Portal Iachnerai - AMANHÃ SERÁ OUTRO DIA

 

Segundo o Talmud,  uma compilação que data de 499 d.C. de leis, tradições judaicas e tratados de assuntos legais, éticos e históricos, “Quem salva uma vida salva o mundo inteiro.”

Homens Justos durante o Holocausto tiveram esse mérito por salvar vidas mesmo que poucas em relação aos milhões que não sobreviveram.

Não sou versado em religião, mas pergunto, existe alguma indicação que defina que quem destrói uma alma destrói as almas do mundo inteiro?

E existirá um limite mínimo de vítimas para que crimes continuados não sejam considerados holocaustos?

Esse é um pequeno conto que retrata essa perplexidade.

tortura-tira

 Amanhã será outro dia.

Desta vez, quando voltou, Vanderlei não parecia disposto para conversa. Mas Luis insistia. Trancados naquele cubículo minúsculo e úmido, o silêncio era pesado e opressor.

— Como é que foi hoje? Está muito machucado? Você está bem? Você falou alguma coisa?

Vanderlei suspirou. Limpou com a mão o sangue que escorria da boca.

— Estou bem. Não estou com vontade de conversar. Não falei quase nada lá.

Luis pareceu surpreso.

portal amanhã será outro dia2— Puta que o pariu! Como não falou quase nada?! Quer dizer que alguma coisa você falou! Não me diga que entregou alguém!

Vanderlei permaneceu em silêncio por algum tempo. Depois, não se conteve.

— Pra você é fácil, não é? Não te levam pra lá todo dia como levam a mim!

Luis rebateu. — Eles sabem que nunca peguei em armas como você, porra! Sempre fui um simples simpatizante. Já investigaram e sabem que eu nunca tive contato com grupos armados. Me mantém aqui, não sei por quê!

Vanderlei continuava abalado, mas ainda se dispôs a responder.

— É. Lembro quando você foi levado para interrogatório. Foi uma única vez. E não me pareceu nada mal quando voltou.

Luis aparentou estar ofendido

— O que você está insinuando?

Vanderlei não estava disposto a discutir.

— Nada. Só comentei. Mas porque você se interessa tanto se entreguei, ou não, alguém?

Quase sem forças, silenciou e fechou os olhos. Luis pensou que tivesse adormecido. Mas Vanderlei continuou.

— Usei o truque de sempre. Só dei nomes dos que já foram mortos pela repressão, e de outros já conhecidos pela polícia, e que sei que estão foragidos. Mas parece que já manjaram a coisa. Pararam por hoje.

— Pararam por quê? Ainda é cedo. Me parece que é pouco mais do meio-dia — estranhou Luis.

Mas era visível que em seu estado físico e mental Vanderlei só queria ser deixado em paz para poder talvez dormir um pouco. A única maneira era responder as perguntas o mais rápido possível.

— Houve certo atrito entre o coronel e o dono da empreiteira que estava assistindo. Eu tinha desmaiado, mas logo acordei com o barulho das vozes, sem que percebessem. Estavam discutindo.

Escutei o empresário dizendo: “Não pode interromper agora! Mais um pouco e ele despejaria tudo!”. O coronel tentava justificar: “Não posso deixar de ir à formatura da minha filha. Haverá entrega de canudos, discursos e um baile de gala. Se eu faltar, ela nunca me perdoará”.

O empresário não se conformava: “Olha! A gente não sustenta essa merda para que vocês deixem o trabalho pra ir a festas! Alguns membros de minha diretoria já estão começando a questionar nosso envolvimento com vocês e as despesas que estão sempre aumentando”.

Perceberam então que eu tinha acordado e o coronel mandou que me levassem de volta pra cá.

tortura-portal2Na sala de interrogatórios, a discussão continuava. O empresário não se conformava.

— Além disso, ainda é cedo. Essas cerimônias não são sempre à noite?

— Sim, mas eu tenho que passar no cabeleireiro para apanhar minha mulher, ir pra casa, tomar banho para limpar toda esta sujeira, fazer a barba, me vestir. Olha, doutor, prometo que amanhã começo a sessão bem cedo, e até o fim da tarde arranco tudo daquele filho da puta. Só sai daqui, morto!

O empresário já estava se acalmando. Durante o interrogatório, era visível que estava sob o efeito da adrenalina provocada pela visão das torturas e pelos gritos do prisioneiro.

Nunca perdia essas sessões. Isso o deixava visivelmente mais excitado do que uma transa. Mas agora, sua fisionomia demonstrava que a sensação já estava se dissipando, e pôde se deixar convencer. Seus olhos ainda guardavam certo brilho pela promessa de um espetáculo talvez ainda mais excitante no dia seguinte.

Resolveu acabar logo com aquilo.

— Está bem. Vou embora. Até amanhã. Amanhã venho bem cedo, viu?

O coronel suspirou aliviado.

— Até amanhã, doutor. Amanhã será outro dia.

Na cela, Vanderlei comentou.

— Pode ser que desistiram e concluíram que eu não tenho mais informações pra dar.  O coronel me pareceu propenso a desistir. Vamos ver amanhã. Quem sabe me soltem.

Luis finalmente deixou o colega descansar.

— Ta bom. Vai, dorme. Amanhã será outro dia.

Ainda puderam ouvir gritos e gemidos vindos do outro lado da parede. Já estavam acostumados.

Vanderlei, quase dormindo, conseguiu balbuciar.

— Sim. Amanhã será outro dia.

A cortina fechou. Quando voltou a abrir, palmas soaram na platéia.

Os atores agradeceram, as palmas foram esvaecendo até que pararam. O público se dispersou devagar. Alguns haviam esperado um entretenimento agradável, uma comédia romântica. Outros, mistério e suspense.  Os rostos não aparentavam terem sido atendidos em suas expectativas.

Um senhor idoso, postura ereta, com aparência de militar reformado, comentou para seu companheiro mais jovem: “Isso é coisa de comunista. Nunca houve nada disso”.

Havia expressões sombrias, olhares perdidos e testas franzidas. Não pareciam ter seus espíritos elevados artisticamente, nem suas mentes enriquecidas culturalmente.

Os mais jovens não se sentiam identificados com os personagens. Pareciam duvidar que algo assim pudesse ter acontecido a poucas décadas no país.

Alguns dos mais velhos tentavam não pensar no passado tenebroso. Pareciam perturbados. Porém sabiam que algumas boas horas de sono fariam com que as lembranças do que viram no palco esmorecessem. Diziam a si mesmo: “Amanhã será outro dia”.

[Moisés Spiguel]

 

http://portaljudaico.com.br/vendoo/uploads/2016/09/Portal-Iachnerai-AMANHÃ-SERÁ-OUTRO-DIA.jpghttp://portaljudaico.com.br/vendoo/uploads/2016/09/Portal-Iachnerai-AMANHÃ-SERÁ-OUTRO-DIA-150x150.jpgMoisés SpiguelHISTÓRIAS DO HOLOCAUSTOBrasil,ditadura militar,tortura  Segundo o Talmud,  uma compilação que data de 499 d.C. de leis, tradições judaicas e tratados de assuntos legais, éticos e históricos, 'Quem salva uma vida salva o mundo inteiro.' Homens Justos durante o Holocausto tiveram esse mérito por salvar vidas mesmo que poucas em relação aos milhões que não sobreviveram. Não...Comunidade Judaica Paulistana