Oportunidade para a Sustentabilidade

Edifício DOM MIGUEL, em São Paulo (1948 a 1999), mais conhecido como o Prédio do Restaurante Gigetto, foi retrofitado mudando de uso residencial para empreendimento hoteleiro.
Edifício DOM MIGUEL, em São Paulo (1948 a 1999), mais conhecido como o Prédio do Restaurante Gigetto, foi retrofitado mudando de uso residencial para empreendimento hoteleiro.

O sentido do retrofit é customizar, “colocar o antigo em boa forma”, adaptar e melhorar os equipamentos, conforto e possibilidades de uso de um antigo edifício. Não se trata simplesmente de uma reconstrução, pois esta implicaria em uma simples restauração. No mundo da construção, a arte do retrofit está aliada ao conceito de preservação da memória e da história, onde o objetivo principal é revitalizar antigos edifícios, aumentando sua vida útil, usando tecnologias avançadas em sistemas prediais modernos e materiais inovadores, sem falar da preservação do patrimônio histórico e arquitetônico. Na maior parte dos casos, o retrofit acaba saindo mais caro do que derrubar o antigo edifício e construir um novo, mas quando se trata de preservação de patrimônio histórico, não há muita saída. Porém, a médio e longo prazo, retrofit com bom planejamento e modernização de instalações aumenta a vida útil do edifício, diminui os custos com manutenção e amplia suas possibilidades de uso. Em São Paulo, temos o Edifício Dom Miguel, mais conhecido como o Prédio do Restaurante Gigetto, tradicional ponto de encontro de artistas. Aos 35 anos de idade, o edifício passou por oi retrofit, mudando o uso de residencial para um empreendimento hoteleiro com 110 unidades (residencial com serviços), piano bar, salas de eventos, fitness center, sauna e hidro.

O processo de retrofit já é empregado em larga escala em diversos países, principalmente europeus, onde há uma legislação bastante rígida em relação à preservação dos patrimônios arquitetônicos. No Brasil, o processo também vem conquistando cada vez mais espaço, mas é preciso saber onde e como aplicá-lo. Qualquer tipo de edificação pode passar por um Retrofit, existem até mesmo projetos que abrangem bairros inteiros. Alguns casos onde aplicar o Retrofit é uma boa alternativa: patrimônios históricos tombados; marcos importante (edifícios icônicos); imóveis com localização prime e quando realizar o Retrofit for mais rápido do que uma nova construção. O processo também é visto com bons olhos pelo lado da sustentabilidade, não só pela reciclagem e reutilização de materiais que ocorre durante as obras, mas também porque possibilita a inserção de tecnologias sustentáveis. Apesar das diversas vantagens citadas acima é preciso estar ciente de algumas características negativas, como a grande quantidade de imprevistos, isso ocorre, pois geralmente as construções estão antigas e deterioradas, assim pode haver problemas e gastos inesperados. Outro problema deve-se às limitações físicas do espaço, que exige um estudo mais rigoroso em relação à entrega de materiais e à retirada de entulho assim como a necessidade de mão de obra mais qualificada. Várias dezenas de edifícios de médio e grande porte já passaram por processo de retrofit nos últimos anos nas principais cidades brasileiras – com destaque para São Paulo e Rio de Janeiro – e projetos deste tipo não param de aparecer pelo País. E é um mercado que tem tudo para crescer ainda mais, devido à crescente escassez de terrenos nas metrópoles e o alto preço da maioria deles, para não falar do próprio custo da construção.

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PINACOTECA SÃO PAULO, após retrofit.

No Brasil, administrações de patrimônios históricos é extremamente conservadora e inflexível, um mercado imobiliário voraz, e a completa inoperância do Governo, nos fazem ter de aceitar “Miamis” como modelo de cidade, enquanto os centros se esvaziam e se arruínam, as periferias se deterioram e a classe média se fecha em carros blindados, estacionamentos e muros de condomínios. O retrofit é hoje uma das disciplinas mais trabalhadas na Europa, que nada mais é do que a requalificação de construções antigas para adequá-las a novos usos e reintegrá-las à vida urbana. Seja para transformá-las em residências, comércio, grandes instituições públicas ou mesmo para mantê-las como marco da cultura e da história, o retrofit pode e deve ser aplicada a boa parte dos edifícios hoje largados às traças que dominam a riquíssima paisagem dos centros de São Paulo e Rio de Janeiro. Embora os numeros sejam pequenos, o retrofit aparece em alguns predios fortunados e maravilhosamente executados, como no caso da Pinacoteca de São Paulo nas mãos de Paulo Mendes, o projeto da Lina Bo no SESC Pompéia e o Banco do Brasil espalhando seus centros culturais pelo país. Mas os esforços hoje nesse processo pecam quase sempre em seu objetivo final, fazendo brotar da terra uma infinidade de ‘centros culturais’ que muitas vezes nem objetivo de ser tem. Ou pior, restaura-se o edifício e entrega-se o espaço para usos indefinidos, o que pode acabar com as potencialidades do projeto (vide a Casa das Caldeiras, em São Paulo).

Projeto da fachada do edifício do Liceu de Artes e Ofícios (atual Pinacoteca do Estado), realizado pelo escritório técnico de Ramos de Azevedo e executado por Domiciano Rossi, c. 1897. – Acervo do Liceu de Artes e Ofícios de São Paulo.
Projeto da fachada do edifício do Liceu de Artes e Ofícios (atual Pinacoteca do Estado), realizado pelo escr. téc. de Ramos de Azevedo e executado por Domiciano Rossi, c. 1897. – Acervo do Liceu de Artes e Ofícios de São Paulo.
Vista aérea com a Estação da Luz à esquerda, o Jardim da Luz ao fundo e a Avenida Tiradentes à direita. (Paulo Mendes da Rocha – Cosac & Naify)
Vista aérea com a Estação da Luz à esquerda, o Jardim da Luz ao fundo e a Avenida Tiradentes à direita. (Paulo Mendes da Rocha – Cosac & Naify)

O belo edifício, a iluminação e a distribuição dos ambientes valorizam ainda mais o acervo. São mais de 9 mil obras, com foco na produção brasileira do século 19 e em arte contemporânea. Anita Malfatti, Almeida Júnior e Candido Portinari, são preciosidades em exposição. Quando falamos do trabalho de Paulo Mendes da Rocha, voltamos um pouco à história recente da arquitetura paulistana, para assim destacar algumas características que em sua obra resistem com firmeza e a autenticidade de sempre.

O prédio da Pinacoteca do Estado foi erguido entre 1887 e 1905 para abrigar o Liceu de Artes e Ofícios, mas o plano nunca foi concluído.
O prédio da Pinacoteca do Estado foi erguido entre 1887 e 1905 para abrigar o Liceu de Artes e Ofícios, mas o plano nunca foi concluído.

O objetivo principal da obra de reforma da Pinacoteca do estado foi adequar o edifício construído no final do século XIX às atuais necessidades técnicas e funcionais de um grande museu, o qual seria agora destinado. O edifício foi dotado de toda a infra-estrutura necessária, contando com a construção de um elevador para o transporte de público e de obras; laboratório de restauro, biblioteca e a climatização de diversas áreas do depósito do acervo. O projeto do arquiteto Ramos de Azevedo incluía uma cúpula central, que não chegou a ser construída – uma cobertura transparente tomou seu lugar. A alteração garantiu abundante entrada de luz natural no ambiente, diferencial que faz da Pinacoteca um dos museus mais agradáveis da cidade.

Interior do prédio da Pinacoteca do Estado de São Paulo, o antigo Liceu de Artes e Ofícios. O arquiteto Paulo Mendes da Rocha fala sempre da técnica, porém, em quase toda sua obra o aspecto técnico homenageado e mais evidente é a estrutura.
Interior do prédio da Pinacoteca do Estado de São Paulo, o antigo Liceu de Artes e Ofícios. O arq. Paulo Mendes da Rocha sempre aborda a técnica, porém, o aspecto técnico homenageado e mais evidente é a estrutura.
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