Relato de Shmuel Shatz e outros
[Pincás¹ Ludmir – edição e tradução do idish por Moisés Spiguel]

22 de Junho de 1941

Domingo pela manhã ouviram-se disparos pelos lados de Ustilug. Os comentários eram que seriam manobras das tropas russas. Mas o tiroteio era cada vez mais intenso e então se ouviram boatos assustadores: a Alemanha teria atacado a Rússia de surpresa.
De Ustilug (13 quilômetros de Ludmir, fronteira entre Alemanha e Rússia), começaram a chegar os primeiros refugiados. Soubemos por eles que os alemães convidaram os oficiais russos, integrantes da tropa que guardava a cidade-fronteira e com quem viviam em paz, para uma festa no sábado à tarde. Os russos foram convenientemente embebedados e às 4 da madrugada, a artilharia alemã estacionada nos arredores, bombardeou a cidadela incendiando-a totalmente. Os russos debandaram em trajes menores. Cadáveres espalhados por toda parte. A cidade arrasada. Dos poucos judeus que lá moravam com permissão especial (por ser fronteira), muitos morreram e os poucos sobreviventes estavam feridos e em andrajos.

Ludmir é invadida pelas tropas alemãs.

24 de Junho de 1941

Pela manhã nossa cidade foi intensamente bombardeada causando muitas vítimas. Ruas arrasadas, incêndios por todos os lados. Bombas lançadas sobre a Rua Parnes, sobre a estrada para Ustilug e outros locais densamente povoados mataram toda a família Kalb e a família Gutles. Uma das maiores tragédias foi o soterramento pelo bombardeio, de adegas subterrâneas de vinho onde se refugiou grande número de judeus, inclusive o rabino de Ustilug, Sheintub Yoishe que viera à cidade para visitar seu pai. Gritos lancinantes e pedidos de socorro vinham do local As tentativas feitas sob a ação das bombas lançadas pelos aviões, para a remoção da terra e entulho que cobriam as vítimas, foram infrutíferas — todos morreram sufocados ou esmagados.
À meia noite os alemães entraram em Ludmir. Lançavam granadas de mão nas casas ao longo de ruas povoadas como a Rua Ustilug, a Rua Kovel e outras, causando destruição, incêndio e mortes. Entre os que morreram, estavam Shmuleck Rotenstein, Shmuckler, guarda-livros de fábrica de cigarros, Hershel Zucker, Print, o marido de Yente Liben e muitos outros.
Imediatamente os judeus foram sendo retirados de suas casas e obrigados a encher com terra e entulho as crateras abertas pelas bombas.
Alguns dias depois, uma ordem emitida pelo comando nazista obrigou a todos, a entrega de aparelhos de rádio e de livros no cinema do centro da cidade. Os rádios foram confiscados e os livros queimados. Seguiu-se um período de violências e caos na cidade. Cidadãos judeus eram agarrados nas ruas e obrigados a realizar trabalhos escravos. Duas semanas após a invasão, os alemães estabeleceram uma força policial local sob o comando de um comissário que começou por recrutar algumas personalidades judias notáveis para que eles organizassem um comitê representante da comunidade para estabelecer uma comunicação contínua com o comando alemão. O comandante garantiu que os judeus não seriam mais apanhados diariamente nas ruas.
Ao comitê foi dada a incumbência e a responsabilidade de apresentar diariamente trabalhadores judeus de acordo com as quantidades requisitadas pelos chefes dos serviços na cidade. Esses chefes eram formados por baderneiros das “juventudes hitleristas” que usavam os trabalhadores-escravos principalmente em serviços pesados junto às linhas férreas e, sob os locais ocultos pelos trens, passavam a espancá-los selvagemmente, muitas vezes até a morte. Gritos e lamentações eram ouvidos tanto do interior da escola onde eram realizadas as reuniões do Comitê para indicação dos que deveriam se apresentar para o trabalho, como do interior das casas onde as mulheres se desesperavam pelos maridos, filhos, irmãos, pais que não voltaram à noite.
Dois meses após o início das atividades do Comitê, o senhor Morgenstern, o dirigente do Comitê, sob profunda depressão, adoeceu gravemente e morreu. Foi substituído pelo advogado Weiler. Junto com ele, no Comitê, atuou Shmuel Brigman, um homem muito respeitado até pelo comissário alemão e que prestou grande ajuda aos judeus de Ludmir, salvando muitos da prisão e da morte.
Em fevereiro de 1942, numa sexta-feira, foram reiniciadas as capturas de judeus nas ruas de Ludmir a pretexto de levá-los a trabalhos. Entretanto foram levados para a velha prisão da cidade.
Soubemos depois que foi em obediência a ordens da Gestapo, que estava em inspeção na cidade e que tinha o objetivo de iniciar a “solução final”. Naquela noite foram mortos dentro da cadeia, oitocentos judeus.

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¹ Pincás (פנקם), é uma obra coletiva de dezenas de autores e escritores de memoriais de  cidades atingidas pelo Holocausto (N.T.)

 

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