JUSTOS-CAPA-Souza Dantas-2

 

No Museu do Holocausto – Yad Vashem – em Jerusalém, existe uma árvore plantada em homenagem a cada “Justo entre as Nações”, título concedido pelo governo de Israel em reconhecimento a todos os não-judeus que durante a Segunda Guerra Mundial salvaram vidas de judeus da sanha sanguinária do nazismo.

O Embaixador Luis Martins de Souza Dantas que enfrentou o nazismo e a ditadura de Getúlio Vargas pondo em risco sua carreira e sua vida é um “Justo entre as Nações”.

Souza Dantas-passaporte duplo,Nascido no Rio de Janeiro, em 1876, descendente de uma das mais ilustres famílias do império, Luiz Martins de Souza Dantas – após seguir uma apreciável carreira política, durante vários anos, dentro e fora do Brasil, é nomeado embaixador na França, cargo que ocupa de 1922 até 1943.

Em 1933 Souza Dantas casa-se com a viúva Elise Mayer Stern, que apesar da origem judaica, era católica à época de casamento.

Elise, ela própria dona de uma vultosa fortuna, era irmã da milionária Florence Blumenthal e de Eugene Meyer, que, naquele mesmo 1933, adquirira o então falido The Washington Post, transformando-o em um dos mais importantes jornais dos Estados Unidos.

Quando eclodiu a Segunda Guerra, o Itamaraty já havia baixado uma série de leis e circulares que dificultavam a entrada no Brasil de pessoas “de raça semítica”..

Antes da revolução de 1930 o Brasil não impunha restrições a judeus nem a japoneses. Desde 1930, o Brasil regulamentara a entrada de imigrantes por um sistema de cartas de chamada e cotas por nacionalidade. Apesar desses entraves, os judeus continuaram a entrar no Brasil até 1937.

A partir de 1937, tornou-se cada vez maior o número de judeus que precisavam abandonar seus países de origem. A aquisição de vistos de saída do continente europeu passou a ser questão de vida ou morte, especialmente durante a guerra, mas com a política de imigração brasileira de Getúlio Vargas  as fronteiras do país foram fechadas para todos “racialmente” apontados como judeus.

Souza Dantas, apesar dessas proibições, decidiu agir de acordo com sua consciência, conseguindo passaportes e assinando pessoalmente os vistos. Com a ajuda do embaixador, muitos judeus que iriam ter destaque na vida brasileira, conseguiram escapar.  É o caso do ator Louis Jouvet, do grande marchand Leo Castelli, bem como de Ziembinski e de Oscar Ornstein

Assinava  passaportes e documentos de viagem de estrangeiros, a maioria refugiados. Não eram pessoas “especiais” ou “importantes”, mas gente comum. Ele não seguiu nenhuma regra do governo brasileiro, não exigiu taxas, transferências bancárias, declarações ou atestados, e tampouco perguntou ou informou a alguém a origem étnica dos pretendentes.

Cerca de 500 vistos diplomáticos foram emitidos entre meados de junho de 1940 e 12 de dezembro do mesmo ano – data em que Souza Dantas foi proibido Souza Dantos + Getulio+O.Aranhaformalmente de conceder qualquer tipo de visto.

Entretanto, de acordo com depoimentos, muitos refugiados estiveram com o embaixador nos primeiros meses de 1941 e receberam vistos com datas anteriores a 12 de dezembro de 1940. Ou seja, ele ainda concedeu vistos, mesmo depois de ter sido repreendido e proibido.

Suas atitudes não eram vistas com bons olhos nos meios governamentais. Enviou também inúmeras cartas ao governo brasileiro criticando Hitler, que, em suas palavras, “agia com a truculência de costume”, e reafirmando seu repúdio ao nazismo.

Em novembro de 1940, o embaixador foi advertido pelo Itamaraty para dar um fim às suas “concessões”, fato que continuou ignorando, usando o artifício de datar retroativamente os vistos, de forma a serem anteriores ao recebimento da instrução.

Escapou por pouco de ser alvo de um inquérito administrativo, pessoalmente instaurado por Getúlio Vargas, em outubro de 1941, e das penalidades que souza dantas-livrocertamente daí resultaria.

O processo só não foi concluído porque, no ano seguinte, o Brasil cortaria relações com a Alemanha, quando, então, o ditador Getúlio Vargas  decidiu abafar o caso.

Em 12 de novembro de 1942, quando as tropas alemãs ultrapassaram a linha de demarcação e invadiram a parte ainda não ocupada do território francês, quebrando o armistício de 1940, Souza Dantas tentou mais uma vez, com sua costumeira bravura, enfrentar a Gestapo.

Quando as tropas alemãs ocuparam essa cidade, a Embaixada brasileira não ficou livre da violência nazista. Ainda mais que o Brasil rompera relações diplomáticas com a Alemanha a 28 de janeiro daquele mesmo ano e declarara guerra à Alemanha em agosto seguinte.

O embaixador, alertado de que um pelotão militar invadira o prédio da Embaixada, dirigiu-se imediatamente para lá, protestando, aos gritos, contra aquela “inominável violação dos mais elementares princípios do direito internacional”.

A reação da Gestapo foi apontar suas pistolas contra o velho embaixador e prender todos os brasileiros. Em 27 de novembro, o embaixador envia seu último telegrama de Vichy, informando que perdera “a faculdade de conceder vistos de saída do território francês”.

A Gestapo prendeu Dantas e demais membros da representação brasileira, confinando-os, em condições precárias, durante 14 meses, em Bad Godesberg, na Souza Dantas-busto,Alemanha.

Quando o diplomata voltou ao Brasil, em maio de 1944, fora planejada uma grande festa, com desfile em carro aberto, pela Avenida Rio Branco, e decretação de feriado nas escolas do Rio.  Assessores de Getúlio Vargas, porém, desmobilizaram a festiva acolhida.

Finalmente, no dia 21 de dezembro de 1944, Getúlio Vargas inscreve o nome de Souza Dantas no Livro do Mérito Nacional.

Enquanto durou a ditadura do Estado Novo no Brasil, Vargas tratou de manter Dantas afastado da vida pública e da evidência. Mas, com o fim da era Vargas, o embaixador sai do ostracismo diplomático.

Em dezembro de 1945, passa a chefiar a delegação brasileira na ONU. Fez parte da Delegação do Brasil junto à Conferência de Paz, em Paris, como Delegado Plenipotenciário.  Sua nomeação foi assinada pelo então presidente Gaspar Dutra.

No final de sua vida, já bastante doente, Souza Dantas esteve, pela última vez, no Brasil, entre julho de 1951 e o final de 1952. A esposa Elise, falece, em 1953.

Sem o amparo financeiro dela e já muito doente, Souza Dantas, que morava no Hotel Ritz, de Paris, morre pobre e abandonado, em um humilde quarto do Grand Hotel, em 14 de abril de 1954.

Souza Dantas-placa,Seu corpo foi transportado de navio para o Brasil, onde foi enterrado um mês depois de sua morte, no cemitério do Caju, no Rio de Janeiro. Não deixou descendentes.

O que o Itamaraty, à época de Vargas, conseguiu ocultar, nos é revelado e serve como testemunho para as próximas gerações. .

O resgate de sua história deve-se ao professor Fábio Koifman em seu livro “Quixote nas trevas”.

A tese de mestrado de Koifman rendeu os frutos merecidos, conseguindo transpor-nos às intrépidas aventuras do corajoso cavaleiro Souza Dantas. Entrega uma medalha póstuma a um homem que desafiou nazistas na Europa e políticos no Brasil, pondo em risco sua carreira e sua vida.

Além disso, serviu para a proclamação do embaixador ao nobre título humanitário de “Justo entre as Nações” em 10 de dezembro de 2003 pelo Museu do Holocausto Yad Vashem, de Jerusalém.

O Embaixador Souza Dantas é o segundo brasileiro a quem é conferida tal honraria. Antes dele, Araci de Carvalho Guimarães Rosa, cuja história publiquei neste Portal, recebeu essa deferência também em razão de suas ações humanitárias na defesa de minorias, em particular a judaica, perseguidas durante a guerra.

Luis Martins de Souza Dantas mereceu constar na lista dos Justos entre as Nações e merece brilhar na Galeria Universal dos Heróis do Século XX.

http://portaljudaico.com.br/vendoo/uploads/2016/12/JUSTOS-CAPA-Souza-Dantas-2.jpghttp://portaljudaico.com.br/vendoo/uploads/2016/12/JUSTOS-CAPA-Souza-Dantas-2-150x150.jpgMoisés SpiguelHISTÓRIAHISTÓRIAS DO HOLOCAUSTOIsrael,Judeus,Justos entre as Nações,Yad Vashem  No Museu do Holocausto – Yad Vashem – em Jerusalém, existe uma árvore plantada em homenagem a cada “Justo entre as Nações”, título concedido pelo governo de Israel em reconhecimento a todos os não-judeus que durante a Segunda Guerra Mundial salvaram vidas de judeus da sanha sanguinária do nazismo. O...Comunidade Judaica Paulistana