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[Pincás¹ Kovel. – edição e tradução do iídish por Moisés Spiguel]

 O massacre final

Os judeus confinados no gueto ‘areial’ ignoraram durante vários dias a liquidação dos moradores do gueto da ‘cidade’. Naquela noite circularam rumores de que algo extraordinário estaria ocorrendo na ‘cidade’, levando o desassossego a todos. Ao raiar o dia ouviram-se tiros vindos dos arredores da cidade, o que aumentou ainda mais os temores e maus pressentimentos. Porém o que realmente estava acontecendo no gueto da ‘cidade’ nem imaginavam.

Somente no terceiro dia soube-se que todos os judeus do outro gueto haviam sido assassinados.

Pode-se imaginar como os judeus receberam a pavorosa notícia e como se sentiram ao compreenderem então que o mesmo fim lhes aguardava.

Aterrorizados, entreolhavam-se em silêncio, sabendo que seu destino estava selado e que nada nem ninguém poderiam ajudá-los. O gueto estava fortemente guardado e não havia para onde fugir. A morte rondava cada trilha, cada caminho.

Em certa ocasião, algo inesperado aconteceu: um grupo de ‘partisans’, disfarçados com uniformes alemães entraram com um carro pelo gueto adentro, levaram alguns rapazes e moças e desapareceram.

Os moradores do gueto foram novamente levados para fora para o trabalho-escravo. Eram rigorosamente revistados tanto na saída como na entrada junto ao portão do gueto, à procura de comida, dinheiro ou qualquer outra coisa que pudessem estar levando escondido. Quando encontravam algo por mais insignificante que fosse, eram punidos com espancamento ou a morte.

Durante uma dessas revistas encontraram dinheiro escondido dentro dos sapatos de Leizer Kartofle. Foi sumariamente morto junto ao portão.

Após dois meses de confinamento no gueto do ‘areial’ os judeus foram transferidos para o outro gueto já vazio. No espaço de um dia, mais de dez mil pessoas já se encontravam nas casas sombrias e abandonadas do gueto da ‘cidade’. Com seus parcos pertences instalaram-se onde e como puderam.

Duas semanas após, numa terça-feira à noite, os judeus foram concentrados novamente na Praça Paradnes. De lá, na madrugada de quarta-feira, 19 de agosto de 1942, foram levados para o mesmo lugar do massacre dos judeus do primeiro gueto e, junto à mesma cova, homens, mulheres e crianças. Foram todos mortos.

Lá, a seis quilômetros de Kovel, perto da aldeia Bachava, não longe da estrada que liga a cidade a Brisk através de Ratne, encontra-se a cova onde tombaram os mártires judeus de Kovel e arredores, assassinados pelos nazistas alemães – ימח שמם – que seus nomes sejam riscados para sempre.

Na época da segunda liquidação houve também tentativas de refúgio em porões, sótãos e outros locais que parecessem seguros. Os policiais ucranianos, porém, localizaram quase todos (os que conseguiram escapar lograram se abrigar entre camponeses caridosos; graças a eles foi possível conhecer todos os fatos e relatos aqui registrados). Os localizados pelos policiais ucranianos nos esconderijos onde se abrigaram, homens, mulheres e crianças, foram presos e confinados no Portal(3) Iachnerai-Grande Templo-1-texto 7Grande Templo.

Permaneceram durante dias sem alimento e sem água. Um grande contingente de policiais ucranianos e soldados alemães fortemente armados cercava inteiramente o templo, impedindo qualquer tentativa de fuga.

Uma das mulheres confinadas, Eva Erlch, tentou escapar por uma janela e tombou baleado no local. Dois jovens, presos junto com as trezentas pessoas confinadas no Grande Templo conseguiram se salvar — Moisés Bebtshuk  e Scher.

Durante o confinamento alguns policiais entraram no templo e tentaram levar várias jovens, mas a reação enérgica e os protestos em altos brados fizeram com que desistissem. Os sitiados, perante o trágico e inexorável destino que os aguardava, escreveram com o próprio sangue nas paredes do templo, seus nomes e o tipo de morte que os aguardava exortando por vingança pelo sangue inocente derramado.

Após mais alguns dias trancados, os trezentos judeus sobreviventes foram todos assassinados.

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De acordo com o testemunho e os relatos de antigos moradores de Kovel que retornaram da Rússia e visitaram a cidade após o final da guerra, Kovel estava completamente queimada e em ruínas; conseqüência dos intensos bombardeios e duelos de artilharia durante a fuga das tropas nazistas acossadas pelo exército soviético.

Ficaram em pé apenas alguns poucos prédios, o Grande Templo e parte da Estação Central da Estrada de Ferro.

Os mesmos visitantes prestaram homenagem aos mártires judeus junto à cova onde tombaram. Puderam ver pessoalmente o resultado dos crimes cometidos pela Alemanha nazista contra nossos irmãos de Kovel.

Estiveram também no interior do Grande Templo onde as pessoas foram humilhadas, torturadas e mortas. Foi possível ler nas paredes os nomes dos martirizados e as palavras escritas com sangue: “JUDEUS, O SANGUE INOCENTE DERRAMADO CLAMA POR VINGANÇA”, “IRMÃOS JUDEUS, NÃO ESQUEÇAM JAMAIS O QUE OS NAZISTAS ALEMÃES FIZERAM CONOSCO”.

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Estas palavras escritas em local sagrado com o sangue de nossos irmãos, os mártires da comunidade judaica de Kovel, estão ante nossos olhos e ante os olhos de todos os judeus e, como açoites flamejantes, fustigam o mundo inteiro, clamam e advertem: vejam o que a Alemanha representa. Vejam quantos crimes os nazistas cometeram contra homens, mulheres e crianças pelo único motivo de serem judeus. Jamais esqueçam, pois nunca poderá haver perdão para tais crimes;

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¹Pincás (פנקם), é uma obra coletiva de dezenas de autores e escritores de memoriais de  cidades atingidas pelo Holocausto (N.T.)

 

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