Lembro como se fosse ontem… Bom, tudo que lembro, lembro como se fosse ontem, senão não lembrava, então vou dizer que lembro como se fosse algo que acabou de acontecer, porque é assim que eu sinto, de tão presente na minha mente e no meu coração.

Eu estive frente a frente com o meu ídolo. Ele estava passando pela sala onde eu trabalhava, olhou para mim e disse “Shalom”…

Agora que estou escrevendo, percebo que o que ele me disse foi um “oi”. Mas poderia muito bem ter sido, como eu achei que fosse naquele dia, “Paz”. Porque, se penso em “Paz”, aliás, quando eu penso nem que seja em uma remota possibilidade de Paz, em qualquer lugar, o que me vem à cabeça é sempre ele.

Não faço a menor ideia do que respondi, se é que respondi. Tiete… Totalmente tiete! Não, não do tipo de gritos histéricos, “arrancar os cabelos meus ou dele” tiete… Tiete bobona babona mesmo. Daquelas que criam discursos elaborados na cabeça para se um dia estiver frente a frente com a pessoa, mas na hora de falar com quem admira sai um balbuciar incompreensível. Isso quando sai alguma coisa. Naquele dia não saiu. Mas acho que ele estava acostumado, porque sorriu de maneira muito simpática para a moça (é, eu era moça…) apatetada. Eu acho que ofereci um café, o que é estranho, porque sempre gostei dele e meu café é horrível… Também posso muito bem ter oferecido um rim, ou sei lá. Estou dizendo, tietagem apalermada em toda sua essência… Eu lembro até a cor do terno que ele estava usando. Não que isso seja muito difícil, porque ele não variou muito neste aspecto ao longo dos anos. Mas ei, lembro de que não gostei da gravata e de ter pensado que, se fosse meu pai, meu amigo, ou se pelo menos ninguém estivesse olhando, pegava outra para ele… De novo, coisas de tiete…

Mais tarde, no evento em que ele discursou, sentei bem na frente, praticamente a um metro de distância. “Sentar” é meio figura de linguagem, porque a sensação era de estar nas nuvens… Ou em posição de sentido, diante de alguém que era tão importante.

Antes de falar sobre o que ele disse, cabe dizer que não sou uma pessoa que se impressionava muito facilmente. Ao contrário da maioria, acho que nasci dura e fui amolecendo com a idade. Tinha poucos, muito poucos ídolos na juventude – E não, não sou velha não, só mais madurinha… Ídolos vivos então, não tive nem tenho quase nenhum. Era sim fã de um ou outro autor, compositor, cantor… Mas “ídolo”? Nunca foi muito meu gênero não.

Foi com a maturidade que aprendi a tentar separar obra do autor, o que tem me sido muito útil nessa época de opiniões destrambelhadas e posicionamentos estapafúrdios de gente famosa que a gente escuta e vê todos os dias. Claro, maturidade, maturidade, Mel Gibson a parte. Posso ser “esclarecida”, mas não tenho sangue de barata. Mas enfim, lá vou eu saindo do assunto.

 

Políticos? Tinha simpatia por no máximo dois ou três, no planeta e na história e a maioria, com um olhar mais atento em suas biografias, acabaram se revelando não tão bons na realidade quanto eram no imaginário, que é o que geralmente acontece. Para dizer a verdade, só fui descobrir o quanto era realmente fã desse homem naquele dia…

Mas lá vou eu, mudando de assunto… Vou voltar para aquele dia, para o meu “hoje de manhã”…

Estava lá eu, a um metro de distância daquele senhor, pensando… Como é que eu, “euzinha da silva”, tinha conseguido tamanha façanha? Como me coube tamanha sorte?

A verdade era bem mais simples do que eu gostaria de admitir, eu trabalhava no lugar certo, na época certa. Às vezes acontece. Comigo muito raramente, o que tornou a ocasião ainda mais marcante. Não lembro nem como eu cheguei ali, nem se havia mais alguém. Quero dizer, eu SEI que o auditório estava lotado, mas eu tive uma sensação, uma daquelas experiências que aparece muito na dramaturgia sabe? A de que ele estava falando só para mim… Não era uma coisa romântica não… Aliás, acho que todo mundo que já teve a oportunidade de ouvi-lo deve ter tido a mesma impressão, tão especial ele é…

Reproduzo, com minhas palavras, o que ele disse naquele dia, da forma como ficou gravado em minha memória:

“Israel é um país pequeno. Em extensão territorial, é um dos menores… Temos os problemas de qualquer país jovem e estamos ainda buscando soluções para a maioria deles. A cada dia, chegam mais e mais imigrantes. E queremos que cheguem cada vez mais. Sempre! A cada ano, nossas universidades, nossos institutos de pesquisas, citados entre os melhores do mundo, formam profissionais gabaritados em todas as profissões. Temos excelentes médicos, cientistas, artistas, arquitetos… Temos proporcionalmente três vezes mais engenheiros do que no país “x”, do primeiro mundo. E também queremos ter sempre mais!”

Nessa hora ele parou para tomar um gole de água e eu tive a impressão de que olhou direto para mim e, pela minha expressão, adivinhou o que eu estava pensando. Ele sorriu e continuou…

“Creio que alguns de vocês fizeram a soma e perceberam que os números não batem, não é mesmo? Um país tão pequeno, com tantos profissionais, e ainda queremos mais? Pois é… Queremos sim, queremos muitos mais!

Sim, temos três vezes mais engenheiros e três vezes menos locais para construir pontes, por exemplo. Deve ser o que está passando pelas suas mentes e eu entendo perfeitamente… Não, amigos… Não queremos construir três pontes sobre um mesmo rio, nem iremos construir uma ponte em cima da outra. Não… Nossa ambição é muito maior. Nossa ambição é construir a maior e melhor de todas as pontes… Com o esforço de todos, esperamos construir a paz com nossos vizinhos! Construiremos as pontes e as estradas que nos levarão até eles e depois construiremos juntos hospitais para eles, ensinaremos aos médicos deles nossas técnicas e aprenderemos com os profissionais deles. Trocaremos conhecimento e tecnologia e logo cresceremos ainda mais, todos juntos, e mostraremos ao mundo como se faz.

Logo, esta ponte de paz se estenderá para a Europa e de lá para todos os continentes e, juntos, construiremos um futuro melhor, um amanhã melhor para todo mundo! É um sonho. Um sonho sim, um sonho difícil, com uma longa e difícil jornada a percorrer, mas eu acredito que é um sonho possível. Eu acredito que é um sonho pelo qual vale a pena lutar, um sonho em que vale a pena acreditar.”

Ok… Não foram exatamente essas as palavras. Mais de 25 anos se passaram. Mas foi o que entendi das palavras de Shimon Peres. Foi o que aprendi com as palavras de Shimon Peres.

E quando eu as ouvi, quando ele falava em Paz, em crescimento mundial, em futuro, não havia ainda nem rumores sobre globalização. Ele falava, com o olhar no futuro, mas, acredito, usando um preceito milenar do judaísmo, o “Tikun Olam”, que nos ensina a tentar sempre somar, curar o mundo…

Confesso que uma das grandes razões por essa minha tietagem toda não é tanto por uma esperança na real probabilidade de que a paz aconteça enquanto eu ainda estiver viva, mas pelo privilégio de ter conhecido, de ter estado a um metro de distância de alguém que realmente acreditou e acredita nela. Alguém que fez tanto pela paz e que por isso mesmo teria muito mais do que a maioria das pessoas o direito de se desiludir e, no entanto, permaneceu fiel ao seu sonho, ao sonho de muita gente.

Na minha opinião, é de guerreiros como ele que precisamos, e precisamos cada vez mais, com muita urgência. Espero e rezo para que ele vença a luta pessoal pela saúde, para que possa continuar travando batalhas por esse mundo maravilhosamente possível que ele me mostrou. Que ele se restabeleça, por ele, por seus familiares, por todos e, por que não dizer, por mim, porque, egoisticamente, acredito que o mundo real é muito mais tolerável com Shimon Peres nele…

 

 

 

 

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