A legitimidade das ruas

A história que ainda não foi contada sobre o grafite de São Paulo.

de Jaime Prades*

Estavamos no começo da década de 80. As sirenes dos camburões da polícia militar rasgavam as avenidas da cidade. Quem viveu esses anos lembra-se da cena típica de criação de pânico – assustadoramente estudada – com os “meganhas” pendurados para fora dos furgões Chevrolet armados até os dentes e batendo na lataria das portas de forma insana como cães raivosos, no melhor estilo dos quadrinhos do Luis Gê.

As ruas eram um território dominado pela brutalidade e ignorância das forças armadas que sistematicamente alimentavam o medo nos espaços públicos e davam o tom de pavor no palco urbano. Mais de uma vez esse teatro patético de última categoria terminava em tragédia e gerando vítimas reais. Era o Brasil do final da ditadura e as ruas, as de São Paulo.

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Da janela do ônibus lotado, voltando para casa carregando minhas coisas e meus 23 anos nas costas, em 1981 vi pela primeira vez um grafite do Alex Vallauri. Não estou falando de frases escritas que sempre existiram e existirão, imagino. Refiro-me a desenhos e bem gráficos: uma acrobata dando uma pirueta, quase um carimbo, uma bota sexy, um telefone estampado na parede…para falar com quem? Comigo?…

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Anos depois descobri que essa acrobata é um detalhe de um quadro de Georges Seurat “O circo” de 1891 hoje no Musée d’Orsay de Paris. Alex, com o seu olhar erudito de gravador, indo além da releitura arrancou esse detalhe e o estampou por São Paulo e Nova York. Só essa citação nos permite criar associações e perceber a poética e a consciência da atitude do artista quando foi para a rua.

Alex Vallauri (1949/1987) foi o primeiro artista de rua do Brasil. Dessa nova arte urbana que hoje domina o cenário internacional e traz oxigênio para as artes plásticas.

Ele ultrapassou a fronteira invisível que separa o público do privado; o instituido do libertário; o templo da rua. E enfrentou o poder de exclusão do sistema de arte exercitando o poder de criar seu próprio espaço. Alex foi o primeiro a ter um trabalho público sistemático e a nos surpreender com seus comentários visuais.

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Qualquer país que valorize sua própria cultura e se orgulhe de seus artistas nunca deixaria que um artista com o seu valor tivesse sua obra canibalizada e seu trabalho à beira do esquecimento.

Até hoje não temos sequer um livro e uma grande exposição sobre a sua obra.

Aqui no Brasil, como em muitas culturas que foram dominadas e sofreram isolamento, ainda há muito desprezo pelo que é original. Esse traço colonial ainda sobrevive escondido, embora perceptível, no abandono do que não é avalizado pela Europa ou pelos EUA. Em outras palavras: o que tem valor é o que faz sucesso lá fora. Até hoje não foi escrito um texto crítico decente sobre o grafite na década de 80. A instalação do MIS mostra mais uma vez o descaso e a incompreensão do que fizemos.

Voltando para a nossa história, que é a que deve ser contada aqui. Na linha de frente Alex abriu a arte urbana e como o rastro de um cometa uma geração de artistas seguiu e expandiu o seu caminho mudando definitivamente a arte brasileira.

A distância do tempo permite-nos visualizar alguns momentos mais definidos dessa história. A partir de Alex a arte de máscara (papel recortado) com spray (stencil art) foi a que predominou nessa primeira fase. A rapidez para realizá-los e o grande efeito dos “carimbos” possibilitaram que esses pioneiros driblassem a polícia, o que não era brincadeira.

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 PARTE 2

Em 1987, unidos por Alex Vallauri e Maurício Villaça no evento “A trama do gosto” da Fundação Bienal de São Paulo eu, Zé Carratü, Carlos Delfino, Rui Amaral, Alberto Lima e Claudia Reis saímos de lá decididos a conquistar as paredes públicas dos túneis que ligam a Av. Paulista às Avenidas Rebouças e Dr. Arnaldo, quando fizemos os primeiros mega grafites da história contemporânea brasileira, e à luz do dia.

Máquinas, seres, labirintos, estruturas, cidades, dragões surgiram do nada e até hoje estão na memória de todos os que pássaram por lá. Toda uma geração de crianças na época, que hoje tem entre 25 anos ou mais, lembram delas. O impacto dessas pinturas feitas na raça com a cara e a coragem trouxeram para a nossa comunidade uma arte até esse momento numa dimensão desconhecida até por nós que as realizamos.

A rua foi um catalizador, nossa experiência ao fazê-las era aberta, não sabíamos onde chegaríamos. Criamos um repertório de símbolos e signos que se replicavam e ocupavam o espaço arquitetônico modelando-se sobre as paredes.

Jean Dubuffet – o grande artista francês fundador da “art brut” – é na minha opinião a referência essencial e precursor da arte urbana de grande escala. Ele conceituou o processo criativo de continuidade como “fluxo de consciência”. Esse fenômeno de permitir que a mente canalize a expressão como um fluxo tendo ao mesmo tempo consciência sobre isso é um processo criativo que de certa forma atemoriza algumas correntes artísticas que têm muita dificuldade em lidar com tudo que não deve ser controlado totalmente.

Quando o fazer artístico se atreve a soltar as amarras do intelecto e a aventurar-se nos planos da experiência unificando-se num estado de integração plena em uma espécie de meditação ativa, não pode haver controle total. Esses artístas são os que têm a coragem de pular do abismo sabendo que depois de pular não tem volta.

Apesar de toda sua boa vontade e esforço a maneira como a pequena instalação está colocada diante do resto da mostra dá a impressão que está ali porque não deu para nos por para fora. Tentando explicar melhor a situação, se o museu fosse uma mansão gigante, um duplex último modelo, o espaço destinado à nós – quero dizer do Alex até o final que ainda não contei, mais de 10 anos de arte urbana – seria do tamanho do quarto de empregada. Mas aquele quarto de empregada minúsculo, cruel, para ela dormir em pé.

Mais uma vez a ironia apresenta-se neste artigo: como nós que conquistamos espaços enormes nas ruas da cidade, totalmente expostos, vulneráveis, sujeitos a violência, ataques, prisões, estamos alí num cubículo claustofóbico, humilhante, injusto, ilegítimo?

Que tipo de análise e visão pode atrever-se a nos espremer numa espécie de esquife, de caixão mortuário, ainda vivos? Vivíssimos, diga-se de passagem, já que muitos de nós estamos mais ativos do que nunca como artistas urbanos e plásticos.

Será que nosso trabalho ainda tem o poder de incomodar tanto uma certa elite do sistema de arte que até agora não entendeu nada do que fizemos, ou não quer reconhecer, ou, pior, trabalha para desacreditar nossas conquistas?

Seja lá o que for é uma injustiça com o público. É eticamente condenável impedir que as novas gerações saibam a importância do que aconteceu e tenham acesso à verdadeira história.

Que estas palavras tenham repercussão e cheguem a mentes mais generosas e inteligentes é a intenção deste texto. Todos aqueles que participaram desse momento e guardam na sua memória a experiência dos nossos grafites sabem que, naquele momento, traduzimos em imagens a transformação que vivíamos na nossa sociedade após anos de repressão.

Para concluir, a partir de 1990, como uma espécie de fermento descontrolado as gangues da periferia, que também experimentavam o processo democrático, começaram a pixar tudo. Nossos trabalhos foram os primeiros a tombar…e a cidade foi tomada pelos pixadores. Só anos depois que uma nova geração tomou conta da arte de rua.

E essa história está só começando.

 

http://portaljudaico.com.br/vendoo/uploads/2016/09/7.jpghttp://portaljudaico.com.br/vendoo/uploads/2016/09/7-150x150.jpgAlicia StiubiARTE E ARQUITETURAARTE NAS RUASA legitimidade das ruas A história que ainda não foi contada sobre o grafite de São Paulo. de Jaime Prades* Estavamos no começo da década de 80. As sirenes dos camburões da polícia militar rasgavam as avenidas da cidade. Quem viveu esses anos lembra-se da cena típica de criação de pânico -...Comunidade Judaica Paulistana