosa do shabat e das Leis, e o repúdio da autoridade do Templo de Jerusalém.[3] Outro fator de importância inegável dentro de sua bagagem identitária é a centralidade na imortalidade da alma, bem como o apocaliptismo[4].

Fariseus

Era considerado o grupo maior, graças às suas idéias de cunho popular.  A identidade do grupo era baseada prioritariamente na Lei, a qual devia ser seguida pelos judeus de todos os grupos sociais, inclusive aquelas anteriormente destinadas ao grupo sacerdotal. Esta visão da Lei é denominada por Otzen (2003, p.155-157) de “Sacerdócio Universal”.  Nas palavras de Porto (2008, p.248), “apresentavam um caráter amplamente democrático, pois várias interpretações eram permitidas.” Baseavam-se principalmente na observância do shabat, da pureza e do pagamento do dízimo. A questão da pureza é muito importante, atestada pelo próprio significado da denominação dos integrantes. Em hebraico parush (plural perushim), nas palavras do rabino Natan Ben Yehiel de Roma (1035-1106): “é aquele que se separa de toda impureza, e de toda comida impura.”[5]

Eram sinergistas, acreditavam que os acontecimentos decorriam da vontade divina em cooperação/conflito com os atos humanos, ou seja defendiam o livre arbítrio, mas sempre crendo no poder de Deus sobre o destino humano, mas representando um papel misericordioso. (JUNIOR, 2010, p.10) Acreditavam também na ressurreição, nos anjos e nos espíritos desencarnados.

As ferramentas para a defesa desta identidade se encontravam nas escolas, onde era divulgada e esclarecida. Situavam-se geralmente no prédio da sinagoga, sendo todos incentivados a aprender o hebraico no intuito de melhor compreender as Leis. Por isso na gênese do movimento tinham estreitas ligações com os mantenedores da Sagrada Escritura (sefarim). Com o fortalecimento dos fariseus, é mantido o apoio aos sefarim, mesmo quando eles modificam sua função dentro da comunidade, tornando-se os responsáveis pela transmissão fiel das Leis através da escrita (soferim)[6].

Terapeutas (therapeutai) ou Hemerobatistas

Formavam um grupo religioso baseado na procura da pureza da alma pela busca do corpo são. A saúde do corpo era alcançada tratando a alma e o espírito. Joaquina Carita em seu artigo Uma Utopia em Fílon de Alexandria (2009), desenvolve a idéia de que a saúde plena era a conjugação do corpo e da alma, e da alma com a consciência, habitada pelo espírito.

A vida ascética era valorizada: viviam em comunidades isoladas no deserto, em que inexistiam a propriedade privada. Possuíam uma atitude liberal em relação às mulheres, que desempenhavam um papel importante dentro da hierarquia. Defendiam o relacionamento e a troca de conhecimento com qualquer indíviduo, mesmo os de origem grega ou romana.

Saduceus

O grupo dos saduceus baseava sua identidade principalmente na ancestralidade, ou seja, na pretensão de serem descendentes de Zadoque, o primeiro Sumo Sacerdote do Templo de Jerusalém. Além disso, uma forma mais rigorosa da Lei escrita era defendida, não admitindo de nenhuma forma sua atualização, releitura e acréscimo. Preocupavam-se com a liturgia, com os protocolos, rituais e procedimentos. Vagner Carvalho Porto (2007, p.246), acrescenta outra característica: a defesa do livre arbítrio, dissociando Deus do mal. Defendiam trocas culturais com os gregos na medida em que os ajudassem na administração e nos negócios do Templo.

Zelotas

Identidade baseada na figura de Deus como protetor do povo judeu, na figura dos pobres, viúvas e órfãos. Só Deus é soberano, sendo assim, desejam apenas ser governados pelo Senhor na figura de um Messias, descendente de Davi. Este objetivo só seria alcançado em uma luta contra os colonizadores e seus colaboradores nativos.

Defendiam o tema do apocaliptismo interligado com a figura de Deus como defensor dos necessitados. Dentro deste grupo havia um outro mais radical, denominado sicário. Sua característica básica era a prática da Lei, com o objetivo de chegar ao reino celeste, tendo como ferramenta a violência e a provocação dos dominantes.

Betusianos ou Herodianos

Surgem no período do governo de Herodes Antipas e seus integrantes sendo, eram na grande maioria, da mesma família. Forneceram diversos sumos-sacerdotes no século I  a.E.C. Eram defensores da santidade da Lei escrita, cujos sucessores foram os caraítas. Os betusianos também são adeptos aos contatos culturais amplos com o conquistador romano.

Entretanto, existiam muitos outros grupos pequenos, sem importância, dentro do contexto judaico da época trabalhada pelo post. Muitos líderes fugazes arrebanhavam grande número de seguidores, como é relatado por Josefo em sua obra Guerras Judaicas (2. 261-262):

Um golpe […] foi aplicado aos judeus pelo falso profeta egípcio. Um charlatão, que havia ganho a reputação de profeta, apareceu no país, arregimentou uma comitiva de cerca de trinta mil ingênuos, e levou-os através de um circuito pelo deserto, ao Monte das Oliveiras.

 

A literatura helenística de cunho judaico e os escritos religiosos foram utilizados como um meio para a ampla disseminação das diversas identidades judaicas. A maioria dos grupos possuía uma produção literária prolixa, embora poucas obras tenham chegado inteiras à atualidade. O conhecimento das mesmas se deu através de citações em alguns escritores, tais como Flávio Josefo, Eusébio, Diodoro Sículo, dentre outros. Um conhecimento mais apurado também se deu graças aos achados dos Pergaminhos do Mar Morto, encontrados nas cavernas de Qumrã[7]. Vários escritos podem ser mencionados, tais como: III e IV Oráculos Sibelinos em que são empregadas a forma literária grega dos oráculos para articulá-las. Nestas trocas, as tradições judaicas têm prioridade, já que os gregos são convidados a compartilhá-los; 2 Henoc[8], obra apocalíptica cujo tema central é a preocupação explícita com a vida na diáspora; .a Sabedoria de Salomão, obra considerada por Nickelsburg, como sendo uma exortação à busca da sabedoria, vivendo de uma maneira justa, sintetizando pensamentos gregos com tradições de sabedoria judaica.

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Notas

[1]              Tiveram papel importante na revolta dos Macabeus havendo por isso mesmo, referência a eles em I Macabeus, 2, 42: “A partir daí, uniu-se a eles os grupos dos hassidim, que eram israelitas fortes, corajosos e fiéis a Lei.”

[2]              Na produção literária das diversas comunidades do deserto é apreciável não só a criação, mas também a cópia de escritos tradicionais da cultura judaica na Antiguidade. Exemplo desta produção são os papiros e pergaminhos encontrados nas cavernas do Mar Morto.

[3]              O autor aprofunda mais suas idéias a ponto de indicar uma linha de sincretismo com as culturas da Babilônia, do Egito e da Pérsia.

[4]              Produziram uma literatura numerosa e de extrema riqueza sobre a chegada do fim do mundo e do alvorecer do novo. Acreditavam que aconteceria através da luta dos “filhos das trevas”, contra os “filhos da luz”.  As obras fazem parte do conjunto dos Manuscritos do Mar Morto.

[5]              Grande autoridade medieval italiana no léxico relativo a literatura talmúdica do midrash.

[6]              Os escribas eram chamados de soferim, porque costumavam contar todas as letras da Torá. (URBA, 1999, p.114) A palavra deriva de a raiz hebraica safar, significando contar. Segundo E.E. Urba (1999), os escribas judaicos podem ser comparados com os gramáticos e intérpretes gregos de Homero que viviam no século III a.E.C..

[7]              Escritos foram achados no ano de 1946, dentro de jarros encontrados em cavernas nas montanhas a beira do Mar Morto onde na Antiguidade, existia uma das comunidades dos Essênios. Foram encontrados nove pergaminhos inteiros ou com a maioria intacta e milhares de fragmentos de outros novecentos manuscritos hebraicos, aramaicos ou gregos, escritos entre 250 a.E.C. e 68 E.C..

[8]              Foi composto em Alexandria por um judeu do século I E.C.. (Nickelsburg, 2011 ,p.428-429)

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