imagesConhecer as filhas do namorado… Estava na minha lista, junto com ir ao dentista. Adoro “motorzinho” de dentista. Quem não gosta, certo? Não fosse pelo amor que temos por essa ferramenta emblemática, provavelmente já teriam inventado algo diferente. Daqui uns cem anos, quando as cadeiras de dentista flutuarem sobre um colchão de ar dentro da estação espacial mais próxima do colégio holográfico das crianças e o raio x for feito previamente pelo celular, o androide que atender vai ser programado para sorrir maliciosamente enquanto enfia o maldito motorzinho na boca dos pacientes. Digo “motorzinho”, por trauma infantil mesmo, e porque acho “broca” muito pior… Mas enfim, assim como o dentista, não se pode adiar por muito tempo essa apresentação. E eu sou assim mesmo, precisa fazer, faz tudo de uma vez.
Marquei de conhecer as meninas logo que senti que o namoro ia durar (aparentemente, se o namoro passar de 3 meses, eu caso. É tipo “efetivação depois do período de experiência”). Eu não sou muito boa em fingir e mentir. Não que não saiba ou tenha feito eventualmente uma ou ambas as coisas, mas prefiro não, por princípio e por preguiça… Acho que mentir dá muito trabalho e em geral não funciona. Além do mais, se eu fosse fingir ser o que não sou, teria que manter a farsa pelo resto da vida, como algumas pessoas fazem, e eu acho isso exaustivo demais. E não é que nos demos razoavelmente bem? Eu gostei tanto delas que fazíamos programas todos juntos sempre que possível.
A mais velha tinha quinze anos, nessa idade tudo é meio impossível e intenso. Como eu não sabia quanto tempo permaneceria na vida dela, tratei logo de “criar lembranças”. Meu conselho? Se você tiver a oportunidade de fazer algo parecido, não faça. Eu tive sorte. Quem saiu traumatizada fui eu, mas poderia ter sido o contrário…
Fomos todos a um parque de diversões. Passeamos, brincamos e estávamos indo embora quando vimos aquela coisa parecida com Bungee Jumping. Eu não sei quem desafiou quem, nem como aconteceu, se foi a adrenalina do dia ou foi a estupidez de uma vida, mas fomos. A menor, de 10 anos, aos prantos antes mesmo de chegarmos à bilheteria. Eu, como boadrasta disse que ela não precisava ir se não quisesse. Inteligentemente, ela não quis. Colocamos todas as nossas coisas em cima daquela menininha magrinha e assustada e fomo nós três, pai, filha mais velha, e madrasta Cruela Cruel… Eu, prática como sempre, ainda perguntei se a menininha tinha o telefone da tia, para o caso da gente se estatelar no chão. Nunca tinha visto antes alguém soluçar daquele jeito… Quem precisa de maça envenenada quando se tem um humor negro como o meu? Até convencê-la de que eu estava brincando… A quem estou enganando? 15 anos se passaram e acho que de vez em quando ela ainda me olha esquisito… Enfim…
Fomos nós três no tal “brinquedo”. Não ouvimos com muita atenção as explicações, nem vimos como funcionava a coisa. Gênios, todos nós… Pois bem, nos colocaram aos três dentro do que me pareceu um casulo, presos uns aos outros. Meu hoje marido no meio, a filha dele de um lado, eu do outro, todos amarrados a correias e elásticos. Trrrumk, Clack, toin toin… Não, esses não são nossos apelidos, isso foi o que a gente escutou quando ligaram a máquina e os três ficaram na horizontal, a um metro do chão. Isso mesmo, amarrados uns aos outros e olhando para o chão, a um mísero metro de distância. Já aí minha veia filosofal começou a trabalhar. Gosto de acreditar que sou uma observadora do cotidiano, que diante das experiências da vida, tiro inspiração e chego a conclusões que transcendem o momento. Foi assim que elaborei os seguintes mantras que repeti de maneira alternada pelos 10 minutos seguintes: “isso não vai prestar”, “tirem-me daqui!”… Fiquei repetindo enquanto éramos puxados ao que me pareceu serem quilómetros de distância do chão.
“Clunk”, não, esse não era o sobrenome do meu namorado, esse foi o ruído quando acabou a subida e nós ficamos, eu achei, entalados na máquina, lá em cima. Vista linda… As luzes começando a acender, o rio lá perto, também parecendo lindo agora que estávamos distantes o suficiente para não sentir o cheiro da poluição… Uma paz… E… E nada. Olhamos para baixo. Impossível saber o que aquelas formiguinhas tentavam nos dizer. Olhamos um para o outro, tentando fazer transparecer uns aos outros que sabíamos perfeitamente o que estávamos acontecendo. E ficamos lá, por alguns minutos. As formiguinhas acenando, eu e a minha enteada pensando que talvez devêssemos acenar de volta. Comecei a me sentir idiota… Tinha certeza de que ia aparecer na TV, já que os bombeiros teriam que nos resgatar lá de cima… Comecei a rir, era uma situação bem ridícula mesmo.
Minha enteada também relaxou e começamos a bater papo, meu namorado entre as duas. Tadinho. Pense numa audiência cativa…
De repente, uma das formigas lá de baixo pareceu apontar para alguma coisa. Minha enteada então percebeu que havia uma alavanca ao lado dela. Todos nós, inteligentíssimos que somos, concluímos que ela deveria puxar. Tratamos de nos preparar, fechei os olhos. Ela puxou. Crunka… Não, também não é o sobrenome de ninguém, acho, esse foi o ruído que a alavanca fez ao ser acionada. E… Nada, absolutamente nada. Crunka, Crunka. Ela puxou e… Nada. Comecei a rir. Os três começaram a rir. E ainda estava rindo quando fizemos Vuuuproim e começamos a cair, em queda livre. Não sei o que foi pior, o “crunka”, o “vuuproim”, ou o não ter prestado atenção na explicação e não ouvirmos que a queda livre fazia parte da experiência. Eu e minha enteada descobrimos nossas primeiras características em comum… Medo da morte e histeria. Meu hoje marido? Ele tinha coisas mais sérias com que se preocupar. Por alguns momentos eu e ela gritamos numa altura que fez com que cães de todas as cidades próximas começassem a uivar. Uma em cada ouvido do pobre homem entre nós. Num dado momento, no entanto, algo falou mais alto dentro de mim. Quão estúpida uma pessoa pode ser para pagar por isso? Pensei. Está aí, castigo vem mesmo a galope! Eu ia mesmo me estatelar no chão e levar a família da menininha lá embaixo comigo. Era a morte mais estúpida do mundo! Sim, tenho a capacidade de delirar sob pressão… Justo naquele momento, em que estava bem empregada, magra e namorando, eu opto pelo suicídio coletivo… Pronto. A prova que meus inimigos precisavam estava ali. Eu era realmente uma débil mental. Com esse primoroso pensamento a me ocupar a mente, de repente achei que, se fosse morrer, devia ter certa classe. Parei de gritar. Assim, de repente. Queria passar talvez uma ultima mensagem de estoicismo fingido, acho. Sei lá. Só sei que parei de gritar.
Pelo menos essa é a versão que eu contei, nas rodas de amigo. A verdade é que a constatação da própria burrice, além da antevisão de ter que ser retirada do local por uma vassoura, dentro de uma pá, fez com que eu entrasse em choque.
Foi uma experiência gloriosa. Eu comecei a readquirir a capacidade de falar e de andar logo depois, depois de passadas umas 12 horas, quero dizer.
Criei ali fortes laços com minhas enteadas. Com a mais nova tenho uma dívida eterna, por quase lhe ter assassinado a família. Com a mais velha, bom, sempre teremos o trauma em comum.
Meu marido confessou depois que, durante a queda, quando eu parei de gritar de repente, achou que tivesse ficado momentaneamente surdo de um ouvido. Ficou assustado, testando por dias, para descobrir o grau da perda de audição. Só teve certeza de que estava bem mesmo quando me ouviu contar a história para amigos.
Pois é, medo de ter ficado surdo… Eu assistindo o filminho nada interessante da minha vida passar diante dos meus olhos, apavorada de virar carne moída no chão sujo (sim! Eu ainda pensei que, se fosse para morrer assim, preferia que tivessem limpado o chão antes!!!) e ele apenas preocupado com uma eventual perda de audição. Digam que não era para casar com esse homem?
Hoje minhas enteadas estão grandes, moças lindas. Aparentemente ambas se recuperaram muito bem da experiência.
Conversamos, passeamos, viajamos, fizemos muitas coisas juntos depois disso… O ultimo brinquedo? Um joguinho de cricket, de plástico, jogado no jardim… Elas podem não estar traumatizadas, mas a madrasta aqui, com certeza aprendeu a lição. De agora em diante, fico só com as maças…

 

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