JUSTOS-CAPA- KHALEB ABDUL-WAHAB

Esse é um caso excepcional. Insere-se no conceito de Justos entre as Nações mas não se completa em Israel, e sim, em um estado árabe.

Khaled Abdul-Wahab, um árabe muçulmano salvou famílias judaicas da perseguição nazista na Tunísia durante o Holocausto. Tem sido chamado de “Schindler árabe”.

O Yad Vashem conferiu a honra de Justos entre as Nações a 60 muçulmanos como ele, incluindo turcos, tártaros e bósnios.

Nomeado para ser indicado como Justo entre as Nações, após muitas investigações, o Yad Vashem (Museu do Holocausto) não aprovou a indicação por não ter encontrado provas suficientes de que Abdul-Wahab tivesse passado por risco de vida, uma das exigências da entidade para quem é qualificado ao título.

Esperando que a indicação acabe sendo aprovada um dia, tomei a iniciativa de contar a história dele e incluí-lo na capa (com restrições) por considerar que a atitude heroica e humanitária de Khaled merece reconhecimento mesmo que não atinja, por outros motivos que não os humanitários, as regras rígidas do Yad Vashem.

Abdul-Wahab, filho de uma rica família aristocrática viajava na sua juventude frequentemente para o estrangeiro principalmente para a França e estudou arte e arquitetura em Nova York, EUA.

Quando as tropas alemãs ocuparam a Tunísia em 1942, habitavam lá aproximadamente 100.000 judeus.

Sob as políticas antissemitas nazistas eles foram forçados a usar crachás amarelos com a estrela de David, foram sujeitos a multas e tiverem seus bens confiscados.

Mais de 50.000 foram enviados a campos de concentração.

Khaled_Abdul_Wahab1-TRABALHO ESCRAVOAbdul-Wahab ficou sabendo que alguns oficiais alemães planejavam estuprar, na cidade costeira de Mahdia, uma judia local que ele percebeu ser Odette Boukhris, a esposa de um conhecido.

Ele convidou os oficiais para sua casa e serviu vinho até que todos estivessem completamente embriagados.

Em seguida levou de carro a famíla Boukhris para sua fábrica de óleo onde ficaram refugiados. Logo após foi buscar também seus vizinhos, a família Ouzzan, e levou as duas famílias para a fazenda de sua propriedade.

Manteve-os lá por quatro meses, atribuindo uma pequena sala para cada membro da família. Apesar da proximidade da fazenda de Khaled a um acampamento da Cruz Vermelha onde os soldados alemães feridos eram cuidados, nenhum dos empregados da fazenda que sabiam da presença dos judeus ocultos, revelou o fato.

Permaneceram até o fim da ocupação nazista e, em abril de 1943, com a chegada dos britânicos em Mahdia, todas as famílias voltaram para suas casas.

Em dezembro de 1942, Khaled ajudou a salvar uma família judia de quase duas dezenas de pessoas. Uma das pessoas foi Eva Weisl com 13 anos de idade na época.

Todos os homens em condições físicas da família de Weisl foram enviados pelos alemães para o trabalho forçado.

Khaled  reunião todas as mulheres, crianças e velhos e os transportou para o refúgio de sua fazenda.

A família foi hospedada por Khaled nos estábulos de sua fazenda. Logo após uma unidade alemã chegou na área. Khaled instruiu a família a esconder seus crachás amarelos, ficar no pátio como se fossem empregados da fazenda e manter-se longe da casa principal.

A fim de manter a família escondida, e evitar desconfianças, ele convidou a unidade alemã para jantar em sua casa. À noite, dois soldados alemães bêbados percorreram o pátio. Eles começaram a bater em uma porta do pátio, dizendo: “Nós sabemos que você é judeu e nós estamos indo buscá-lo!”

A família ao ouvir as ameaças escondeu todas as meninas. Khaled chegou lá e conseguiu convencer os alemães a deixar o local. No dia seguinte ele pediu desculpas à família pelas ameaças dos soldados alemães e prometeu-lhes que tal incidente nunca mais iria acontecer. Eva e sua família passaram o resto da ocupação alemã em sua fazenda.

Robert Satloff um escritor norte-americano que estava procurando registros de árabes que salvaram judeus do Holocausto, foi informado pela primeira vez a respeito de Abdul-Wahab pela filha de Odette Boukhris, Annie Boukhris, que também tinha sido escondida por Abdul-Wahab aos 11 anos.

Pouco depois de gravar seu depoimento, ela morreu aos 71 anos. Satloff então foi para Mahdia e confirmou a história.

Khaled_Abdul_Wahab-discursoA questão de nomeação de Justo entre as Nações

O caso de Abdul-Wahab foi estudado pelo Departamento “Justo entre as Nações” do Yad Vashem, mas após investigações foi recusado com base em que pelas regras da entidade, para proclamar uma pessoa Justa entre as Nações ela teria que ter tido sua vida ameaçada, o que não foi possível confirmar.

Entristecida, sua filha Faiza Abdul-Wahab comentou: “Meu pai abriu sua casa para judeus e o Yad Vashem não abriu sua casa para nós”.

De acordo com Irena Steinfeldt, chefe do Departamento de Justos entre as Nações, o Yad Vashem reconhece que Khaled realizou atos nobres e generosos em fornecer refúgio a famílias judaicas escondendo-os, mas seus atos não tinham subido ao nível de “Justo”. Isto é, ela argumentou, já que não haviam encontrado prova de que sua vida Khaled_Abdul_Wahab-medalhaesteve em risco ao salvar vidas judaicas como exigido pelas regras rígidas do Yad Vashem.

Com o eventual surgimento de novas evidências é possível que a decisão seja revertida. Espero que sim.

Jardim dos Justos árabe.

Mas para surpresa de muitos, também já existe um Jardim dos Justos árabe, e Abdu-Wahad é justamente homenageado nele.

O primeiro Jardim dos Justos em um país árabe foi inaugurado há menos de 1 ano em 15 de julho de 2016 na embaixada da Itália em Túnis, Tunísia.

Criado com a colaboração do Ministério das Relações Exteriores o Jardim abriga as árvores e placas memoriais dedicadas a cinco árabes e muçulmanos reconhecidos como Justos do passado e dos tempos atuais que lutaram contra a perseguição, o terrorismo, e na defesa dos direitos humanos.

São eles, Hamadi Abdesslem, Mohamed Bouazizi, Khaled Abdul-Wahab, Khaled al-Asaad e Faraaz Hussein.

Os critérios para essa homenagem não se fixam exclusivamente no salvamento de judeus, é mais abrangente, mas no caso de Khaled Abdul-Wahab é especificamente por esse motivo.

 

 

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