Franz Stangl - CAPA

“Quando eu fiz uma viagem anos atrás no Brasil”, diz, “meu trem parou próximo a um matadouro. Andei Franz Stangl- perfilrapidamente até as cercas e olhei fixamente o cercado. O gado estava amontoando uns aos outros, olhando pra mim através da cerca. Aqueles grandes olhos me olhavam não sabendo que depois todos eles morreriam. ”Isso me fez lembrar da Polônia, exatamente como as pessoas me olhavam, confiantemente, não sabendo que depois todos eles estariam mortos.” Foram as palavras de Franz Stangl entrevistado pela escritora Gitta Sereny em 1970.

Franz Stangl, nasceu na Áustria em 26 de março de 1908. Stangl entrou para a polícia austríaca em 1931 e logo depois ao então ilegal Partido Nazista.

Após a anexação da Áustria pela Alemanha, Stangl foi rapidamente promovido de posto. Em 1940, Stangl tornou-se superintendente do T4, o Programa de Eutanásia do Instituto Schloss em Hartheim, onde os deficientes mentais e físicos eram enviados para serem assassinados.

Em 1942 ele foi transferido para a Polônia onde foi comandante do campo de extermínio nazista Sobibor de março de 1942 até setembro de 1942, quando foi transferido para Treblinka. Sempre vestido com roupas brancas de equitação, Stangl ganhou reputação de administrador eficiente e descrito como “o melhor comandante de campo, que teve as Franz Stangl- camara de gásmaiores partes de toda ação…”.

No fim da guerra, Stangl conseguiu esconder sua identidade e, apesar de preso em 1945, conseguiu escapar dois anos mais tarde. Ele fugiu para a Itália com o seu colega de Sobibor, Gustav Wagner (conhecido como a Besta de Sobibor, também se refugiou no Brasil), onde foi ajudado por alguns funcionários do Vaticano para chegar à Síria com um passaporte da Cruz Vermelha. Stangl entrou com sua família e esposa na Síria e ficou por três anos antes de se mudar para o Brasil em 1951. Com a ajuda de amigos, Stangl foi empregado na fábrica da Volkswagen em São Paulo, e continuou usando seu próprio nome.

Durante anos a sua responsabilidade no massacre de homens, mulheres e crianças era conhecida das autoridades austríacas, mas a Áustria não emitiu um mandado de prisão para Stangl até 1961. Demorou mais seis anos antes que ele fosse Franz Stangl - bispo alois hudal-2amonitorado pelo caçador de nazistas Simon Wiesenthal e preso no Brasil.

Após a extradição para a Alemanha Ocidental, ele foi julgado pela morte de aproximadamente 900.000 pessoas. Ele admitiu estas mortes, mas argumentou: “Minha consciência está limpa, Eu estava simplesmente fazendo o meu dever…” Considerado culpado em 22 de outubro de 1970, Stangl foi condenado à prisão perpétua. Ele morreu de ataque cardíaco na prisão de Düsseldorf em 28 de junho de 1971.

Franz Stangl foi entrevistado pela autora Franz Stangl - mortos gasGitta Sereny em 1970. Eis parte da entrevista (editada):

Sereny: Seria certo dizer que você foi utilizado para as liquidações?

Stangl: Pra dizer a verdade, fui acostumando a isso.

Sereny: Em dias? Semanas? Meses?

Stangl: Meses. Demorou meses antes que eu pudesse encarar um deles nos olhos. Eu reprimia isso tentando criar um lugar especial: jardins, novos alojamentos, novas cozinhas, tudo novo, barbeiros, alfaiates, sapateiros, carpinteiros. Havia centenas de maneiras de distraí-los, eu usei todas elas.

Sereny: Mesmo você se sentindo assim forte, não devia ter certos momentos, talvez à noite, no escuro, em que você não conseguia evitar pensar nisso?

Stangl: No final, a única forma de lidar com isso era com a bebida. Eu levava um grande copo de conhaque toda noite para a cama e bebia.

Eu não queria, mas claro, vieram pensamentos. Mas eu os mando embora. Eu me concentrava no trabalho, trabalhava e voltava a trabalhar.

Franz Stangl - professor-2Sereny: Então você não sentia que eles eram seres humanos?”

Stangl: Carga. Eles eram carga.

Sereny: Quando você começou a pensar que eles eram carga?

Stangl: Eu acho que começou na primeira vez que vi o campo de extermínio de Treblinka. Lembro-me  parado ali, ao lado de uma vala cheia de cadáveres azul-preto. Eles não tinham nada de humanidade, não poderiam ter, era um monte – um monte de carne podre. Christian Wirth, o construtor dos campos de morte ao me lado disse ‘O que vamos fazer com esse lixo?’ Acho que inconscientemente eu comecei a pensar neles como carga.

Sereny: Foram tantas crianças, o que você pensa sobre seus filhos, como você sentiu na posição daqueles pais?

Stangl:  Não posso dizer que nunca pensei dessa forma. Eu raramente os vi como indivíduos. Era sempre um enorme monte. Às vezes eu os via por um buraco na parede. Mas como eu posso explicar isso – eles estavam nus, espremidos juntos, correndo, sendo conduzidos por chicotes…

Sereny: Você poderia ter mudado isso? Em sua posição, você não poderia ter acabado com a nudez, os chicotes, o horror dos cercados de gado?

Stangl:  Não, não, não. Este era o sistema. Funcionava, e porque funcionava, era irreversível.

 

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