cachorroebebe

Essa semana encontrei minha vizinha de rua. É mais uma que mora aqui há anos e só nos conhecemos agora por causa dos cães. Ela é mãe do Rafael, um menino muito fofo que ama animais, e sempre que encontrava o Bud na rua dava uns abraços gostosos nele. Aí sua mãe resolveu realizar seu sonho e ele ganhou a Bolinha, uma simpática vira lata preta que foi resgatada para ser a melhor amiga do Rafa.
Enfim, nos encontramos e ela me contou que estavam no parque. A uma certa altura o Rafa, no auge dos seus quase 8 anos, fechou a cara e disse que a Bolinha havia “atacado” ele no meio de uma brincadeira.
Bem, essa foi a história contada do ponto de vista da dona. Agora vamos apertar a tecla sap e ver pelo lado da Bolinha. Ela estava lá brincando com o Rafa, como sempre fazem, mas a Bolinha já é uma adolescente, e percebe que o Rafa ainda é uma criança, então ela acha que já tem idade suficiente para disputar o lugar do Rafa na hierarquia. Tudo ia indo muito bem até o Rafa pegar um galho, e foi nesse instante que a Bolinha encontrou a chance de mostrar pro Rafa que ela já é grande, e ele uma criança, e arrancou o galho dele. Ela não queria machucá-lo, foi uma mordida acidental. O Rafa largou o galho, saiu engolindo o choro e a Bolinha ganhou o primeiro round. Enquanto a Bolinha saboreava a vitória – nada mais justo no mundo canino – o Rafa contava pra mãe o ocorrido.
Nesse momento ela cometeu um dos erros mais comuns entre os donos de cães: Chamou a Bolinha para dar bronca.
A Bolinha veio toda contente, feliz por ter conseguido vencer a disputa, e recebeu a maior bronca. Enfim, caso resolvido, garoto e cadela voltaram a brincar e, na hora de ir embora, quem disse que a Bolinha vinha quando era chamada? A dona chamava, chamava, chamava, e ela não vinha.
Muita gente que está lendo isso deve estar virando a cabeça, olhando pro nada e pensando que já viveu algo semelhante. Não exatamente igual, mas pelo menos a parte de chamar o cachorro e ele não vir. Vamos entender por que a Bolinha não veio dessa vez?

Nunca, mas nunca mesmo, devemos chamar o cão para brigar com ele. Nós que temos que ir até ele para dar a tal bronca. Não gosto de comparar situações e reações entre humanos e cães, mas só para entender melhor. Se o seu filho apronta alguma, quebra seu vaso preferido ou joga bexiguinha de água pela janela, você o chama e ele vem? Bem, se ele vier ele é mais bonzinho do que você imagina, pois normalmente ele iria se esconder no armário ou se trancar no banheiro, até achar que sua raiva já diminuiu.
Na verdade não devemos chamar o cachorro para nada que seja negativo, ou nada que ele não goste. Por exemplo, se cada vez que ele estiver brincando no parque você o chama para ir embora, ele vai começar a não responder mais o seu chamado, simplesmente porque ele não quer ir embora. Uma boa opção é chamá-lo de vez em quando, fazer um carinho ou dar um petisco, e liberá-lo para brincar de novo. Quando for para ir embora vá até o cachorro e coloque a coleira. Outra opção é chamar o cachorro, fazer festa e, em seguida, levá-lo embora. Pura enganação, eu sei, mas pelo menos ele veio e ninguém ficou triste, nem deu aquela canseira, pois ele associou o seu chamado com o carinho que veio assim que ele chegou.
Outro erro é pensar que o cachorro passa por tudo numa boa. Sim, ele tem um grande poder de adaptação. Dificilmente ele não vai se acostumar com uma situação nova numa casa nova, mas de vez em quando acontece.
Há muitos anos eu queria um cachorro de qualquer maneira. O Silvio, na época meu melhor amigo, também adora cães, mas não tinha como levar para o apartamento dele. Decidimos que cada um de nós compraria uma cadela, elas ficariam na empresa dele, e eu cuidaria. Quando compramos eu me apaixonei pela Bya, uma Boxer muito fofa e delicada com o focinho branco, e ele se apaixonou pela Ally, mais independente e agitada. Essa era nossa proposta, mas elas inverteram tudo. A Ally me escolheu, e a Bya escolheu o Silvio. A Ally era a líder, e a Bya obedecia e respeitava.
Um dia tive uma briga séria com o Silvio e decidi deixar as cadelas com ele, pois elas teriam companhia o dia inteiro. Além disso, é muito ruim para os cães quando eles estão acostumados um com o outro e se separam.
Passaram-se quase 2 anos e, apesar de sentir muita falta das cadelas, nunca mais fui vê-las. Quando você abre mão de um animal, não deve mais visitá-lo, pois confunde a cabeça deles. Eles nunca sabem se vão embora com você ou se ficarão na casa nova, e precisam criar laços com a nova família, o que dificilmente acontece se você mantiver contato. Bem, esse tempo todo passou e um dia o Silvio me liga para dizer que a Ally não estava bem. Por uma dessas ironias do destino – ou coincidência se você preferir – eu estava justamente com o veterinário. Fomos correndo para lá e a Ally estava pele e osso, largada, eu cheguei a pensar que ela estivesse morta. Minha primeira reação foi perguntar por que esperar tanto tempo para me ligar. Ele devia ter me ligado assim que viu que a Ally havia parado de comer. Lição para quem tem cachorros em sociedade e acontece isso. Não espere o cachorro ficar tão mal.
Bem, colocamos a Ally no carro e ela foi o caminho inteiro com a cabeça nas minhas pernas, nem conseguia levantar a cabeça, mas ela olhava para mim e suspirava profundamente. Não dá para medir o tamanho do amor dela por mim. Aliás, o amor de um cachorro é realmente incomensurável.
Chegamos na clínica e a primeira coisa que o veterinário fez foi um coquetel de vitaminas e alguns exames. Por incrível que pareça, ela estava ótima clinicamente, só exageradamente magra. O que havia acontecido na realidade é que a Ally tinha entrado em depressão profunda. Ela era tão ligada em mim que sem a minha presença ela não via motivos para viver.
Bem, ela melhorou logo, pois eu passava o dia inteiro na clínica com ela. Levei-a de volta pro Silvio alguns dias depois e ia todos os dias dar comida para ela. Ela voltou a crescer até chegar na sua forma física perfeita, e eu nunca mais deixei nem vou deixar um cachorro assim. Foi uma lição dura.

http://portaljudaico.com.br/vendoo/uploads/2017/05/cachorroebebe.jpghttp://portaljudaico.com.br/vendoo/uploads/2017/05/cachorroebebe-150x150.jpgSheila NiskiEXPERTSVIDA DE CÃOEssa semana encontrei minha vizinha de rua. É mais uma que mora aqui há anos e só nos conhecemos agora por causa dos cães. Ela é mãe do Rafael, um menino muito fofo que ama animais, e sempre que encontrava o Bud na rua dava uns abraços gostosos nele....Comunidade Judaica Paulistana