“Você é Tupi daqui
ou Tupi de lá,

Você é Tupiniquim
ou   Tupinãodá  ?”

Em meio a uma ditadura que os jovens acreditavam que não duraria 2 anos mas que perpetuou-se por mais de 20, surgiu o primeiro coletivo de arte do país. Em uma época onde as ruas estavam tomadas de medo, três jovens embalados pela possibilidades de conquistas democráticas começavam a repensar o espaço público que a anos estava tomado pela repressão militar.

José Carratu, Milton Sogabe e Eduardo Duar seriam o pilar dessa revolução ao criarem em 1983 o grupo Tupinãodá. Jaime Prades, hoje artista consolidado, entrou no coletivo em 1985 e conta um pouco do ínico de tudo: “A gente estava em pleno processo de transição da ditadura para a democracia. E eu tenho pra mim que, quando começou a abrir a panela de pressão, espirrou tinta. A gente já estava na rua, tentando fazer essas intervenções enormes, e trabalhávamos à luz do dia, nosso objetivo era conquistar esse espaço. A situação política ainda era muito tensa. Era um ato perigoso ir para a rua. Hoje também é, não é? A rua é sempre perigosa, mas naquele momento era veladamente perigoso. E o mais provocante é que o nosso discurso era completamente lúdico em termos de imaginário. Mas ir lá fazer aquilo, se expor, isso sim é que era político.”

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Com um foco diferente do que se presencia nas ruas hoje, o grupo tinha como cerne de suas ações sempre um contexto social vinculado a espaços públicos, um constante diálogo com os poderes institucionais, sendo a arte instrumento político e a cidade seu principal suporte. “Na verdade, o grafite nunca foi a motivação. Nossos primeiros trabalhos eram instalações públicas. Para o MAC (Museu de Arte Contemporânea da USP), criamos um outdoor em que a gente amarrou três sacos de lixo enormes, cada um com uma das cores da bandeira do Brasil. Depois fizemos outra instalação, também com sacos de lixo, com as cores da bandeira num gramado da FAU (Faculdade de Arquitetura e Urbanismo), na USP” conta Prades.

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Ainda sobre o grupo, Jaime explica o começo e algumas das intervenções: “O Tupinãodá nasceu em 1983. Eu saí no final de 89 e o grupo continuou até 91, quando acabou. Depois da minha saída, vale a pena citar uma série de trabalhos que Zé Carratú, Carlos Delfino e Ciro Cozzolino fizeram. Eles copiavam paisagens de quadros populares, aqueles cenários clássicos de casinha de campo na beira do rio, com cores berrantes, e faziam interferências malucas sobre essa base. Fizeram um trabalho genial na entrada do MAC (Museu de Arte Contemporânea da Universidade de São Paulo), no Ibirapuera, que gerou uma grande polêmica porque a diretora do museu achou horrível e mandou apagar. O incrível dessa história é que, dez anos depois, o Banski faz quase que a mesma coisa na Inglaterra e é idolatrado.”

Um dos integrantes, Rui Amaral, também ganhou notoriedade dentro do grupo e pode ser considerado seu integrante mais conhecido na mídia. “Mudei para a Vila Madalena na década de 80. A Vila foi pintada pela primeira vez por mim e pelo Jonh Howard, um mestre. Pinta até hoje, tem mais de 70 anos. Morava no centro da Vila Madalena, na Luis Anhaia em uma casinha, perto das empanadas. No comecinho da rua tinha o atêlie dos três fundadores do Tupinãodá. A gente morava dois quarteirões do beco. A gente fazia muito a pé. Lugar base para quem faz graffiti é fazer no seu bairro. Fomos capa da Folha no domingo com o Tupinãodá ao pintarmos os túneis da Rebouças e fui capa da Veja aos 26 anos. Foi uma loucura” contextualiza um pouco a época.

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Posteriores a época de artistas como Vallauri, o Tupinãodá teve como inspirações o movimento antropofágico e também o concretismo de nomes como Oiticica, Lygia Pape e Clark. Uma tradição puramente brasileira e que fez o movimento se distanciar dos padrões clássicos do graffiti com dois “efes” e um “te i” no final de sua grafia. Os artistas que tomaram as ruas na década de 80 tinham entre 20 e 50 anos, no caso do próprio Vallauri e de nomes como Maurício Villaça ou Jonh Howard enquanto na década de 90 nomes como Speto, osgemeos e Binho Ribeiro transitavam nas ruas de São Paulo ainda pré-adolescentes. Sobre a pixação, Prades explica como o processo se deu: “Tocando rapidamente na cena dos jovens de periferia e da ebulição da pixação a partir de 89 quando tomaram todos os espaços que tínhamos ocupado. Em uma semana todas as pinturas da Avenida Paulista, Dr. Arnaldo e Rebouças foram atropelados por gangs da Zona Sul. Foi a vez deles conquistarem o espaço mais emblemático da cidade. Nós não tínhamos nada com a cultura Hip-hop, bebíamos da nossa própria fonte e fomos mais um fenômeno que um movimento em si. Pela facilidade e por ser barato acabamos trabalhando com pinturas nas ruas. Contribuímos introduzindo outra escala, outros materiais (giz, rolinho, tinta imobiliária) pensando nos espaços que escolhíamos para interferir, pela poética urbana e pelo que representavam estes espaços em relação a cidade e se eram do poder público ou privado” finaliza.

 

 

 

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