Na passagem do livro Vaikrá para o livro Bamidbar se percebe a diferença de conteúdo. Em Vaikrá o tema central esteve em pureza e santidade. Vimos sobre a ordenação dos cohanim, dos sacrifícios, morte de Nadav e Avihu, os rituais de expiação, a impureza e sua purificação, quais os alimentos permitidos comer e como devem ser os relacionamentos íntimos e sociais. Um livro majoritariamente teórico e para muitos cansativo. Em Sefer Bamidbar nos encontramos como todos os problemas enfrentados por Am Israel no deserto em caminho à Terra Prometida.

A primeira vez que li Sefer Bamidbar com consciência, pois há fazes em nossas vidas nas quais fazemos uma leitura mecânica de muitos textos, não apenas os sagrados, fiquei com um sentimento ruim e certa raiva da geração do deserto. Depois de me maravilhar com saída do Egito me decepcionei com os erros e a falta de confiança em Hashem que aquela geração demonstrou durante aqueles quarenta anos. Na verdade eu não entendia a razão e nem o propósito.

Um jovem que está nos últimos anos da escola tem a convicção de que ao terminar seus estudos terá alcançado seu objetivo e que já estará pronto para seguir sua vida adulta. O mesmo acontece com um aluno universitário que crê que ao terminar seu curso todos o receberão com um escritório pronto e uma placa com seu nome e função na porta.

Durante toda nossa vida encontramos um mar de dificuldades. Uma bola de neve que quanto mais rola mais cresce, assim parecem ser nossos problemas. Alguém já me perguntou porque a vida não pode ser tranquila sem dificuldades. Ora, quem seríamos sem nossos problemas?

Se olhamos para trás com uma perspectiva mais positiva vemos que até este exato momento fomos capazes de superar todos os nossos problemas. Não quero dizer que não ficam marcas. Com exceção dos heróis de Hollywood, todo combatente, ainda que vitorioso, regressa ferido. Devemos ser maduros espiritual e intelectualmente para entender que de todas as dificuldades superadas adquirimos experiência e conhecimento para que possamos enfrentar e superar os próximos problemas. Este é o sentido de “Hakol letová”.

A Torá é o manual de nossas vidas e por isso todas as histórias e até mesmo sua entrega foi no ambiente hostil do deserto; como diz Maharal de Praga: “o fato da Torá ser entregue no deserto não é coincidência”[1]. Nossa vida nos apresenta sempre momentos de hostilidade e não há lugar mais hostil do que um deserto.

Podemos encarar as adversidades da vida de duas maneiras: a primeira como dificuldades, castigos, carmas, desgraça etc. A segunda forma é encarar como desafios. Ao vencermos somos beneficiados com o conhecimento e com a experiência. Acumulamos ferramentas para os próximos desafios nesta gincana da vida. Assim foi para a geração do deserto. O recebimento da Torá não os aperfeiçoou. Pois se engana quem crê que estudar a Torá aperfeiçoa o homem. É a prática do que tem estudado que o aperfeiçoa pois esta é a prova de que há entendido e há introduzido em sua alma os verdadeiros valores da Torá.

Agora que adquirimos o conhecimento da verdade (a Torá) vamos cruzar o deserto para por em prática o que aprendemos. Dessa forma, as dificuldades relatadas em Bamidbar e as apresentadas em nossas vidas são os meios pelos quais nos aperfeiçoamos colocando em prática as mitzvot e a emuná (fé) em Hashem. Repetindo o que disse Rabi Akiva: “tudo o que faz o Bendito Seja, tudo é para o bem”[2]. MAS ATENÇÃO! Rabi Akiva não disse que tudo o que faz Hashem é bom! Pois não é bom perder um emprego, ter o relacionamento fragilizado, perder alguém que ama ou padecer de uma enfermidade. Tudo isso é mal e muito mal. Mas tudo é para o nosso bem e o bem dos demais. A situação é difícil, mas se somos capazes de crer em Hashem e confiar nele de que essa situação nos trará uma elevação espiritual a nós mesmos e aos que estão ao nosso redor, trazemos a revelação de Hashem a este mundo assim como no Sinai. Como explica Maharal: “e para quê foi entregue a Torá, a qual é o conhecimento [espiritual] perfeito, no deserto? Que no deserto há a ausência das coisas materiais, e por isso o lugar perfeito para entregar a Torá”[3]. Mas por que deveria ser no deserto com a ausência de matéria? Pois é na ausência de rios, mares, árvores e tudo o que represente a abundância e a satisfação é que se pode revelar neste mundo a shechiná[4].

Portanto que comecemos a ser mais confiantes em Hashem e entregar nossas certezas a Ele. Isso não quer dizer que ao crer que “hacol min hashamaim” (tudo vem dos céus) devamos estar de braços cruzados esperando o resultado natural das coisas sem nossa interferência. Pelo contrário! Tudo vem dos céus, mas vem para que reajamos e busquemos superar. Mitzvá e Emuná apliquemos aqui como ação e conhecimento. Agimos para superar as dificuldades e utilizamos e engrandecemos nosso conhecimento de Hashem e de sua providência.

 

Shabat Shalom!

[1] Maharal de Praga, Tiféret Israel cap.26

[2] Talmud, Berachot 60b

[3] Maharal de Praga, Tiferet Israel cap.26

[4] Maharal de Praga, Neiv Irat Hashem cap.3

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