“Nossos filhos realmente têm super-poderes.
Cada vez que a gente precisa deles para alguma tarefa, eles desaparecem”
C. Benny

Recentemente li numa revista para adolescentes a seguinte pergunta:

d16340c947afec4e326b45cc7bfdb8e3P: Tenho 15 anos e sempre imaginei meus pais como pessoas corajosas, fortes e sem medo. Agora que os negócios andam mal, vejo como eles são medrosos e frágeis. Eles passaram a brigar muito entre si. Me sinto insegura e preocupada com minha família. Já nem sei como me relacionar com eles porque eles nem se parecem com os pais que eles eram.

Parei um pouco para pensar. Que coisa incrível: nós pais fazemos um tremendo esforço para mostrar a nossos filhos que somos fortes, cultos, esportistas, vitoriosos, vencedores, capazes, generosos, corretos, sérios, competentes, motivados, dedicados, lúcidos, honestos, cuidadosos. Parei em 15 adjetivos, mas não seria difícil achar mais quinze!

Pois é, fazemos este tremendo esforço para nos mostrar como acima descrito, ou seja, sem perceber o pai projeta a imagem do Super-Homem enquanto a mãe é a Mulher-Maravilha. Funciona muito bem com filhos pequenos. Mas as crianças crescem e aprendem a observar. E passam a nos ver como somos e não como queremos parecer…

Infelizmente a vida nos coloca perante situações que fazem desmoronar a imagem de Super-Homem ou de Mulher Maravilha. E aí nossos filhos nos vêem por um ângulo que sempre escondemos – e ficam sem coragem para nos perguntar o que aconteceu. E, tal como a menina acima, escrevem para um jornal buscando a resposta em alguém que não a conhece e que não conseguirá saber jamais quem são seus pais…

Precisamos nos aceitar como seres humanos. Pai e Mãe são gente, não são super-heróis. Temos sentimentos – alguns altruístas e elogiáveis; alguns mesquinhos. Não usamos cuecas (ou calcinhas) por cima da roupa. Nós temos um monte de atributos bons e outros nem tanto. Somos gente, nos alegramos com a vitória do nosso time, choramos ao assistir um filme, nos magoamos quando traídos e nos rejubilamos com o sucesso nosso e de quem nós amamos. Se conseguirmos aceitar isto, podemos melhorar o que temos de mesquinhos e nos aperfeiçoarmos. Se – por outro lado –nos vemos como “mais que gente”, perdemos a grande chance de buscar as imperfeições e trabalhar para diminuir e quiçá eliminá-las.

Mas há mais uma questão, absolutamente fundamental. Se nós não nos colocamos como gente, é aceitável que nossos filhos não nos vejam como pessoas. Passamos a ser para eles o super herói que pode tudo, pode suprir tudo sem nada em troca e nada o afeta. Quando o bandido atira no Super-Homem, a bala não penetra. Nossos filhos acham que quando nos ofendem, não restarão mágoas… afinal, não penetra (não é mesmo?). Se não somos gente, então que mal há em sermos só o “banco” deles? Ou em ser o capacho a ser pisado? Afinal capacho não é gente, não tem sentimentos…

A Mãe Mulher-Maravilha deveria ser obrigada a decorar um pensamento de Rajneesh (Osho): “No momento que nasce um bebê, nasce também uma mãe. Ela nunca existiu antes. A mulher existia, mas jamais a mãe. A mãe é algo totalmente novo”.

O nascimento de filhos nos torna pais – não nos torna super-homens nem criaturas infalíveis. Nos dá novas atribuições educacionais, novos objetivos financeiros, novas responsabilidades mas não nos dá mais saber!” Enfim, não nos torna Super-Homem nem Mulher-Maravilha. As imperfeições que já tínhamos seguem lá. Claro, com o tempo algumas serão melhoradas – mas outras aparecerão. Vamos ver exemplos? Provavelmente melhoraremos aprendendo a poupar, a nos preocupar com o amanhã, ao tentar decifrar o que quer o bebê. Melhoraremos com os cuidados, com o amor gratuito. Buscamos aprender o que não sabemos sobre a criança. Mas há fatores que podem piorar – irritação e ansiedade são bons exemplos.

E por quê? Porque pais também são gente. Não somos deuses, não somos imortais, não sabemos tudo. E nossos filhos crescerão expondo-nos a uma série de situações que não estávamos preparados. Em algumas famílias ocorrerá separação, noutras pode ocorrer uma doença grave. Em algumas um filho pode se desviar transformando-se em usuário de drogas e em outras um filho pode abandonar a casa materna. Nosso intelecto sabe disto, mas não nos prepara. Nossa crença de casamento do Super-Homem com a Mulher-Maravilha nos engana, nos faz pensar que saberemos como agir quando isto acontecer. E pode ser que o problema não seja com nosso filho e sim conosco – uma perda de emprego, uma transferência de país, um negócio mal-feito (lembra da carta no começo deste texto?).

Quando nos vemos como super-heróis, quaisquer deslizes levarão a pesadas culpas, tristeza e desapontamento. Por outro lado, ao nos aceitarmos como gente fica mais fácil aceitar estes sentimentos e buscar ajuda para mudar. Super-Heróis só ajudam os demais, gente de carne e osso pode aceitar ajuda! Quem é gente pode (e deve) cuidar também de seu próprio bem estar, sem culpa, sem vergonha e sem temer ser julgado.

Infelizmente às vezes um de nossos filhos usa drogas ou abusa de álcool, e aí ele se sente o centro do universo. Ele acha que tem de ser cuidado, amado, perdoado, aceito, financiado e protegido. E ele exige que nós, PAIS, sejamos os super heróis a dar-lhe tudo isto.

Neste caso, recomento buscar ajuda. Há, em todo o Brasil, grupos de Amor-Exigente que estão aptos a ajudar gratuita e sigilosamente. Em São Paulo, um deles está na Sinagoga Mizrachi, na R. Gabriel dos Santos.
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Ao pararmos de nos ver como o casamento da Mulher-Maravilha com o Super-Homem, saberemos dar um basta – e cuidar de nós mesmos. Saberemos impor limites e cobrar comportamento adequado à idade do jovem. Ou então, temos de aceitar a premissa do sub-título: não nos atrever a ter filhos.

Não adianta tentar: não conseguiremos ser pais perfeitos. Erraremos (talvez muito) e quase sempre sem querer. E isto por uma razão bem simples: pais também são gente! Depois deste artigo, bye bye super-heróis…

Até a próxima!

http://portaljudaico.com.br/vendoo/uploads/2016/07/super.jpghttp://portaljudaico.com.br/vendoo/uploads/2016/07/super-150x150.jpgMarcos SusskindCRÔNICASCRÔNICAS DO COTIDIANOCrônicas do Cotidiano“Nossos filhos realmente têm super-poderes. Cada vez que a gente precisa deles para alguma tarefa, eles desaparecem” C. Benny Recentemente li numa revista para adolescentes a seguinte pergunta: P: Tenho 15 anos e sempre imaginei meus pais como pessoas corajosas, fortes e sem medo. Agora que os negócios andam mal, vejo como eles...Comunidade Judaica Paulistana