Hoje tentaram invadir o Congresso, em Brasília, pedindo intervenção militar.Não pude deixar de lembrar um caso que acompanhei bem de perto, pois meu pai foi o advogado. A cada dia, ele saía de casa sem a certeza de que voltaria. Ainda bem, tudo deu certo, mas o medo e a insegurança da época nunca mais esqueci. Foi um caso julgado pelo Tribunal Militar, contra a opressão… dos próprios militares.

Lourenço Diaféria era Jornalista e, na minha opinião, o maior cronista que o Brasil já teve. Em 1956 começou a trabalhar na Folha da Manhã, atual Folha de São Paulo. Mais tarde, levou suas crônicas para o jornal da Tarde, Diário Popular, Diário do Grande ABV , além de quatro emissoras de rádio e a Rede Globo. Escreveu vários livros.

Época da ditadura militar.

Tudo que se escrevia, cantava, recitava passava por uma censura… e as grandes cabeças da época mandavam seus recados nas entrelinhas de suas obras, disfarçados.

Lourenço Diaféria escreveu uma crônica : “Herói. Morto. Nós” , considerada ofensiva às forças armadas.

A crônica comentava o heroísmo do sargento Sílvio Delmar Hollenbach, que pulou em um poço de ariranhas no zoológico de Brasília para salvar um menino. A criança se salvou, mas o militar morreu, vencido pela voracidade dos animais. O texto também citava o duque de Caxias, o patrono do Exército, lembrando o estado de abandono de sua estátua no centro da capital de São Paulo, próximo à Estação da Luz.

Diaféria foi preso, enquadrado na LSN (Lei de Segurança Nacional), cujo teor visava proteger o Estado contra um “inimigo interno”, naquela conjuntura, pessoas tidas como comprometidas com ideais políticos diferentes daqueles preconizados pelos militares.

Durante algumas semanas, a Folha deixou em branco o espaço destinado ao colunista, em repúdio à sua prisão.

O Dr. Leonardo Frankenthal, meu pai, enfrentou o regime para defende-lo, em uma época em que os direitos constitucionais dos cidadãos estavam suspensos.

Trancas foram colocadas na porta de casa. Guarda-costas contratados. Mas nem por um minuto ele pensou em desistir.

A íntegra da crônica que levou Lourenço Diaféria à prisão :

HERÓI. MORTO. NÓS.
(Crônica publicada no jornal Folha de S. Paulo em 1º de setembro de 1977.
Neste texto foi mantida a grafia original da época )
Lourenço Diaféria 

“Não me venham com besteiras de dizer que herói não existe. Passei metade do dia imaginando uma palavra menos desgastada para definir o gesto desse sargento Sílvio, que pulou no poço das ariranhas, para salvar o garoto de catorze anos, que estava sendo dilacerado pelos bichos. 
O garoto está salvo. O sargento morreu e está sendo enterrado em sua terra. 
Que nome devo dar a esse homem? 
Escrevo com todas as letras: o sargento Silvio é um herói. Se não morreu na guerra, se não disparou nenhum tiro, se não foi enforcado, tanto melhor. 
Podem me explicar que esse tipo de heroísmo é resultado de uma total inconsciência do perigo. Pois quero que se lixem as explicações. Para mim, o herói -como o santo- é aquele que vive sua vida até as últimas consequências. 
O herói redime a humanidade à deriva. 
Esse sargento Silvio podia estar vivo da silva com seus quatro filhos e sua mulher. Acabaria capitão, major. 
Está morto. 
Um belíssimo sargento morto. 
E todavia. 
Todavia eu digo, com todas as letras: prefiro esse sargento herói ao duque de Caxias. 
O duque de Caxias é um homem a cavalo reduzido a uma estátua. Aquela espada que o duque ergue ao ar aqui na Praça Princesa Isabel -onde se reúnem os ciganos e as pombas do entardecer- oxidou-se no coração do povo. O povo está cansado de espadas e de cavalos. O povo urina nos heróis de pedestal. Ao povo desgosta o herói de bronze, irretocável e irretorquível, como as enfadonhas lições repetidas por cansadas professoras que não acreditam no que mandam decorar. 
O povo quer o herói sargento que seja como ele: povo. Um sargento que dê as mãos aos filhos e à mulher, e passeie incógnito e desfardado, sem divisas, entre seus irmãos. 
No instante em que o sargento -apesar do grito de perigo e de alerta de sua mulher- salta no fosso das simpáticas e ferozes ariranhas, para salvar da morte o garoto que não era seu, ele está ensinando a este país, de heróis estáticos e fundidos em metal, que todos somos responsáveis pelos espinhos que machucam o couro de todos. 
Esse sargento não é do grupo do cambalacho. 
Esse sargento não pensou se, para ser honesto para consigo mesmo, um cidadão deve ser civil ou militar. Duvido, e faço pouco, que esse pobre sargento morto fez revoluções de bar, na base do uísque e da farolagem, e duvido que em algum instante ele imaginou que apareceria na primeira página dos jornais. 
É apenas um homem que -como disse quando pressentiu as suas últimas quarenta e oito horas, quando pressentiu o roteiro de sua última viagem- não podia permanecer insensível diante de uma criança sem defesa. 
O povo prefere esses heróis: de carne e sangue. 
Mas, como sempre, o herói é reconhecido depois, muito depois. Tarde demais. 
É isso, sargento: nestes tempos cruéis e embotados, a gente não teve o instante de te reconhecer entre o povo. A gente não distinguiu teu rosto na multidão. Éramos irmãos, e só descobrimos isso agora, quando o sangue verte, e quanto te enterramos. O herói e o santo é o que derrama seu sangue. Esse é o preço que deles cobramos. 
Podíamos ter estendido nossas mãos e te arrancando do fosso das ariranhas -como você tirou o menino de catorze anos- mas queríamos que alguém fizesse o gesto de solidariedade em nosso lugar. 
Sempre é assim: o herói e o santo é o que estende as mãos. 
E este é o nosso grande remorso: o de fazer as coisas urgentes e inadiáveis -tarde demais. “

Esta crônica foi publicada no jornal Folha de São Paulo, no dia 1º de Setembro de 1977. Em plena vigência da ditadura militar no Brasil. Período em que tudo que fosse divulgado, falado ou escrito, deveria passar pelo crivo da censura do governo. Não se podia comentar sobre política. Pessoas eram presas e desapareciam, ou eram mandadas para o exílio sob a justificativa de serem um perigo para o regime militar.
Os direitos constitucionais dos cidadãos estavam suspensos.

No dia 10 de Setembro de 1977, dez dias após a publicação da crônica, o então ministro da Justiça, Armando Falcão, em função de ordem do Ministro do Exército,  General Silvio Frota , determinou ao departamento de Polícia Federal a instauração de inquérito, para apurar a responsabilidade pela publicação que, segundo ele, constituía violação de dispositivos da Lei de Segurança Nacional, pois a matéria era considerada ofensiva às Forças Armadas.

A nota do Ministro do Exército, extensa, abria com o seguinte teor :
“Os Jornais tem divulgado constantemente,matéria que, direta ou indiretamente, visa a atingir o Exército, emitindo referências depreciativas, e, não raro, insultuosas, contra seus integrantes em todos os níveis da hierarquia, deformando fatos e enodoando-lhes a imagem, construída ao longo de um passado de lutas e idealismo pelo bem do País.”

Tal decisão, contava com o apoio do Senado, Câmara e de todos os escalões do Governo, situação e oposição.

A OAB, preocupada com o respeito ás prerrogativas do advogado, manifestou-se dizendo que estaria à disposição caso o advogado de Lourenço Diaféria tivesse restrições nas suas prerrogativas profissionais.

No dia 11 de Setembro de 1977, a Folha de São Paulo divulgou matéria rechaçando a inclusão do jornalista Lourenço Diaféria na LSN, e dizendo que a atitude do Ministro do Exército fazia parte de algo maior, e que, … “em uma caçada às baleias, o resultado, por enquanto, era o fisgamento de um lambari”…

De um lado, havia a pressão para que a nota do Ministro do Exército produzisse todos os efeitos colimados. De outro a importância política de reduzir ao mínimo os pontos de conflito que se criariam ao serem chamados os diretores de jornais do Rio e de São Paulo para depor e explicar sobre as origens e objetivos de determinadas matérias. Criara-se uma situação muito delicada.

A Associação Brasileira de Imprensa – ABI – declara que se existe uma legislação própria para determinar a responsabilidade da Imprensa, então, o certo será que Jornalistas respondam por seus atos diante dela e não da LSN.

Frankenthal declara que …” o caso não é jurídico e sim de “literatura”. “ Em sua opinião, o conteúdo do artigo seria um …”problema para os filólogos resolverem”.

A situação era muito tensa e envolvia algo muito além da crônica de Diaféria. Os Jornais queriam manter a sua liberdade de imprensa. E naquela época, estavam publicando muitas matérias sobre torturas e desatinos cometidos pelos militares.

No dia 15 de setembro de 1977, foi nomeado o Delegado Raul Ketter para cuidar do inquérito de Diaféria.

Frankenthal declara : “ Assim que formos notificados colocaremos nosso cliente à disposição das autoridades para todos os esclarecimentos. O caso não é difícil. É um caso literário. Assim que os mal-entendidos estiverem solucionados, haverá uma certeza cristalina de que Diaféria não teve intenção de denegrir ou desprezar as Forças Armadas ou o seu Patrono.”
…”A defesa vai pedir arquivamento do caso, por atípico, uma vez que não há conformidade com nenhuma norma legal punitiva”…  declara ainda que …”há inexistência de crime a punir”…

No dia 16 de Setembro, às 17:00 horas, Lourenço Diaféria foi levado de sua casa, preso.

A prisão de Diaféria :

Diaféria foi preso dia 15 de Setembro de 1977, às 17:00, levado de sua casa por agentes da polícia federal. Frankenthal estava lá.
“Ás primeiras horas da manhã, a esposa de Lourenço Diaféria e os vizinhos perceberam a movimentação dos agentes nas imediações da residência do jornalista. Dois agentes, que ocupavam um automóvel Ford Corcel cor branca, ficaram a poucos metros da residência e foram vistos fazendo uma ligação com o cabo telefônico da residência do jornalista para estabelecer um posto de escuta.
Mas, somente à tarde, um dos agentes bateu á porta da casa de Lourenço Diaféria, identificando-se e justificando a sua presença ali.
O agente pediu para que a esposa de Diaféria o localizasse, (naquele momento ele estava no centro), explicando que se ele aceitasse acompanhá-lo seria evitada uma situação desagradável:
– Eu poderia, por exemplo, prende-lo lá na Folha ou em um outro lugar, mas preferi agir desta maneira.
Ela telefonou para a Folha de São Paulo, falou rapidamente com Lourenço Diaféria que, informado do que estava ocorrendo, em poucos minutos dirigiu-se á sua residência.
O agente fez um breve relato á esposa de Diaféria sobre a movimentação dos vizinhos, que chegaram á residência, os telefones recebidos e as ligações feitas. Citou até que uma senhora – vizinha da família – esteve lá, saiu e voltou logo depois, vestida com outra roupa. O agente ainda fez perguntas sobre alguns pacotes que estavam ao lado de uma poltrona, na sala de visitas : são brindes destinados à quermesse de uma paróquia, cujo padre é amigo de Lourenço, que tem nele um grande colaborador.
Lourenço tentou tranqüilizar a esposa e os filhos antes de sair de casa. Pediu para que todos permaneçam em casa e que não há nada a temer.
Saiu acompanhado dos agentes, caminhando lado a lado, com naturalidade, entraram num veículo oficial da Polícia Federal (não foi no Corcel Branco) e foram levados para o casarão da Rua Piauí…” (Jornal Notícias Populares – 17 de Setembro de 1977)

O Dr. Leonardo Frankenthal acompanhou Lourenço até a Polícia Federal.

O clima no Brasil era tão tenso que o Cardeal Arcebispo de Salvador e primaz do Brasil, D. Avelar Brandão, ao comentar a prisão e enquadramento de Diaféria na LSN, chegou a declarar que “já foi um grande passo o Sr. Ministro do Exército ter apelado para a Justiça, num caso em que de hábito, são outros os caminhos. Temos que aplaudir as boas iniciativas.” (Folha de São Paulo – 18/09/1977 – Primeiro Caderno – pg 12)

Em meio a um regime ditatorial militar, ter como cliente um jornalista acusado de ofender ao Regime, não era algo confortável.
Pode-se dizer que era, até mesmo, perigoso, por mais experiência que tivesse o advogado.
Houve até um boato de uma ordem de suspensão das visitas do ao jornalista ! O que não era verdade, pois um familiar obteve permissão para visitar Diaféria neste dia.

Era um caso muito difícil. Como conseguir imparcialidade e respeito aos direitos do cliente em uma época em que os direitos dos cidadãos não existiam mais?

Dom Paulo Evaristo Arns, Cardeal Arcebispo de São Paulo, declara que, sobre a crônica, “ não foi escrita com a intenção de atingir ninguém, nem as Forças Armadas”, para ele, a crônica “até que enaltece o Exército, porque fala de um sargento que se tornou herói por um ato de bravura.”
No dia 17 de Setembro, D. Paulo viajou para Roma, onde tentará um pronunciamento do Papa Paulo VI sobre a prisão de Diaféria.
O presidente do Sindicato dos Jornalistas no Estado de São Paulo, Audálio Dantas, declarou : “Mais uma vez fomos surpreendidos com a aplicação da Lei de Segurança Nacional, no caso em que todos nós sabemos que se trata de um profissional com longa carreira, com local de trabalho conhecido e residência fixa.
Não cometeu, de acordo com o nosso ponto de vista de jornalistas, nenhum crime. E se o tivesse cometido, segundo a interpretação da Lei de Segurança Nacional, não se justificaria essa prisão para o desenvolvimento do inquérito. A própria lei pemite que o inquérito seja feito com o acusado em liberdade. Isso é uma violência.

O inquérito corria no Tribunal da Auditoria Militar.
Apesar de legalmente constituído, e de ter estado com Diaféria, não deixaram que Frankenthal tivesse acesso ao inquérito, visto que a peça era sigilosa., ignorando, inclusive, quando ele seria interrogado, sendo-lhe garantido pelo delegado, a ´prerrogativa profissional de estar com Diaféria sempre que quisesse.
Diaféria foi interrogado por mais de duas horas, no dia 17 de Setembro.
Apesar das dificuldades criadas pelos militares para acompanhar o inquérito, Frankenthal estava confiante, e as manifestações da imprensa e de solidariedade ajudavam com que fosse mais tranqüilo acreditar na manutenção da integridade do jornalista.
Mas ele havia se comprometido com a família de Diaféria.
E ele iria cumprir sua promessa. Como sempre. Jamais descumprira uma promessa.

Baseado no fato de que o delegado do inquérito já havia indiciado Diaféria na LSN, e que, portanto, a coleta de provas terminara, meu pai pede a soltura de Diaféria, não vendo mais justificativa legal para que continuasse preso.
No dia 20 de Setembro, cinco dias após a prisão, Diaféria é libertado para que responda ao processo em liberdade.
Depois de solto, Diaféria pede a Frankenthal que divulgue uma nota à imprensa :
“Fui tratado com decência e dignidade. O apoio moral recebido muito me confortou. Estou feliz por terem sido apenas humanitárias as manifestações a um homem que quer provar que nunca tentou ofender ninguém, que ama sua pátria, sua profissão, seus irmãos, sua esposa e seus filhos.”

Em 1980, depois de muita luta, Diaféria foi definitivamente absolvido.

E escreveu no jornal Folha de São Paulo :

OBRIGADO, AMIZADE
[Crônica publicada no jornal Folha de S. Paulo em 14 de fevereiro de 1980]

Neste texto foi mantida a grafia original da época 
Lourenço Diaféria 
“ Façam de conta que hoje estou sem assunto. Com um siroco de sensações na cxça, não estou bem certo de encontrar o remanso de espírito para dizer exatamente o que deveria dizer. A crônica, qualquer um sabe, é antes de tudo, desnudamento.Mais cedo ou mais tarde o público acaba se divertindo com o cronista sem maquilagem. De modo que é sempre necessário um mínimo de frieza para que a crônica não desemboque num filete de paixão, num desabafo tolo que não se usa mais nos jornais sérios. Ou se usa? De qualquer forma a última vez que tive esta inexplicável sensação de não saber onde chegar foi há muitos anos, numa madrugada, a primeira madrugada de jornal. Eu tinha me iniciado nos hieróglifos e a mão do secretário da redação me conduziu ao subsolo do mundo, onde trovejavam máquinas e homens cinzentos domavam o chumbo das manchetes. Fui apresentado a eles como foca. Eles me olharam com o máximo de consideração que o rumor das rotativas permitia. E fizemos um pacto de amizade. 
Creio que hoje não existem mais focas, o que é pena. O foca respirava timidez e ansiedade, mas aprendia coisas caminhando com as próprias pernas. Foi assim, na qualidade de foca, que tentei captar as exigências capciosas e as precariedades inelutáveis deste oficio. Os leitores fazem uma idéia exagerada, e portanto errônea, dos escrevinhadores de jornal. Damos aos leitores a impressão de que tudo sabemos e tudo deslindamos. Opinamos sobre coisas, fatos, pessoas e adjacências. O que os leitores não sabem é que os escrevinhadores de jornal se perturbam às vezes até com um pequeno panarício na alma. O calejamento no ofício, esse vem exatamente do noviciado do foca. Por isso ser foca é sempre fundamental. 
Por que escrevo estas coisas neste dia sem assunto?
Por uma razão muito simples. Como foca, e convencido de o ser, é que consegui recolher dentro da mochila das experiências os cacos e bugigangas das esquinas e meios-fios da cidade. Essa mochila, ainda que esmolambada, é meu único lastro. Nada mais tenho além dela. Mas a cada dia, ao cavar mais um palmo de tumba, descubro pequenos diamantes, do besouro ao paralelepípedo. De tanto observar criaturas do subsolo, essa gente sem sinais particulares, acabei por inventar um código curioso, que muitas vezes é feito de silêncios. Alguns de meus melhores leitores são aqueles que me entendem quando não escrevo nenhuma palavra.
De todas as coisas que aprendi, ou ao menos de todas as coisas úteis que assimilei, nenhuma me ficou mais grudada que o valor da amizade. Não estou falando dessas amizades coruscantes como fogos de artifício. Refiro-me às amizades de tungstênio, que resistem aos atritos e embates. Como as rochas. Hoje, por exemplo, quando não tenho assunto nenhum, quero dizer quatro ou cinco palavras sobre a torrente de amizades que levou para o oceano do esquecimento os destroços e calhaus que vieram dar às minhas praias.
Tenho tantos nomes ! Se eu pudesse incensar cada um como merece, não haveria turíbulo para agüentar tão demorada operação. Creio, porém, não estar sendo indiscreto se revelar que minhas dívidas para com as amizades das horas incertas abrangem desde o nosso corajoso cardeal até o nosso porteiro deste jornal, um homenzarrão de quase dois metros de altura que mais de uma vez me levantou das cismas abissais com seu simples e forte aperto de mão. E tem mais : nosso melhor ascensorista me fez um acróstico. Recebi alguns beijos de mulheres bonitas. Velhinhas sensatas e assustadas rezaram terços e escreveram cartas, cujo teor não revelarei para não criar contratempos a elas. O valor que sempre dei a tais transbordamentos de carinho correspondia àquela primeira aula da primeira madrugada nas oficinas do jornal.
Numa tarde escura de céu borrascoso sem o Cruzeiro do Sul, esse rapaz me estendeu seus dois braços como âncoras. Seu nome : Leonardo Frankenthal. Até hoje não lhe mandei sequer um cartão de boas-festas. Mas em algum lugar de meu ser existe há muito um registro, um entalhe moral feito com o mais vigoroso fogo da emoção, e os filhos de meus filhos lhe oscularão a lembrança e a memória.
Por fim, o chinês anônimo. Nem lhe sei o nome. Lembro-me apenas de seus olhos, sua face tensa, sua palidez chinesamente delicada, ao me oferecer um lençol limpo para me cobrir menos o frio, e mais a decepção de não ter sido entendido. A esse chinês que desapareceu nas brumas do desconhecido, mas não de meu coração, deixo neste momento as palavras que certamente ele nem lerá : obrigado, amizade.
Obrigado, amizades.
Quanto ao mais, fazendo aquela engraçada vênia dos palhaços e dos malabaristas, tiro meu chapéu alvinegro com humildade e respeito, saúdo a distinta platéia, e aviso que o espetáculo continua enquanto houver lona, picadeiro e corda bamba.”

Naquele panorama político, a repercussão do caso Diaféria atingiu a imprensa em cheio. Imaginem como se sentia um jornalista, comprometido com sua profissão, ao escrever uma matéria que não falasse bem do governo… Ao publicar suas idéias, corria o risco de ser preso, ou pior. Publicaria, então?
O AI5, instituído em 1968, só terminou em 1979, quando os direitos constitucionais dos cidadãos foram “devolvidos”. Mas ainda levaria vários anos para que o Brasil se recuperasse e se tornasse um país democrático, onde os cidadãos são livres para externar as suas idéias e os jornalistas podem se expressar sem medo.
As manifestações da imprensa e de solidariedade ajudavam com que fosse mais tranqüilo acreditar na manutenção da integridade do jornalista durante sua prisão.
Mas, na mesma época, outros, muitos outros não tiveram a mesma sorte e desapareceram. Para muitos, entrar nos porões da ditadura foi uma viagem com passagem só de ida.

Diaféria fez várias crônicas, ao longo dos anos, exaltando a amizade entre ele e Frankenthal. Uma delas, por ocasião em  iria proferir uma palestra na faculdade de Direito de Bragança Paulista, juntou o evento a uma outra situação em que se dirigia a um Juri que iria acontecer a muitos quilômetros da capital, para o qual meu pai levou o Jornalista Percival de Souza, por quem tinha admiração e amizade. Esta crônica não posso deixar de fazer constar deste livro, como comentei com o próprio Percival, por quem, assim como meupai, tenho profunda admiração. Eis a crônica, escrita no Jornal Folha de São Paulo, em 11 de Março de 1976:

A DEFESA DO JÚRI, PAIXÃO DESTA NOITE
[Crônica publicada no jornal Folha de S. Paulo em 11 de março  de 1976]
Neste texto foi mantida a grafia original da época 
Lourenço Diaféria 

“Faz de conta que estou descendo a Rua Estados Unidos. Lá em baixo encontro o Frankenthal. Conheces o Frankenthal? O Leonardo Frankenthal é um leão de Juba. Quando o Leonardo Frankenthal sobe numa tribuna, até as lagartixas escancaram seus ouvidos para escutar. Tenho provas. Certa vez o Percival de Souza, consta, viajou cem quilômetros em cima de um burrico para assistir a um júri em que o Frankenthal ia defender um réu em estado desesperador.
Percival de Souza, o amável repórter, pela primeira vez em toda sua vida subia em cima de burrico. Chegou moído ao fórum, teve de ser carregado numa maca: assado, mal podia sentar. Uma velhinha caridosa da cidade passou-lhe hipoglós nas virilhas.
Começou a sessão. Na primeira fila, boquiaberto, Percival de Souza acompanhava a luta de foice entre o promotor sagaz e  raposo e o raposo e sagaz advogado. Voavam penas por todos os lados. Uma estudante de direito desmaiou de emoção. Teve de cheirar alho e éter  trazidos às pressas pelo boticário. O dono da agencia de carros usados encerrou o expediente mais cedo e baixou as portas para não perder aquele duelo feito de suor, citações de tratadistas, rapidez mental.
O réu não sabia se aplaudia ou se chorava.
O Juiz passava o lenço no pescoço, enxugando as bagas de suor. Os jurados tremiam. Tremiam e fremiam. Foi uma batalha campal, homérica, cujo fragor abalou os telhados carcomidos das vetustas casas. Acusação e defesa se mediam e se golpeavam com maestria, malhando forte da cabeça aos pés. Réplica e tréplica, a noite chega e vai, a madrugada desponta, os galos principiam a cantar.
Quando o pálido sol começa a verdejar as árvores da praça principal – aquela onde tem o coreto – o réu recolhe enfim sua absolvição, e ameaça um sorriso. O lastimável estado de prostração do advogado e do promotor, o rosto insone do juiz, a palidez dos jurados, eram a própria face da Justiça, soberana e tensa.
Percival de Souza ergue-se. A assadura havia sarado, como por encanto. E ele se dispõe a voltar no lombo do burrico, o que de fato teria feito – não alcançasse a graça de uma carona.
É apenas um episódio, talvez nem sequer verídico. Mas o Frankenthal é, sem dúvida, um incansável defensor do Jurí.
É o que ele vai mostrar hoje á noite na Faculdade de Direito de Bragança Paulista, para mais de mil pessoas – futuros juízes, promotores e advogados. A conferencia do Frankenthal será uma profissão de fé, que ele faz com humildade e fogo sagrado crepitando no coração.
Entusiasmado, me entrega um bilhete, escrito apressadamente :
“O tema – O júri, o Réu e a Sociedade – há de me permitir expor, sustentar e provar que o ser humano merece respeito, tem direito à dignidade pessoal, e que, por eventualmente transgredir a lei dos homens, não pode ser tratado como fera selvagem, achincalhado, humilhado, aviltado, pisoteado, massacrado moral e fisicamente, como se isso recuperasse alguém; como se o ódio e a vingança fossem os remédios adequados à sua reintegração social; e como se sua família, esposa, filhos, também devessem pagar o preço enorme que nos rebaixa a todos. Quem sabe com um pouco mais de amor, um pouco menos de ódio, uma criança ao menos pudesse esboçar um sorriso, ao contrário de amargar na alma e no coração avassalador de uma revolta impotente, o sofrimento sem conta de um pai reduzido á condição de trapo, de verme? Quando a pena é injusta – e injusta é toda pena que não reeduca, qua não ensina, que só quer vingança, a sociedade estremece e recua, recua até chegar á idade das trevas.
E querem acabar com o Juri, como se no peito, ao invés do coração, tivéssemos um código penal, papel e tinta sim, alma nunca? Perdoe-me a prolixidade. Vou poder tentar mostrar agora aos futuros juízes, promotores e advogados a enormidade do que tudo isso significa.”
– Você não acha?
Coço a cabeça. Minha experiência de júri é infinitamente pequena. Apenas uma vez fui convocado – acho uma missão terrível, essa de julgar. Mas Frankenthal terá muito a dizer aos rapazes de Bragança Paulista, porque nele se aliam a experiência do cérebro e as emoções do coração. Nenhum homem que lida com essa matéria volátil chamada Justiça será realmente grande se não souber manusear as duas coisas.
Despeço-me do Frankenthal e lhe desejo boa sorte.
Começa a cair um toró.
Mas desconfio que hoje irá fazer uma bela noite em Bragança Paulista.”

Assim, a estes que hoje pedem a intervenção militar, é preciso ter cuidado com o que desejam…

Lilia Frankenthal

lilia2Apaixonada pelo direito, com 25 anos de experiência assessorando meu pai, o criminalista Leonardo Frankenthal, eu, Lilia Frankenthal abordarei temas jurídicos como compliance, antissemitismo, direito do consumidor e direito penal.

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