Os Judeus no Egito após Alexandre.

As primeiras informações necessárias para o entendimento do período da presença judaica após a morte de Alexandre são aquelas referentes aos contatos no Egito Helenístico. Acontecem apenas através dos colonos já fixados, sobreviventes de outras ondas migratórias e da expansão econômica e militar dos Ptolomeus.[1] O Egito torna-se um dos maiores centros populacionais da diáspora judaica. Papiros e inscrições atestam a presença judaica em diversas cidades do Egito Helenístico, como nos mostra a inscrição da segunda metade do século II a.E.C.: “Em nome do rei Ptolomeu e rainha Cleópatra e irmã e rainha Cleópatra, os judeus de Xenephyres (dedicou) ao portão da sinagoga construído quando Teodoro e Aquilão estava presidindo.” (TCHERIKOVER, 1992, num. 24)

Depois da morte de Alexandre, Ptolomeu I Soter (323-285 a.E.C.) domina o Egito colocando como seu objetivo trabalhar a fusão das culturas produzidas pelas diversas comunidades, sejam elas estrangeiras, helenas ou nativas. Corroborando com o pensamento acima, Isócrates (apud CUADRADO, 2005, p.304) faz a seguinte afirmação: “usa-se o nome grego não como uma raça, senão como uma cultura, e classifica-se de grego mais por aqueles que participam de nossa educação, do que por aqueles com a mesma origem.” Teve como principal instrumento para alcançar seu objetivo a Biblioteca de Alexandria e o Museu, instrumentos poderosos para a helenização da região.

Estas duas instituições possuíam uma ligação íntima, principalmente quando Demétrio de Falero as conecta como uma única instituição. O tamanho da coleção da biblioteca é incerto, mas fontes como a Carta de Aristeas a Filócrates nos apresentam um número superior a duzentos mil volumes, já segundo Hadas (2007, p.97) o número variava de duzentos mil a setecentos mil volumes. Na idéia da pesquisadora espanhola, Cecília Fernández Fernández (1995,p.159), o tamanho da coleção foi com precisão descrito por Teztes (século XII): “a biblioteca possuía quatrocentos mil symmigeis (rolos contendo mais de uma obra, ou melhor, obras contidas em mais de um rolo); e noventa mil amygeis (rolos contendo apenas uma obra[2])”

As obras eram coletadas de várias formas, geralmente empréstimos para que as próprias fossem copiadas. Uma maneira importante era o confisco feito nos navios quando aportavam no porto, levados à biblioteca, onde os originais eram reproduzidos, mas só a cópia era devolvida. Para esta função havia na instituição um scriptorium[3], também responsável pela criação de normas como a extensão do rolo, a altura das colunas e o número de linhas.[4] A maioria das obras pertencentes à biblioteca estava escrita em grego, e  era produzida por autores gregos.

Sua função básica era concentrar todo o conhecimento grego e a maioria do saber dos outros povos conhecidos. (CLÍMACO, 2011, p.28) Com isso, os ptolomeus tornaram o conhecimento acessível a estudiosos de várias regiões. Luciano Canfora considera a biblioteca como instrumento de dominação, pois com a tradução dos escritos de todos os povos se poderia ter acesso as suas tradições.

Há uma grande discussão sobre quem foram os primeiros bibliotecários, pois não se sabe ao certo qual era a função de Demétrio de Falero[5]. Entretanto, neste artigo, é utilizada uma lista dos bibliotecários, fornecida por Fernández (1995, p.162), que considera os três primeiros como sendo: Zenódoto de Éfeso, Apolônio de Rodes e Eratóstenes de Cirene.

O Egito se transforma, nas palavras de Ângelos Chaniots (2009), “no coração das monarquias helenísticas”, graças ao seu potencial econômico, se tornando um dos maiores trunfos dos ptolomeus. Os reis subseqüentes a Ptolomeu II Filadelfo, tendo seus poderes diminuídos, começam a criar um movimento para a utilização de instituições faraônicas mescladas com as ptolomaicas.[6] Este movimento foi tão forte que houve uma conexão entre os reis ptolomeus e os antigos governantes egípcios, estimulada e propagandeada, não apenas pelos sacerdotes egípcios, mas inclusive pelos poetas gregos.

Entretanto, os primeiros helenos a incorporarem valores egípcios em seus costumes foram os de mais baixo nível econômico, formando uma identidade híbrida através de uma intensa troca cultural, facilitada pelos casamentos mistos. Segundo Nicodemo Valim de Sena (2012, p.44), os pequenos comerciantes varejistas pertenciam a este amplo grupo que não possuía denominação civil. Acrescente-se também os camponeses sem propriedade e os imigrantes sem profissão.

Alexandria foi uma cidade planejada, projetada para ser a sede de um grande império. Era o símbolo do helenismo, pois seu ambiente foi construído com uma mistura de elementos, tendo o caráter grego como predominante. Antes da escolha da cidade por Alexandre, havia uma cidade no mesmo local. A divisão do território foi feita em cinco setores denominados pelas primeiras cinco letras do alfabeto grego.

 

Seguindo o pensamento de Pierre Levêque (apud SENNA, 2012, p.41), três fatores explicariam o desenvolvimento de Alexandria: o primeiro é a transformação da cidade em capital e centro político do reino Lágida;[8] o segundo, a realidade geográfica do território da cidade, pois é o único porto natural de toda a terra do Egito;[9] e por último, o terceiro é a transformação da cidade pelos dois primeiros ptolomeus em centro cultural do mundo grego.

Confirmando seu caráter helenístico, os governantes incentivavam a vinda de comerciantes, artesãos e mercenários para se estabelecerem na cidade tornando-a um mosaico cultural. Os estrangeiros são reunidos em diversas politeumata[10]. Durante os três primeiros ptolomeus, foram construídos a maioria dos equipamentos públicos, como edifícios, templos e as outras instituições importantes para o bom funcionamento de uma polis toda especial.

Sua organização se dava a partir das tribos como resultado da multiplicação das demos[11]. A vida cotidiana da população estava vinculada ao ginásio[12], a efebeia[13], aos banhos, ao teatro, a uma assembléia e a gerusia. A cidadania na época estava ligada a participação no ginásio e na efebeia, sendo flexível o suficiente para incluir os imigrantes de origem helena não macedônica. Os imigrantes poderiam ser de uma polis ou uma federação, mas nas palavras de Modrzejewski (2001, p.81): “também poderiam ser parte da grande massa de indivíduos das regiões norte e noroeste do mundo de língua grega cuja organização social era estranha á cidade estado.”

As origens da comunidade judaica em Alexandria são muito obscuras, como são também as do período anterior da existência da cidade. Apesar desta obscuridade, segundo Peter Borgen (1998, p.75), ocorreram três momentos de fixação de judeus: o primeiro, encontrado em Josefo, no relato apresentado do convite ou permissão feito por Alexandre para a fixação na cidade com os mesmos direitos dos gregos;[14] o outro momento é a captura e o transporte de inúmeros prisioneiros para a terra do Egito, inclusive Alexandria, por Ptolomeu I Soter (320 a.E.C.; 312 a.E.C.; 302/301 a.E.C.);[15] e, por último, a imigração voluntária de um grande grupo seguindo o Sumo Sacerdote  Ezequias.

Com a região tendo o mesmo dominador durante mais de cem anos, os laços com Jerusalém eram fortes e a comunicação fácil. O rei permitia aos judeus terem um status jurídico especial, vivendo em politeumata.[16] (TCHERIKOVER, 1999, p. 239-241) [17] Possivelmente Ezequias, implantou uma comunidade baseada nesta forma jurídica.[18]

A população de judeus em Alexandria estava em torno de quarenta por cento do total, sendo a maior e mais importante comunidade da diáspora.[19] Uma prova do grande número de judeus na cidade foi a primeira tradução oficial da Torá[20] para uma língua vernácula ser executada lá, como mostra a Carta. Dos cinco bairros em Alexandria, dois eram judeus, mesmo assim, muitos poderiam morar no resto da cidade se tivessem vontade. Graças a esta mobilidade, os contatos com as diversas comunidades eram grandes, tornando as “misturas étnicas” comuns. Os bairros se situavam ao longo da costa, do porto, perto do palácio real, isto é, na parte nordeste da cidade.

A organização variava de acordo com cada comunidade judaica, em Alexandria era uma politeuma liderada por uma gerusia[21] e pelos arcontes[22]. Estrabão (63 a.E.C. a 21 E.C.) relata a presença de um ethnarcos na politeuma judia de Alexandria, com a função de governar o povo, julgar os fatos, supervisionar os contratos e ordens, como se fosse cabeça ou líder mesmo de um Estado soberano. Possuía uma assembléia popular, um arquivo de registros oficiais judeus e uma corte especial para julgar casos relacionados com a Lei judaica. O politarca em Taremu (Leontópolis, em grego Leonton polis ou Leonto e em latim Leotos Opidum) era equivalente ao ethnarcos, naturalmente a liderança militar sacerdotal dava à comunidade uma distinção própria.

Estrabão, o Talmud e alguns papiros testemunham a existência de instituições legais judaicas no Egito, baseadas no oficio do ethnarcos ou do conselho dos anciões ou em ambos.[23] Por isso a Tora, é elevada ao nível da lei cívica grega, a nomois politikos. Documentos legais de Fayum, datados do século III e II a.E.C., mostram a utilização livre das leis helenísticas. Já nas outras áreas da terra do Egito a situação dos judeus é menos favorável.

Relatos nos mostram que o emprego de mercenários militares judeus no Egito, em lugares específicos e em distritos diferentes, ainda era muito comum. Não era uma situação nova, pois,  isto já acontecia durante o período do faraó Psamético e do governo dos persas. Eram reunidos em colônias militares ou campos judeus (ioudaion stratopedia ou castra ioudaeorum), onde a doação de terras inicialmente poderia ser retirada ao bel prazer do rei, mas aos poucos foi se tornando hereditária. (SCHURER, 1973, p.41-42) Eram denominadas de kaitokiai ou cleruquia[24], não formando unidades independentes – mas havia exceções como nas localidades onde os judeus eram numerosos. Um bom exemplo era Taremu (Leontópolis).[25] Alguns judeus, segundo Tcherikover (2001, p.163), serviram como oficiais, como Eleazar, filho de Nicolau, de acordo com inscrição encontrada em Fayum[26]. Na inscrição seu posto era de hegemon, logo abaixo de strategos.

Além disso, poucos soldados realmente exerciam as funções relativas à agricultura, locando suas terras para arrendatários comuns ou delegando estas tarefas para empregados de confiança. Moravam geralmente nas grandes cidades. Os judeus também trabalhavam como camponeses reais, especializados em vinhedos ou arrendatários reais. E ainda exerciam qualquer outra profissão oportunizada pela sociedade. Poderiam ser pastores e funcionários da administração ptolomaica,[27] mas foi no ramo comercial foi onde mais se destacaram, podendo ser proprietários, donos de navios, mercadores comuns ou pequenos comerciantes. (PINSKY, 1971, p.101) O destaque era fruto, muitas vezes, de vínculos familiares ou de uma rede criada entre as diversas comunidades da diáspora, ao redor do Mundo Antigo conhecido. Apesar de trabalharem com afinco em diversas profissões, as evidências em relação a salários, contratos, dívidas e afins, mostram uma maioria pobre, o que não parece ser exceção nas comunidades judaicas da diáspora. (SMALWOOD, 1981, p.223)

Culturalmente os judeus produziram muito no Egito Helenístico e Romano. A literatura floresceu de forma nunca antes imaginada fora de Judá, utilizando estilo e modelos literários desenvolvidos pelos helenos, como  drama, poesia, filosofia e historiografia. Alguns escritores e sábios tiveram fama e relevância maior que outros como é o caso de Demétrio, o cronógrafo, autor da obra Sobre os Reis da Judéia. Esta versão sobre a antiguidade da tradição judaica, apresentando a história bíblica na forma da historiografia cronológica grega, escrevia em koine. Sendo um exegeta escreve também uma obra sobre a Septuaginta. Sua produção literária é datada no século III a.E.C. sob Ptolomeu IV Filopator, e foi provavelmente composta em Alexandria.

Outra figura importante dentro da construção literária foi Ezequiel, cuja produção abrangeu um período de tempo que se estende da segunda metade do século III a.E.C. até a primeira metade do século II a.E.C.. Autor de um drama denominado O Êxodo, emprega a forma literária grega para interpretar seu auto-entendimento de um indíviduo judeu. Artapano também deve ser mencionado, produtor de um romance histórico, cujo assunto é a influência gerada por Moisés e José em vários campos do conhecimento.

Sem esquecer uma gama de autores que expressam atitudes positivas em relação aos governantes como Aristóbulo, o autor da Carta e dos Oráculos Sibilinos. Segundo Peder Borgen (1998, p.88), os escritores exaltam os judeus, sua filosofia e sua religião, expressando um sentimento de superioridade. A literatura deste período reflete a tensão dentro das comunidades judaicas, resultando em uma ampla gama de atitudes. Característica típica é a tentativa de combinar observância com uma fusão de idéias gregas e judias ou judias e egípcias.

Lugar importante para discussão de idéias e orações, as sinagogas, normalmente serviam como centros comunitários, com exceção do Templo de Onias. A synagoga também conhecida como proseuche (casa de oração) tinha a seguinte estrutura: um coordenador denominado archisynagogos, dois sacerdotes, um sacristão, um leitor e um tradutor (PINSKY, 1971, p.104). A administração era composta por dois funcionários, o bedel e o zelador. A adoração era feita através da leitura da Torá, possuindo também uma mikve[28]. Nela, era apresentada consideração e respeito aos governantes através de inscrições similares as dedicatórias cristãs. Duas inscrições atestam a presença de sinagogas no Delta ocidental (entre 143 e 117 a.E.C.); uma em Xenefiris e a outra em Mitriai. (BORGEN, 1998, p.85) [29]

Na administração de Ptolomeu I Soter as relações entre as diversas comunidades do Egito e poder central pareciam ser bem calmas e profícuas. No governo de Ptolomeu II Filadelfo tem início de um movimento de crítica e propaganda com o objetivo de denegrir a cultura judaica. O motivo era óbvio tanto os gregos como seus súditos helenizados, viam a possibilidade dos judeus conseguirem se impor culturalmente dentro das fronteiras do Mediterrâneo Oriental. Pela primeira vez nomes judeus apareciam em inscrições e obras literárias pagãs. Apesar disso, suas relações com a Judéia eram ótimas: lá, trés de um contrato a família dos Tobíadas desempenhava um papel central na administração pública e a família sacerdotal dos Oníadas, nas questões religiosas.

O governo de Ptolomeu VI Filometor representa o período de florescimento da história do povo judeu no Egito.[30] Um fato central dentro da trajetória dos judeus no Egito Helenístico acontece no seu reinado, quando da chegada do Sumo Sacerdote Onias IV de Jerusalém, junto com o grupo que o apoiava. Grupo este composto por indivíduos de diversos setores da população de Jerusalém, tais como os sacerdotes, artesãos e alguns soldados. Ptolomeu VI o recebe com honras, graças ao seu interesse no bom relacionamento com as diversas comunidades do Egito e com o governo da Judéia. Graças aos favores do governante e da autoridade de Jerusalém, Onias constrói um Templo e funda um assentamento militar em 145 a.E.C., no nomo de Heliopolite. O templo foi construído sobre o sítio de um antigo templo de uma deusa egípcia chamada Bastet[31]. Localizado em uma região estrategicamente importante e o fato dos hebreus serem responsáveis por sua defesa durante cem anos, indica sua forte posição na política ptolomaica.[32] (TCHERIKOVER, 1966, p. 277-280; 1957, 2 e 19-21)

Ptolomeu VIII Evergetes (146 a.E.C. a 116 a.E.C.) foi conhecido como o grande oponente da cultura judaica e, por conseguinte, de todos seus admiradores. A perseguição efetuada contra as comunidades judaicas, unindo-se à descrição do festival que comemora a vitória ou anistia sobre o dito governante, é o assunto de outra obra importante da literatura helenística de cunho judaica, III Macabeus.

O grupo capitaneado por Onias e seus filhos tomaram parte decisiva nas lutas de sucessão. Autores como E. Mary Smalwood (1981), pensam ser deste envolvimento ser a origem das violentas tensões entre a comunidade grega e judia. Tal como o pai, os filhos de Onias eram altos oficiais no exército da rainha Cleópatra III.[33] Os líderes judeus não eram apenas chefes militares, mas influenciavam nas decisões políticas. No governo de Cleópatra III (116 a.E.C. a 102 a.E.C.), o grupo de Taremu (Leontópolis) possuía um grande poder e sabiam como usá-lo para influenciar os rumos da política egípcia. Muitas vezes, estes líderes seguiam as diretrizes das lideranças hasmonéias, demonstrando a influência dos hasmoneus nas comunidades da diáspora.

Josefo narra apenas dois incidentes onde os judeus estavam envolvidos: o primeiro, durante o reino de Ptolomeu XI Auletes, rei títere romano; o segundo em 48 a.E.C. com a invasão do Egito por Júlio César. No caso de Júlio Cesar, a guarnição de Taremu (Leontópolis) presta socorro a ele e ajuda na conquista do Egito, obedecendo a ordens da Judéia. Os judeus, aos poucos, ao longo do domínio ptolomaico, foram consolidando seu poder e seus privilégios até a conquista romana em 30 a.E.C., tornando-se uma força política considerável.[34]

Após a derrota de Cleópatra em 31 a.E.C., os romanos transformam o Egito em província romana diretamente ligada ao imperador. Por conseguinte o equilíbrio entre as diversas politeumata é rompido, trazendo graves riscos à comunidade judaica. Este é o final do período republicano em Roma extremamente favorável à relação com os judeus, pois mantém a tolerância e são produzidas medidas de proteção contra a hostilidade das comunidades circundantes. Tolerância entendida por Mônica Selvatici (2008, p.31) como a permissão da coleta dos impostos para o Templo; construção de novas sinagogas; guarda do Shabat; permissão das festividades religiosas sociais e políticas das diversas comunidades; santidade das escrituras judaicas e a isenção do serviço militar. As medidas de tolerância foram promulgadas em forma de legislação no século IV a.E.C.[35] Fílon afirma que Augusto confirma os direitos dos judeus para viver de acordo com as Leis ancestrais (Flacco 50 e Legattio 152-158).

Em 11/12 E.C., após a morte do ethnarcus, Augusto reintroduziu o conselho de anciões, a gerusia, e embora outro ethnarcus não fosse escolhido, o cargo nunca foi abolido. O grau de autonomia da comunidade de Alexandria tinha sido possível pelo fato de que, a Alexandria de Augusto, não tinha um conselho na cidade. Segundo Gruen (2002, p.73), os líderes judaicos governavam como uma entidade política autônoma, levando a uma intervenção imperial.

Se por um lado desfrutavam desta grande tolerância, por outro uma atitude tomada em 24/23 a.E.C. pelo imperador Augusto desgostou os outros grupos políticos rivais da comunidade judia dentro de Alexandria. A atitude foi a imposição da laographia, um imposto cobrado sobre todo homem dos quatorze aos sessenta anos, não possuidor de cidadania grega. (SELVATICI, 2008, p. 32) A política romana praticada por Augusto começa a reforçar o elemento heleno e a se ligar às elites gregas para consolidar suas conquistas. Para os judeus alexandrinos, interessados na igualdade de direitos com os helenos, a instituição da laographia apresentou uma forma de barrar seus objetivos,[36] representando um rebaixamento ao mesmo patamar dos egípcios e aos integrantes das variadas comunidades estrangeiras do Egito. A partir de então, a política romana em relação aos judeus se transforma em atitudes dúbias. Perdem alguns direitos como o de integrar o exército e o de atuarem como publicanos.[37] Com o fim da possibilidade de entrar para a carreira militar, as cleruquias, se mantiveram apenas com seu status cívico. A conseqüência mais grave trazida pela demissão dos cargos públicos e da profissão militar, foi o aumento das populações das cidades e o aumento da procura de ocupações agrícolas. Uma mudança para pior acontece com o status jurídico, fazendo com que os judeus se tornem a base da pirâmide social.

O aumento da luta pela recuperação dos direitos e pela preservação  dos restantes, acontece com a ascensão ao poder de Calígula (12 E.C. a 41 E.C.). O delicado equilíbrio entre a autoridade política dos imperadores e a reivindicação exclusivista do culto monoteísta da nação judaica foi quebrado quando o imperador exigiu a colocação de suas imagens nas sinagogas e no Templo.

Muito importante salientar que a postura de Calígula leva aos distúrbios em Alexandria, ocorridos no ano de trinta e oito da era comum. Destes distúrbios possuímos muitas informações graças às obras de Fílon, contemporâneo aos fatos.[38] A interpretação comum dos distúrbios está centrada no problema da cidadania judaica e no aumento de seus direitos como comunidade, entendendo a globalidade dela, como sendo contrária aos gregos. Na verdade, como nos diz a especialista italiana no assunto, Sandra Gambiatti (2009), se o motivo fosse centrado na questão do ódio aos judeus, os emancipados não teriam sido atacados. A questão seria o descontentamento entre os cidadãos alexandrinos, exigindo uma ação do imperador contra os judeus como grupo. Foram enviadas duas embaixadas à Roma: uma ligada à comunidade grega, liderada por Apião, e outra, à comunidade judaica liderada por Fílon. Então Caio Calígula toma sua decisão em 37 e 38 E.C., transformando-a em uma medida política a ser aplicada coletivamente em Alexandria, contra os judeus, diminuindo ainda mais seus direitos de residência.

Os conflitos foram de extrema violência, com agressões físicas, espancamentos, torturas e assassinatos, casas queimadas, lojas saqueadas e sinagogas destruídas. Na verdade, estes conflitos revelaram a vulnerabilidade das comunidades da diáspora, situação que durou até 66 E.C., com a Grande Revolta contra os Romanos. Alguns autores, como Nicodemo Valim de Sena (2012, p.49), mostram um caráter altamente parcial, considerando os judeus culpados pelos conflitos, graças aos desejos de sempre lutarem pelo aumento de seus direitos, sem abrirem mão de suas características culturais.[39]

O passo seguinte foi a mudança empreendida nos critérios de obtenção da cidadania romana, passando da descendência familiar para a educação do ginásio. Até então isso não seria um problema, pois segundo Selvatici (2008, p.33), o teatro e o ginásio eram os principais centros de atividades judaicas.  O problema apareceu quando o imperador Cláudio, sucessor de Calígula, proibiu a entrada dos judeus nos espaços públicos, cortando seu acesso à cidadania. (TCHERIKOVER, 2001, p.270) Atitude provavelmente responsável pelo aumento de movimentos alternativos dentro das comunidades judaicas, es de cunho “nacionalista” ou integracionista.

Cláudio envia uma carta aos alexandrinos, na qual lembra que os judeus não viviam em sua própria cidade, nem possuíam cidadania, e se esforçavam, constantemente, para ter mais do que tiveram no passado. Apesar desta lembrança ele expressa, de forma vaga, o caráter de antiguidade da presença judaica na cidade, como podemos ver em uma cópia do ano de 42 E.C.: “(..) para os judeus que habitam na mesma cidade por muitos anos (..)” (SCHURER, 2000, p.43) Pode-se considerar esta carta como o ponto chave para o encerramento da procura pela obtenção da cidadania.

Outra fonte importante para o conhecimento da posição dos judeus em Alexandria é o documento Acta Isidora[40], onde Isidoro afirma:

(..) eram diferentes dos alexandrinos nos sentimentos, mas a maneira dos egípcios […] são eles que                                  não gostam daqueles pagadores do imposto? Agripa: ‘seus governantes tem colocado taxas sobre                                      os egípcios […] mas ninguém tem colocado sobre os judeus (BEHAM, 2011, p.43)

O documento prova os privilégios adquiridos, mesmo sendo pequenos e não sendo um sinal claro de cidadania. Uma prova da deterioração da comunidade judaica de Alexandria dentro do contexto do Império Romano, foi o pedido feito para que Tito acabasse com todos seus direitos, embora o imperador, a partir de 66 E.C., não tenha concedido novos privilégios a nenhuma das comunidades. O resultado desta situação para Allen Kerkeslager (2008, p.56), foi o aumento das hostilidades entre gregos e judeus, principalmente nos assuntos cívicos, pois os poucos cargos que ainda detinham, foram perdidos.

Assim sendo a vida diária dos judeus até o final do levante contra os romanos foi da luta diária pelos seus direitos e da auto-defesa contra as criticas efetuadas pelas comunidades gregas. A verdade é que, mesmo com todos os percalços, a comunidade ainda detinha grande importância dentro da cidade de Alexandria.

Notas:

[1]              Pode-se fazer uso do livro de Isaías para relacionar com situações do Egito Helenístico. Por exemplo, em 19,18, afirma que a língua de Canaã era falada em cinco cidades egípcias.

[2]              Estes rolos possuíam cerca de sessenta e quatro páginas.

[3]              Era o lugar utilizado para realizar cópias de obras.

[4]              Havia também normas mais específicas como o uso de letras capilares, se o documento fosse transcrito para os papiros; o título era colocado em uma etiqueta unida na parte superior do rolo. (FERNÁNDEZ, 1995, p.161)

[5]              Segundo Joana Campos Clímaco, Demétrio queria transformar Alexandria em uma réplica de Atenas. (2011, p.28)

[6]              Para Turner (1984, p.132), “quase todos os aspectos do governo helenístico no Egito há uma faraônica precedente, bem como uma grega.”

[8]              Na Estela Sátrapa II é relatada a transferência da capital da terra do Egito de Mênfis para a fortaleza de Alexandria. A data de transferência é 314 a.E.C.

[9]              O porto de Alexandria era o responsável pelas maiores transações comerciais de toda a região do Mediterrâneo Oriental. A movimentação de estrangeiros e o contato de culturas diversas era uma constante no local. (CLÍMACO, 2011, p.65)

[10]             Politeumata significa o conjunto de grupos formados de indivíduos vivendo juntos em uma cidade estrangeira. (Middle Liddell)

[11]             Demos é a subdivisão de terras em áreas rurais e urbanas.  (FINE, 1983)

[12]             Centro difusor da cultura grega, aberto aos indivíduos helenizados, inclusive os que não possuíam cidadania.

[13]             Instituição militar, para dar iniciação cívica, moral e religiosa, bem como esclarecer os direitos e deveres dos cidadãos.

[14]             O autor considera o relato de Josefo como falso. A passagem descrevendo o convite/permissão aparece nas seguintes obras de Josefo: Guerras Judaicas 2: 487; Contra Apião 2:35. Tcherikover (1999, p.272) concorda com o relato de Josefo, pois afirma a existência de um assentamento judaico em Alexandria na época de sua fundação. Harold Hegermann (2007, p.126) afirma a importância dos relatos mitológicos sobre os contatos entre judeus e helenos para a luta em direção a homonoia, ou seja, a concórdia pela igualdade de direitos entre as nações.

[15]             É relatado na Carta de Aristeas a Fiilócrates 12-14.

[16]             Dentro de Alexandria havia várias politeumata, uma delas era a dos soldados judeus, tendo dois magistrados, todos de dentro da hierarquia militar, o primeiro era o prostates e o outro grammateus. No Papiro de Heracleopolis é descrito uma politeuma judaica ativa do século II a.E.C.. Seus magistrados eram chamados de politarches/archontes, operando como primus inter pares. (GAMBETTI, 2009, p.45)

[17]             Os judeus com residência legal na cidade eram chamados de alexandreus.

[18]             Relato aparece em Josefo, em sua obra Contra Apião, quando cita Hecateu: “Pois ele possuía para seu assentamento, a sua constituição política por escrito.” (1:189)

[19]             Fílon diz que a população judaica estava ao redor de um milhão de pessoas. (Flacco, 43)

[20]             Não se sabe ao certo o número de exemplares da Septuaginta que circularam entre as diversas comunidades judaicas do Egito, muito menos as do resto do mundo greco-romano. Mas serviram para que os estudiosos gentios e os judeus não falantes do hebraico tivessem acesso a ela.

[21]             Conselho de anciões, formado por setenta e um membros inicialmente governado pelo ethnarcus. No tempo de Augusto eram responsáveis pela administração do governo, função exercida antes pelo ethnarcus.  (SMALWOOD, 1981, p.227)

[22]             Responsáveis pelo poder executivo.

[23]             Papiros de Abusir El Meleq (cento e trinta quilômetros a sudoeste de Alexandria) mostram que os judeus muitas vezes recorriam a tribunais não judeus. A razão parecia ser a não obrigatoriedade do uso de tribunais étnicos.

[24]             Variavam entre 20 a 100 arouras, tamanho este dependente da posição social de cada soldado. A maioria das vezes eram terras situadas na periferia das cidades a vilas no Fayum (Taaude (Crocodilópolis), Kerkeosiris, Samaria-Kerkesephus, Apias, Trikomia, Hephaistas.), e perto do Nilo (Herakelopolites). (Modrzejewski, 2001, p. 83)

[25]             Um assentamento judeu aparece em um documento grego do vigésimo sexto ano de Ptolomeu II e outro em um documento similar da época de Ptolomeu III. (SCHURER, 1973, p.42) Outra informação importante é o relato de Flávio Josefo em Guerras Judaicas, afirmando que judeus alexandrinos levaram o título de macedônios, servindo em unidades macedônicas.  (2:487)

[26]             Região onde na Antiguidade se situava parte da cidade de Taaud (Crocodilópolis).

[27]             Como nos mostra Jaime Pinsky (1971, p.100), os judeus eram secretários, coletores de taxas ou fiscais do governo.

[28]             Mikve é uma banheira, ou uma piscina, localizada um templo judeu. Seu uso tem o intuito de purificar-se ritualmente através da água para remover impurezas causadas pela lepra, pelo sêmem, menstruação, nascimento de uma criança ou contato com um cadáver. Estes rituais purificatórios com água, aparecem em Levítico, 12,2; Números 19,19; Deuteronômio 23, 12. Há a necessidade da água fornecida para a mikve, ter como origem uma fonte natural, ou um rio. (BIRNBAUM, 1964, p.391)

[29]             Interessante mencionar duas inscrições encontradas em sinagogas fundadas por indivíduos ou por famílias do século II a.E.C. em Athubis no Delta. Interessante porque mencionam a divindade adorada o “Deus Altíssimo” (theos hypsistos), orando pelo governante, mas dirigida aos Deus de Israel. (Modrzejewski, 2001, p.95)

[30]             Há algumas inscrições mostrando agradecimento aos governantes ptolomaicos pelas comunidades judaicas. Duas em Atubis na parte sudeste do Delta (século II a.E.C.): “Em honra ao rei Ptolomeu e à Rainha Cleópatra, Ptolomeu filho de Epikydes, chefe da polícia e dos judeus em Atubis (dedicado) o proseuche ao supremo Deus.” (BORGEN, 1998, p.86)

[31]             Deusa egípcia, adorada desde o inicio da Segunda Dinastia (2890 a.E.C.). Era a deusa da guerra no Baixo Egito, na região do Delta. Com o passar do tempo torna-se a deusa da fertilidade.

[32]             Em sua obra Antiguidades Judaicas, Josefo descreve os motivos que levou Onias a construir o templo. O primeiro, seria o desejo de adquirir reputação, para que sua memória fosse preservada; o segundo, a solução para o caso dos judeus que quisessem rezar pelo bem estar do rei, pois quando se reuniam no templo, era sempre com um sentimento de solidariedade mútua. (XIII, 63-67) Já Tcherikover (1999, p.280) diz que o objetivo de Onias na verdade tinha a ver com a ambição pessoal e o desejo daqueles que dirigiam a política na corte real de Alexandria. Existiu por duzentos e vinte anos até ser destruído por Vespasiano, como conseqüência da Grande Revolta contra os romanos. A literatura helenística de cunho judaico não falava nada sobre o templo, talvez pelo mesmo motivo que não foi bem recebido em Alexandria. (HATA, 2011, p.178) A localidade começou a ser chamada pelo povo comum de terra de Onias. Alguns autores como Emil Schurer (2000, p.48) relacionam a construção do Templo de Onias com a passagem de Isaías 19, 18-19, onde diz que o Senhor vai ter um altar no Egito.

[33]             Josefo afirma que Cleópatra III nomeou dois judeus generais líderes de todo o exército. (Antiguidades Judaicas, 13:349)

[34]             Alguns autores como Andrea Frances Behan (……, p.41), defendem o caráter de classe dominante dos judeus na sociedade alexandrina, pois falavam o grego e, para a autora, a distinção de identidades estaria centrada na língua. Entre os falantes do grego, helenos e os que não falavam, os barbaroi.

[35]             As obras de Josefo trazem vários excertos de documentos despachados por oficiais romanos para diversas cidades do Império, para defender os judeus do assédio dos gentios.

[36]             Muitos autores não concordam sobre a realidade da implantação da laographia em Alexandria realmente aconteceu. Dentre eles está Aryeh Kasher (1985, p.19), defensor da opinião que os judeus desta urbe desfrutavam da istelia (igualdade nos impostos) com os cidadãos helenos. Ou Sandra Gambetti (2009, p.4) defensora da adoção do dito imposto apenas para os cidadãos não residentes das cidades de Alexandria, Ptolemaida e Naucrátis.

[37]             Publicanus (publicani) eram os coletores de impostos nas províncias do Império Romano, responsáveis também pelo abastecimento das legiões romanas, de cobras as taxas portuárias.

[38]             Obras como In Flaccum na qual não se tem o inicio, relatando o acordo do prefeito do Egito Aulus Avilius Flacco com as facções anti-judaicas, principais responsáveis pelo sofrimento dos judeus. A outra obra é Legatio ad Gaium na qual não se tem o final, mostrando Caio, o imperador romano com o papel de vilão. Reage contra a recusa dos judeus de considerá-lo um Deus. O cenário não se limita a Alexandria, mas entende-se a todo o Império. (GAMBETTI, 2009, p.1)

[39]             Outro autor defensor da mesma idéia é Andrew Harker em sua obra, Loyalty and Dissidence in Roman Egypt: The Case of the Acta Alexandrinorum. (2008)

[40]             O documento descreve um julgamento ocorrido no ano 41 OU 53 E.C..


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