herod-1O tema da postagem de hoje é Herodes (hordos em hebraico), um personagem controverso dentro da História de Israel. Para trabalharmos com este tema temos que largar nossa visão maniqueísta de mundo. Atrevo-me a afirmar que junto com Moisés e David pode ser considerado um dos mais importantes personagens da História Judaica. Sua importância se dá porque pelo estudo de seu governo podemos entender o período de dominação romana da Judéia e as consequências para as comunidades da diáspora. Também considerado um período transitório entre a dinastia dos asmoneus (em hebraico ashmonaim) e o governo dos representantes romanos. Roma o utilizou como ferramenta para o controle do Ocidente na região. Sua relevância temática e simbólica é básica no desenvolvimento do etnos judaico. Segundo Scholomo Cesena, Herodes serviu como ponte cultural entre Roma e Judéia. Nossas informações sobre ele são retiradas principalmente de Flávio Josefo, dos escritos judaicos (fariseus) e de fontes cristãs, como Euzébio de Cesareia em sua obra História Eclesiástica. Não podendo esquecer citações em escritores como Tácito e Cassios Dio.  Informações importantes são acessadas através de achados arqueológicos.

Sua influência na cultura ocidental é e foi enorme, tanto nas artes plásticas como na literatura e música. Pintores como Fra Angelico, Ducio di Buoninsegna, James Tissot, Rubens, Nicolas Pousin. Escultor como Donatello também usou o tema. O teatro também apresentou diversas peças sobre o tema, como as de Ludwig Philippson (Mariamne I – 1863), Friedrich Abel (Herodes e Miriam – 1850), Meir Nofar (Os Ultimos dias do Rei Herodes – 1913; A Morte do Rei Herodes – 1930), Alter Kacyzne (1885-1941) (Herodes).

Era chamado por diversos epítetos: Herodes, Rei da Judéia (basileus). Tácito e Plutarco se referem a ele deste modo; Herodes, o grande (mégas Herodes); Herodes Magnus; Herodes I, fundador da dinastia herodiana; Herodes, o rei construtor. Este último epíteto se confirma porque até hoje suas construções são facilmente encontradas por todo de Israel e regiões adjacentes. Encontra-se uma citação no Talmud sobre esta denominação específica: “Quem nunca viu uma construção executada por Herodes, nunca viu um belo prédio.” Devemos acreditar na veracidade deste pensamento graças ao ódio natural dos fariseus por ele. Nasceu em Jericó (cidade mais antiga de ocupação contínua no mundo situada ao sul do atual Estado de Israel) no ano de 73 a.E.C. e morreu no ano 4 da Era Comum. Josefo ressalta que a causa de sua morte foi uma doença grave. O consenso sobre a sua data de falecimento se deu com os estudos do teólogo protestante alemão Emil Schurer no início do século XX.

Apenas fazendo um aparte, uma informação básica sobre a divisão administrativa da região que atualmente engloba Israel, parte da Jordânia e parte da Síria e Libano é necessária. Pompeu quando invade e domina a área, redefine as fronteiras. Divide em duas partes: uma do etnos judaico (parte da Judéia ao redor de Jerusalém, Galiléia e as partes sul da Iduméia e da Peréia); a outra parte era composta pelas poleis helenistas.

O contexto de sua evolução como administrador é conturbado. Brigas por sucessão, interesses dos ptolomeus e dos selêucidas no controle da região imperavam. Era contemporâneo do rei Hircano II, o último da linhagem dos Asmoneus. Seu pai era Antipater, conselheiro da corte com muita influência sobre o governante. Neto de Antipas governador da Iduméia no governo de Alexandre Janeu Foi nomeado governador da Galiléia, com a função de reprimir um grupo que andava saqueando as cidades e caravanas das cidades gregas. Cumpriu a tarefa inclusive matando todos os integrantes, até mesmo seu chefe Ezequias (considerado por Josefo como fundador dos sicários). Na verdade este grupo combatia todas as pessoas que de alguma forma se relacionavam com o governo romano. Com esta ação angaria apoio e amizade do governador da Síria, Sexto Cesar. Este ato faz com que seja encaminhado a julgamento no Sinédrio, pois a pena de morte só podia ser aplicada por este tribunal. Foi nesta situação onde estava em desvantagem que aparece sua principal qualidade: sair de situações adversas. Assim foi quando apoiou Cássio, depois Marco Antônio e por fim Augusto na complexa sucessão romana. Para aumentar seu poder e sua influência na sociedade da Judéia casa com Mariamne em 38 a.E.C., da dinastia asmonéia.

Reinou sob a Judéia durante 41 anos, de 37 a.E.C. a 4 E.C. Segundo Isaac Brody, uma lenda interessante é que quando tinha 12 anos, um essênio chamado Menahem previu a sua subida ao trono.  A conclusão sobre a necessidade de cooperação voluntária como único caminho para a Judéia foi uma das principais causas para este reinado longo. O contexto para sua subida ao poder foi a guerra civil romana e suas ramificações no Oriente. Foram anos de prosperidade cultural e religiosa. Começa a usar seu título no consulado de Agripa ou Galus. Governou a Judéia, a Galiléia, a Samaria e a Iduméia.

Suas primeiras ações foram de cunho repressivo. Dentre elas estava 45 assassinatos dos apoiadores mais ricos e proeminentes dos asmoneus e suas propriedades confiscadas; todos os membros do Sinédrio foram assassinados. Seu poder era baseado principalmente no seu poderio militar e de terror imposto a população. O terror era aplicado através de uma série de medidas de segurança como a criação de uma polícia secreta para monitorar e relatar os sentimentos da população. Como foi visto o assassinato era arma comum. Durante seu governo ele matou sua mulher, sua irmã, três filhos, tio, cunhado entre outras figuras menos importantes. Pode-se acreditar nesta situação de terror graças a uma afirmação de Augusto sobre a relação de Herodes com a família: “melhor ser um porco de Herodes do que seu filho.”

Este poder militar era baseado na utilização de mercenários. Sua guarda pessoal possuía 2000 soldados de diversas origens (celtas, germanos, trácios). Possuía uma Doryphnoros, unidade formada por soldados veteranos ilustres e jovens de famílias judias mais influentes. Os celtas foram dados por Augusto como presente após a derrota de Cleópatra e Marco Antônio. Cria colônias militares em Galba na Galiléia, para dar tranquilidade a seus comandados.

Além deste aparato opressor, a estabilidade social se dá graças a não interferência dos romanos no dia a dia da população. Sem contar com algumas regalias, como as isenções para o templo pois, a religião da Judéia é estabelecida como uma religião oficial do Estado.

Seu governo foi um ótimo período em termos de desenvolvimento da terra e de estabilidade econômica. Desenvolveu a agricultura com o aumento na produção das oliveiras e videiras, resultado do período de paz prolongado. Possuía o monopólio sobre a extração de asfalto do Mar Morto. Arrendou minas de cobre em Chipre. Aumentou o comércio internacional com um incentivo para as caravanas utilizarem cada vez mais as rotas que passavam por dentro de seu reino. As caravanas vinham principalmente do Iêmen e do resto da Península Arábica trazendo incenso.

Herodes era um adepto fervoroso do Helenismo, doava constantemente fundos para o Templo de Apolo em Rodes. Apesar disto não esquecia a religião e a cultura judaica. Segundo Rosana Marins dos Santos Silva, o rei acreditava possuir a missão de unificar o Judaísmo com os novos movimentos espirituais que emergiam no Ocidente.

Levando a termo seu epíteto de construtor, seus vários projetos arquitetônicos tinham por objetivo ganhar o apoio da população pelo aumento de empregos melhorando assim a sua reputação. Muda a forma das cidades segundo a linha helenística romana. Reconstrói a cidade de Samaria e a rebatiza com o nome de Sebaste. Constrói Cesaréia (Tornou-se a capital administrativa romana na Judéia; um dos maiores portos do Império; considerado um símbolo pagão; anfiteatro/casas de banho/templo romano). Cidades em homenagem a seus familiares também foram criadas como Antipátrida e Fasélida. Construiu fortalezas como Herodium (uma montanha artificial com a função de mausoléu), Massada (reforma a antiga e constrói uma nova). Edifica um novo túmulo dos patriarcas em Hebron, cria fortificações novas em Jerusalém, junto com três torres na entrada da cidade. Desenvolve o abastecimento de água na capital. Para comemorar os jogos quinquenais instituído em quase todas as províncias romanas em honra a Augusto, erigiu em Jerusalém um teatro, um anfiteatro e um hipódromo. Três templos em honra a Augusto foram erigidos por sua ordem: um em Sebaste, um em Cesaréia e outro no território de Znodoros. Asquelon, Acco, Tiro, Sidon, Biblos, Trípoli, Damasco, Antioquia, Rodes, Atenas e Esparta também receberam provas de generosidade em suas estruturas monumentais.

A construção do Segundo Templo representou o ápice arquitetônico, foi de tal monta grandioso que só foi terminado vinte anos depois de sua morte. Iniciou em 20 a.E.C.. Empregou mil sacerdotes como pedreiros e carpinteiros para não profanar o interior das dependências. Aumentou a área do Monte do Templo. Apenas para levantar os muros de contenção ao redor do Monte demorou dez anos e precisou da mão de obra de dez mil homens. A estrutura não foi modificada, seguiu as regras estabelecidas na Bíblia, mas sua altura dobrou e as salas foram ampliadas.

Sofria uma oposição forte dos saduceus e dos fariseus. Estes grupos faziam uma comparação dele com Antíoco Epifanes (o rei selêucida da época da Revolta dos Macabeus). O Talmud resume os motivos para isso em alguns pontos, alguns certos e outros completamente equivocados tais como: a) suas origem estrangeira; b) atitude contrária as cortes religiosas judias encabeçadas pelos sábios, em particular pela anulação de sua autoridade judicial e do papel de liderança desempenhado pelo Sanhedrim em Jerusalém; c) imposição das leis reais baseadas em legislação estrangeira; d) diminuição do poder dos sacerdotes, no reinado de Herodes eram nomeados por ele; e) instituição de uma nova moeda com símbolos tirados a partir da cultura grega (aqui vemos uma falha de argumento, sabe-se que o meior cuidado do rei era não apresentar símbolos pagãos em suas moedas. Todas as achadas em escavações mostram isso); f) estabelecimento de um estádio, um teatro e um hipódromo em Jerusalém onde concursos, jogos e performances culturais eram realizados no estilo popular das cidades gregas e romanas; g) construção de cidades helenísticas dentro das fronteiras do reino, com a intenção de fortalecer elementos helenísticos; h) confiança nos princípios e procedimentos administrativos romanos; i) construção de Templos pagãos na terra de Israel (quesito recorrente em todos os reinados da História de Israel e da Judéia); j) minou o status dos Sábios e os eliminou (apenas os que representavam perigo para seu reinado, não podemos esquecer do surgimento e do apoio real aos estudiosos de diversos grupos judaicos, como Hillel); j) águia dourada na porta do Templo; l) extermínio sistemático da dinastia dos asmoneus (não podemos esquecer que casou com uma princesa asmonéia, neta de Hircano); m) reinado despótico de terror; n) coerção dos súditos para jurar fidelidade aos romanos e a si próprio; o) aumento de impostos (utilizava a mesma política fiscal do reinado dos asmoneus); exército estrangeiro (fato comum na época, parte do exército ser composto por tropas mercenárias, inclusive esta política também foi adotada pelos reis anteriores, inclusive pelo rei Davi)

Apesar de todas estas acusações o rei cuidava de seus súditos com amor, exemplo disso aconteceu na grande fome ocorrida em 24 a.E.C. onde comprou do Egito grandes quantidades de cereais, os distribuindo gratuitamente.

Uma pergunta pertinente e que explica muito dos embates entre Herodes e seus súditos judeus é: Herodes realmente era judeu? A resposta passa por questões muito mais amplas: quem era judeu na Antiguidade? Como a identidade judaica/jewishness era definida? Para respondê-las devemos ter em mente que as fronteiras entre os judeus e o resto da humanidade eram incrivelmente permeáveis e nem sempre claramente marcadas. Elas eram atravessadas tanto pelos gentis como pelos próprios judeus. Os gentis nem sempre eram aceitos como esperavam, mas poderiam associar-se, observando suas práticas ou converter-se ao Judaísmo. Podendo cessar sempre que quisessem.

A Jewishness (judaidade) das pessoas que atravessavam as fronteiras era determinada por várias jurisdições e grupos como a comunidade judaica, governadores municipais e das províncias bem como pelo governo imperial. Tudo isto estava ligado a interesses econômicos e religiosos. Inclusive o status do convertido era muito subjetivo. Em outro caso havia também gentis seguidores das regras e crenças, mas não realizavam a conversão. Eram conhecidos como tementes a deus. Estes muitas vezes eram reconhecidos como judeus pelos gentis e gentis pelos judeus. Um judeu que era convertido em uma comunidade poderia não ser aceito por outra. Isto acontecia pelo leque amplo de opiniões sobre o grau de que o convertido precisava fazer para tornar-se igual a um judeu de sangue.

Além deste problema, há outro também importante envolvendo a questão do significado da palavra judeu. As palavras equivalentes em grego Ioudaios e em latim Iudaeus são termos étnico-geográficos, igual a brasileiro, argentino, egípcio, sírio. Mas tem uma pequena diferença, a palavra grega Ioudaios significa alguém que venera o Deus do Templo de Jerusalém e observa suas leis.

Algumas fontes afirmam que Herodes era um ioudaios – isto é, um judeano, se podemos nos expressar assim, um membro de uma comunidade etno-geográfica constituída pelos habitantes da Judéia. Além de fontes escritas há achados arqueológicos que mostram ser Herodes um judeu (ânforas de vinho italiano tinha gravações indicando o destino, Herodes Iudaicus). Plutarco em sua obra A Vida de Antonio, quando fornece a lista de reis apoiadores de Marco Antônio incluem Herodes da Judéia (Herôdes ho ioudaios). Nicolau de Damasco afirma a origem do governante entre as primeiras famílias judias a retornarem da Babilônia. Nas narrativas de Flávio Josefo aparece regularmente como Herodes dos judeanos. Em algumas outras passagens claramente dá a entender Herodes ser um judeu como alguém que venera o deus cujo templo se encontra em Jerusalém. Uma passagem que ilustra bem esta colocação aparece em Antiguidades Judaicas 15:382 quando não entra no templo quando o está reconstruindo por não ser um sacerdote. Então segundo Josefo ele era um morador da Judéia e um judeu.

Muitas vezes a judaenidade e a jewishness eram concedidos por aqueles que poderiam ter razão para negá-la. Vemos isto no relato sobre os distúrbios ocorridos em Cesáreia pouco antes da Grande Revolta contra Roma de 66 E.C., quando habitantes judeus e sírios da cidade lutavam por direitos iguais. Os judeus afirmaram ter direitos por ser Herodes, um rei judeu, o fundador de Cesáreia; os sírios admitiam o fato, mas afirmavam que antes no mesmo lugar havia uma cidade de nome Estrabo, onde não havia um habitante judeu. Este relato aparece em Josefo, na obra Antiguidades Judaicas 20-173 e na Guerra Judaica 2-266

Sabe-se que Herodes era filho de um Idumeu com uma nabatéia. Apenas um detalhe, os idumeus foram convertidos pelo rei hasmoneu João Hircano em 122 a.E.C. quando da vitória na guerra contra a Iduméia. Então os idumeus, pelo menos aqueles que quiseram ainda viver na Iduméia, tornaram-se judeus. Politicamente eram judeus, cidadãos do estado judeu (Shayed Cohen defende não ser um estado e sim uma liga judaica). Religiosamente, tornaram-se judeus. Etnicamente, contudo, continuavam sendo idumeus, como os galileus que também retiveram sua própria identidade etno-geográfica.  Justino Mártir em seu livro Diálogo com Trifo apresenta uma descendência asquelonita (nascido em Ashquelon) para Herodes. Segundo o Talmud Babilonico (Bava Batra 3b) ele era apenas um escravo pagão da casa hasmonéia. Já em uma versão de Josefo Eslava (século XIII) o apresentava como árabe incircunciso. O Talmud em geral critica veemente sua origem.

Para alguns “verdadeiros judeus” (muito difícil encontrá-los na Antiguidade graças as contínuas miscigenações) da Judéia real (Jerusalém e arredores), idumeus como Herodes sempre eram considerados “outsiders” ou metade judeus. Em termos atuais podemos considerá-los mestiços não da forma pejorativa do termo mas sim com o significado de possuir parentes de etnicidades diferentes. Segundo Martin Goodmann a afirmação de que os Idumeus eram metade judeus é incompreensível, já o termo metade judeano seria mais correto. Um dos rolos dos manuscritos do Mar Morto (4Q491) é mais direto referindo-se a Herodes como idumeu.

O Herodes histórico sem dúvida era um judeu, no sentido do individuo pertencente a uma comunidade adoradora do Deus cujo templo encontrava-se em Jerusalém. Era membro de uma subdivisão do estado judeu

Outra questão era se podemos considerar ele um bom judeu. Neste sentido uma resposta é mais complexa devido a quantidade de grupos dentro da religião e suas diversas visões sobre o que seria ser um bom judeu. Tenho certeza que ele não era um judeu típico da Antiguidade. O mais importante para a reflexão sobre identidade judaica é que o caso de Herodes mostra a ambiguidade do termo ioudaius. (se era um termo político, um termo etno-geográfico ou um termo religioso.


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