pipa inteira             Pipa no quadro negro

 

Entre 1928 e 1929, o belga René Magritte (1898-1967) produziu uma série de pinturas intitulada A Traição das Imagens (La Trahison des Images). A mais famosa delas é a que está reproduzida acima, Isto não é um Cachimbo (Ceci n’est pas une Pipe), que surpreendentemente causou muita polêmica desde então, principalmente em razão de seu aparente nonsense: vê-se um cachimbo e afirma-se que não se trata de tal.

Na verdade, essa obra se presta a uma excelente reflexão sobre o papel da arte. Inicialmente, deve-se lembrar que o nome do trabalho do belga não é um contrassenso, já que, óbvio, ninguém fumaria o quadro. Então, algo extremamente lógico – mas pouco lembrado – vem à tona: o que temos diante de nós é apenas uma imagem que representa um cachimbo e não o próprio utensílio para fumar. Em suma, não temos o objeto, mas uma imagem dele.

Magritte nos mostra, então, que a arte precisa ser entendida não como a realidade em que estamos, mas como uma representação desta, como um universo paralelo. E funcionando assim, acaba tendo seus próprios mecanismos, que não necessariamente são iguais aos do ambiente em que vivemos. Portanto, é errado exigirmos de um trabalho estético uma conformidade com o nosso universo imediato.

Destaque

‘A Traição das Imagens’ (em francês: La trahison des images)

a obra está atualmente no Museu de Arte do Condado de Los Angeles (LACMA) na Califórnia ,considerado um ícone da arte moderna. Fortemente influenciado pela psicologia freudiana, o surrealismo representou uma reação contra o “racionalismo“. A Traição das Imagens desafia a convenção linguística de identificar uma imagem de algo como a coisa em si. A princípio, o ponto de Magritte aparece simplista, quase ao ponto de uma provocação: Representando um trabalho que  é extremamente paradoxal. O seu estilo realista e o subtítulo remete para um anúncio publicitário, uma área em que Magritte teria trabalhado.

O filósofo Michel Foucault dedicou-lhe um ensaio em 1973.

Michel Foucault analisa ainda as duas produções de Magritte através de uma perspectiva comparativa aos papéis de Klee e Kandinsky para a pintura ocidental. Segundo Foucault, esta conteria dois princípios dominantes entre o século XV e o século XX: uma separação entre representação plástica e representação linguística, subvertido na obra de Klee, pois este faz “valer em um espaço incerto […] a justaposição das figuras e a sintaxe dos signos”, e um princípio de equivalência entre a semelhança e a afirmação de um laço representativo, abandonado por Kandinsky, pois este “liberou a pintura dessa equivalência”.

Ninguém, aparentemente, está mais afastado de Kandinsky e de Klee quanto Magritte. Pintura mais do que qualquer outra vinculada à exatidão das semelhanças até o ponto em que ela as multiplica voluntariamente como para confirmá-las […], determinada a separar, cuidadosamente, cruelmente, o elemento gráfico e o elemento plástico: se acontece de serem sobrepostas como o são uma legenda e sua imagem, e na condição de que o enunciado conteste a identidade manifesta da figura, e o nome que se pretende lhe dar. No entanto, a pintura de Magritte não é estranha ao empreendimento de Klee e de Kandinsky; ela antes constitui, a partir de um sistema que lhes é comum, uma figura simultaneamente oposta e complementar.

“O caligrama é, portanto, tautologia. Mas no oposto da retórica. Esta emprega pletora da linguagem, serve-se da possibilidade de dizer duas coisas com palavras diferentes; usufrui da sobrecarga de riqueza que permite dizer duas coisas diferentes com uma única e mesma palavra; a essência da retórica está na alegoria. O caligrama, quanto a ele, se serve dessa propriedade das letras que consiste em valer ao mesmo tempo como elementos lineares que se pode dispor no espaço e como sinais que se deve desenrolar segundo o encadeamento único da substância sonora. Sinal, a letra permite fixar as palavras; linha, ela permite figurar a coisa. Assim, o caligrama pretende apagar ludicamente as mais velhas oposições de nossa civilização alfabética: mostrar e nomear; figurar e dizer; reproduzir e articular; imitar e significar; olhar e ler”.

 

pipa com placa

“Mesma coisa para a tautologia. Aparentemente, Magritte volta da repetição caligráfica à simples correspondência da imagem com sua legenda: uma figura muda e suficientemente reconhecível mostra, sem dizê-lo, a coisa em sua essência; e, em cima, uma palavra recebe dessa imagem seu “sentido” ou sua regra de utilização. Ora, comparado à tradicional função da legenda, o texto de Magritte é duplamente paradoxal .Empreende nomear o que, evidentemente, não tem necessidade de sê-lo (a forma é por demais conhecida; a palavra, por demais familiar). E eis que, no momento em que deveria dar o nome, o faz negando que seja ele. O pensador francês conclui que, de certa maneira, Magritte “escamoteia o fundo de discurso afirmativo sobre o qual tranquilamente repousava a semelhança; e movimenta puras similitudes e enunciados verbais não afirmativos na instabilidade de um volume sem referências” , e chega a visualizar em “Isto não é um cachimbo” uma espécie de receita, quase uma fórmula de composição, cujos passos seriam construir um caligrama; decompor o caligrama, desfazendo seus traços;

1.permitir que o discurso, desprendido da imagem, “caia” em forma de letras;

2.permitir que as similitudes se multipliquem para que no fim se constate que

3.“a pintura cessou de afirmar”.

charge

Charge:Alberto Montt “Eu sabia exatamente quem eu era. Meu conflito de identidade começou quando eu conheci o trabalho de um tal de magritte “.

 

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