Morar em São Paulo requer uma habilidade monstro. Uma habilidade para conversar, perguntar, se virar, sem comprometer ninguém, nem a si próprio. Como é uma cidade multi-cultural e pluri religiosa, é necessário estar sempre informado (e atento) para não cometer a gafe de mandar um feliz Páscoa ao rabino da sinagoga ao lado de casa ou um chag sameach (boa festa) ao zelador do prédio.

É muito interessante perceber que aqui as pessoas mais improváveis estão por dentro do que passa no ambiente da cidade, a ponto de interar-se com o momento vivido em cada estação. Neste mesmo habitat em que semana que vem será uma festa religiosa católica, com toda a pompa e comércio relacionados, com muito chocolate, ovinhos de páscoa, branco, preto, vegan, enfim, pode-se encontrar de tudo nesse mercado de D-us.

Por uma coincidência do destino (aliás, para os judeus nada é por acaso!), amanhã mesmo comemora-se a festa de Pessach (também conhecida como Páscoa judaica), mas com um comércio mais restrito, e não menos importante, óbvio; sem chocolates em forma de ovo, sem inúmeros recheios dentro, com outro significado, a qual não pode ser pensado em nenhum minutinho um pãozinho, um único pãozinho francês, nem pizza, nem pão de batata, nem baguete, por oito dias, por um motivo muito nobre e milenar (literalmente) que é a libertação do povo judeu no Egito, naquela época.

E naquela época mesmo, não tinha dado tempo de assar um pãozinho com fermento, nenhumzinho, a ponto de por 8 dias, serem necessários comer o que chamamos de MATZÁ (pão ázimo), um pão bastante sem graça, lembra uma bolacha de água e sal (não bisssscoito, para quem se engana, afinal, aqui é SP e não RJ), um pão bastante importante, que lembra todo o sofrimento de um povo para chegar a uma libertação histórica.

Nessa mesma festa alegre, comemorada pela libertação, existe todo um protocolo a seguir, que se traduz em um SÊDER DE PESSACH (que virá a ser um jantar antecedente à festa propriamente dita), em que fica restrito o uso de qualquer tipo de alimento com CHAMÊTZ (lê-se rámêtz, que é traduzido como fermento), a partir de amanhã à noite por ser calendário lunar e em seus oito dias seguintes, além de toda uma limpeza em casa e em qualquer local judaico para o recebimento da festa. Não pode nem usar a mesma pia, fogão, louças e etc.

O que tem a ver a cidade e seus habitantes do início da prosa com todo esse momento? É que eu, particularmente, acho formidável, você estar em um local, que tem gente que te fala “chag sameach” (lê-se rag samearr), não sendo judeu, e você, judeu, acha surpreendente a pessoa estar antenada a esse ponto; claro que em se tratando do ano 2017 (calendário gregoriano e não judaico), com muito acesso à informação e à tecnologia é quase normal elas terem essa vivência por aqui e a pessoa judia responde, em dúvida, “chag sameach” ou feliz Páscoa.

As festas coincidirem, os calendários serem próximos, estarmos em um país pluralista torna diferente toda essa situação de vida. É interessante notar que toda essa coincidência acaba tornando a cidade ainda mais enriquecida em termos culturais, o que traz benefício para todos, deixando menos intrigas e mais curiosidades entre si, com pessoas que nunca sequer poderiam imaginar em conhecer esses mundos, judaico e católico, cada qual por ou morar aqui ou por relacionar de forma profissional, ou amizades ou conhecidos, tornando o país mais aconchegante, portanto.

http://portaljudaico.com.br/vendoo/uploads/2017/04/IACHNERAI-Chag-Sameach.jpghttp://portaljudaico.com.br/vendoo/uploads/2017/04/IACHNERAI-Chag-Sameach-150x150.jpgSamantha MesterCRÔNICASCRÔNICAS DA VIDA REALCrônicas,Crônicas da Vida Real,judaísmo,Páscoa,Pessach,sao paulo,SPMorar em São Paulo requer uma habilidade monstro. Uma habilidade para conversar, perguntar, se virar, sem comprometer ninguém, nem a si próprio. Como é uma cidade multi-cultural e pluri religiosa, é necessário estar sempre informado (e atento) para não cometer a gafe de mandar um feliz Páscoa ao rabino...Comunidade Judaica Paulistana