JUSTOS-CAPA-GUSTAV SCHRÖDER

No Museu do Holocausto – Yad Vashem – em Jerusalém, existe uma árvore plantada em homenagem a cada “Justo entre as Nações”, título concedido pelo governo de Israel em reconhecimento a todos os não-judeus que durante a Segunda Guerra Mundial salvaram vidas de judeus da sanha sanguinária do nazismo.

Gustav Schröder que comandou o transatlântico SS St. Louis na saga para salvar judeus do nazismo é um Justo entre as Nações.

GUSTAV SCRÖEDER-navio-2Após a subida de Hitler ao poder, a Alemanha se tornara verdadeiro inferno para os judeus. Dos 600 mil judeus que viviam na Alemanha em 1933, metade deixara o país.

Dezenas de milhares de judeus passaram a procurar os consulados estrangeiros à procura de vistos.

Finalmente 937 passageiros, em sua maioria judeus, embarcaram em Hamburgo no transatlântico SS St. Louis.

A tragédia do SS St. Louis – Os refugiados não encontram refúgio

Em maio de 1939 o navio St. Louis partia do porto de Hamburgo, na Alemanha, com destino a Cuba. Um decreto existente em Cuba parecia indicar que aceitaria refugiados.

GUSTAV SCRÖEDER-PASSAGEIROSAlguns dos passageiros se viram obrigados a deixar suas famílias, esperando poder mandar buscá-las algum dia. A maioria tinha também requerido vistos para os EUA, planejando ficar em Cuba até ter permissão para entrar no país vizinho.

O navio levava a bordo judeus que deixavam a Alemanha, na esperança de escapar do nazismo que já lançava sua sombra negra sobre a Europa. Mas, ao chegar a Havana, o sonho de liberdade daquela gente se transformou em pesadelo.

A maioria dos países – e principalmente os Estados Unidos – mantinham rígidas quotas de imigração e era cada vez mais difícil para um judeu obter um visto de emigração.

Preocupados, perguntavam-se como seriam tratados em um navio de tripulação alemã, com uma suástica na bandeira. A foto de Hitler pendurada no salão principal parecia confirmar GUSTAV SCRÖEDER-montagemtodos os seus receios.

Mas o capitão do navio, Gustav Schröder, alertara a tripulação que os passageiros judeus haviam pago as passagens integralmente e portanto deviam ser tratados como os demais, com consideração e respeito.

Schröder fez de tudo durante a viagem para ajudar seus passageiros. O capitão chegou mesmo a dar o passo, sem precedentes e extremamente perigoso, de remover o retrato de Hitler da parede do salão de baile para que os judeus o utilizassem como local de orações.

Em seu diário de bordo, o Capitão Schröder descreve aqueles momentos: “Há certo nervosismo a bordo. Apesar disso, todos parecem convencidos de que não retornarão à Alemanha. Cenas comoventes de despedida ocorreram no cais. Enquanto uns lamentavam profundamente a perda de seus lares, outros se sentiam aliviados. No entanto, o bom tempo, a brisa marinha, a boa comida e os bons serviços conseguirão criar o tradicional clima descontraído de todas as viagens. As lembranças dolorosas desaparecerão rapidamente e, em breve, serão apenas sonhos distantes”.

Sempre que necessário o Capitão Schröder procurava ajudar os passageiros. Em 23 de maio, um deles faleceu e teve que ser lançado ao mar. Seu corpo, no entanto, não foi enrolado na bandeira nazista, como determinava o protocolo da marinha alemã, mas na bandeira da linha marítima.

No meio de uma forte recessão, Cuba já absorvera um grande fluxo de refugiados, entre os quais cerca de 4 mil judeus, e os recém-chegados eram vistos pela população local como concorrentes a suas próprias vagas no mercado de trabalho.

Goebbels, Ministro de Propaganda de Hitler, enviara agentes a Havana para fomentar o antissemitismo na ilha e organizar protestos.

Poucas horas depois do navio atracar, funcionários da Imigração subiram a bordo e, sem nenhuma explicação, vistoriaram o navio e desceram, deixando para trás guardas para impedir o desembarque.

Familiares e amigos que tentavam aproximar-se em barcos não puderam fazê-lo. O pânico se espalhou rapidamente. Inutilmente o capitão Schröder tentou acalmar os ânimos, assegurando que não os levaria de volta à Alemanha.

No dia 30 o drama daquela gente chega a um trágico crescendo quando Max Loewe um judeu veterano da 1ª Guerra Mundial, condecorado com a Cruz de Ferro, corta os pulsos e se atira ao mar. Loewe havia sido prisioneiro dos nazistas em Buchenwald.

Um tripulante pulou na água e conseguiu resgatá-lo. Após tentar pular novamente, finalmente Loewe é levado a um hospital, sozinho. Sua esposa não pode acompanhá-lo, sequer visitá-lo.

A pergunta que não calava era: o que eles fariam se fossem levados de volta à Alemanha? Com certeza seriam enviados aos campos de concentração.

O clima de terror a bordo era tal que o capitão Schröder temia suicídios em massa, pois muitos passageiros haviam declarado preferir a morte a voltar. Para evitar tal situação, passageiros e tripulantes criaram uma patrulha que circulava principalmente à noite.

Sem alternativa a não ser levantar âncoras, o St. Louis se afastou de Cuba e o capitão dirigiu-se à costa da Flórida.

Tinha esperança de que os EUA aceitariam a entrada dos refugiados judeus no país. Na manhã seguinte, o desmentido.

Os Estados Unidos também deixaram de ser uma opção. Em 5 de junho, anunciaram que ninguém poderia descer do navio na costa da Flórida.

No Canadá não foi diferente. Quando foi perguntado a um oficial canadense quantos judeus em fuga da Alemanha nazista poderiam ser admitidos no Canadá, ele respondeu: “Nenhum deles já seria muito”.

Ainda havia alguma esperança de que algum país europeu os recebesse. Enquanto as negociações prosseguiam nesse sentido, o capitão Schröder atrasou o quanto pôde a viagem de volta, recusando-se a regressar à Alemanha até encontrar um porto seguro para seus passageiros.

GUSTAV SCRÖEDER-navio2Chegou ao extremo de criar um plano contingencial no qual o St. Louis deveria naufragar “espetacularmente” perto da costa inglesa, para forçar as autoridades britânicas a agir.

GUSTAV SCRÖEDER-navioQuando tudo parecia perdido, após árduas negociações, organizações judaicas conseguiram convencer alguns países a receber grupos pequenos de passageiros.

A Holanda concordou em receber 181; a França, 228; a Inglaterra, 288; e a Bélgica, 214.

Em 7 de junho, o St. Louis rumou à Europa, a países que breve seriam ocupados pelas tropas hitleristas.

Entre 16 e 20 de junho, os passageiros do St Louis foram transferidos para outros navios e levados a seu novo destino.

Depois de ter atravessado o oceano duas vezes em menos de 40 dias, os judeus sentiam-se sós e rejeitados pelo mundo.

Com a eclosão da 2ª Guerra Mundial, poucos meses depois, e com a ocupação dos países europeus nos quais os refugiados  haviam sido autorizados a desembarcar, muitos acabaram sendo enviados para campos de GUSTAV SCRÖEDER-filme.livroconcentração.

Uma pesquisa do Museu do Holocausto, revelou que a maioria dos 288 enviados à Inglaterra sobreviveram.

No entanto o destino dos que desembarcaram na Europa continental foi mais sombrio: 254 morreram, a maioria em campos de concentração.

Apenas 365 sobreviveram; desses, 87 conseguiram emigrar para os Estados Unidos antes de a Alemanha invadir os países que os acolheram.

Um foco de luz ilumina esse negro quadro do SS St. Louis: o capitão Gustav Schröder, que emergiu da tragédia como o herói que realmente foi.

O capitão foi condecorado com a Ordem do Mérito da República Federal da Alemanha quando a guerra terminou, dois anos antes de sua morte em 1959.

Em 11 de março de 1993, o Instituto Yad Vashem de Israel o reconheceu postumamente como Justo entre as Nações. Tivesse o navio voltado diretamente a um porto alemão, todos seus passageiros judeus certamente teriam acabado seus dias em campos de morte nazistas.

Foi graças, antes de tudo, à coragem e determinação desse homem de não abandonar seus passageiros à sua sorte que muitos deles puderam escapar vivos do Holocausto.

(Esses eventos foram dramatizados em um romance de 1974 e no premiado filme de 1976, “A Viagem dos Condenados”).

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