Mas, quem é o cuidador afetivo? Um familiar que tem sob seus cuidados um idoso.
Comecei escrevendo uma página no Facebook “Cuidador Afetivo”, com base na experiência de conviver diariamente com minha mãe (86 anos) morando na minha casa o que, apesar de toda sua lucidez e bom humor, por vezes gerou momentos de pura tensão, que foram se transformando em textos e ensaios de apoio àquelas pessoas na mesma situação, e que (descobri!) são muitas! Seja pela crise financeira, que não permite um cuidador profissional, ou por questões culturais, que não admitem o idoso num local que não a casa de um familiar, descobri esse universo de temas que passo a compartilhar, semanalmente, nesta coluna.
A ideia é transmitir e receber dicas, sugestões e muitas, muitas vezes, tocar em assuntos delicados, como relacionamento jovem e idoso, crueldade senil (nunca ouviu falar?), sentimentos conflitantes em relação ao idoso, casa de repouso vs. família, entre outros.

Primeiro, vamos entender como, na maioria das vezes, “nasce” um cuidador afetivo. Começa como uma manifestação de AFETO, passa por uma sensação de DEVER, e depois de OBRIGAÇÃO, mas nem sempre a ordem é essa. Interessante notar que muitas vezes o cuidador não toma a decisão de cuidar, e sim é definido por exclusão: uma filha solteira, um filho em melhor situação financeira, uma nora que não tem os pais e outros casos menos frequentes. Outro fator interessante que notei na minha pesquisa é que quanto mais o cuidador afetivo que convive na mesma residência com o idoso se envolve, mais os demais familiares, por mais próximos que sejam, se isentam da responsabilidade e até da atenção mínima (“Você ligou para a mamãe esta semana?”), isso lhe soa familiar?
Outro ponto observado nas pesquisas: quanto mais afeto e cumplicidade foram demonstrados por pais/avós durante a vida, mais natural torna-se o processo do cuidar pelos filhos/netos. E aí queridos leitores, começa nosso primeiro grande problema. Muitos filhos não tiveram pais afetivos e/ou presentes e aí surgem os grandes atritos, a sensação de fazer por quem não fez, ou pelo menos não fez dentro dos padrões de “comercial de margarina”. Como psicóloga, todas as vezes que me deparo com pessoas nessa situação, respondo: “faça seu melhor e não pense em termos de vou dar o que recebi”. Principalmente em se tratando da relação pais e filhos, que, por pior que seja, é uma relação atávica, nada é muito simples (estou errada?).

Quando alguém me diz que é difícil cuidar de seus pais, que foram pessoas pouco carinhosas, de pouco diálogo, respondo: “seja egoísta, dê o seu melhor!” E sou questionada, como assim? Sim, pense em fazer tudo que não vai te deixar com sentimento de culpa quando seus pais não estiverem mais aqui, pois não existe nada mais destrutivo do que o sentimento de culpa por uma relação mal resolvida. Seus pais não te beijavam e você tem vontade de beijá-los? Faça isso! Será meio forçado no início, mas se a vontade manifestou, parta para prática. Não faça parte da estatística de pessoas que se arrependem de não ter abraçado e beijado seus entes queridos que se foram. Faça por você e por consequência, seus pais ganharão também.

No fundo somos todos “vítimas” de um círculo vicioso; não damos por que não tivemos, até a hora que alguém resolve quebrar isso e criar um círculo virtuoso.
Óbvio que nem sempre é simples assim, aliás, é bem comum quando se cuida de um familiar idoso, uma série de sentimentos surgirem, alguns, nem sempre tão “bacanas”. Em recente contato com diversos cuidadores, questionei se eles poderiam relatar um sentimento positivo e um negativo que tinham em relação a ser responsável pelo cuidado de um idoso. As palavras que mais surgiram: paciência, generosidade, solidão, gratidão, impotência, retribuição, isolamento social, carinho, despreparo, exaustão e raiva (mesmo que temporária, como fizeram questão de frisar). Não se assustem com mais palavras de conotação negativa do que positiva. Isso não quer dizer que não existe amor, afeto, carinho na relação, quer dizer que o desafio é grande e realmente não estamos preparados para isso, vamos “nos preparando” durante o processo.

Não estamos cuidados de bebês, com suas gracinhas, que sabemos que em breve saberão controlar suas necessidades, comerão sozinhos, etc. O idoso é exatamente ao contrário, ele está “desaprendendo” e talvez o mais impactante é que com o idoso nos damos conta de nossa finitude.
Friamente, esse é um processo sem volta e manter isso em mente nos torna mais realistas, e o que posso dizer na minha experiência é que, nessas circunstâncias, essa interação permite que ambas as partes tornem-se cúmplices, revisem relações, redesenhem e fortaleçam seus novos e velhos papéis, portanto é uma boa hora para também acertar algumas pendências emocionais.

Algumas dicas que podem ajudar o cuidador afetivo em seu dia a dia:

1- Não encare tudo sozinho. Peça ajuda! Aceite ajuda!
2- Cuide de você! Tire um tempo todos os dias para você. Controle seu cansaço para que não vire exaustão.
3- Procure apoio na sua comunidade. Existem vários grupos de apoio. Não existe um perto de você? Crie um! Foi assim que surgiu este projeto. Você não precisa de um profissional para criar um grupo de apoio e certamente encontrará muitas pessoas passando pelo mesma situação.
4- Não pense que você pode controlar tudo. Esse pensamento não é saudável e apenas o deixará isolado.
5- Seja realista e não negue o óbvio. Pessoas realistas administram melhor o fator surpresa.
6- Reconheça seu esforço e não se sinta culpado quando algo não sair do jeito que você gostaria.
7- E por fim, mas não menos importante: tenha uma vida, a sua vida! Seus projetos, seus amigos, seus amores. Se você concentra toda sua vida no cuidado do idoso, em algum momento vai se sentir consumido (a) e tenderá a culpar o idoso, mas ele não tem culpa se você não tem uma vida própria, concorda?
E para você que está pensando que não pode contar com mais ninguém, não tem outro familiar, nem condição financeira para um cuidador profissional, acompanhe essa coluna! Vamos abordar muitos temas interessantes.

 

Magali

 

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