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Queremos todos uma vida sem complicações, sem problemas. Sermos gigantes pela própria natureza, belos, fortes, impávidos colossos, vivendo com toda a nossa família e amigos em volta, em um eterno banquete e com o direito a todos os prazeres do mundo. Isso sim, é vida!

Talvez não cheguemos nem perto desse paraíso, mas com certeza não vivemos naquele brejo ou deserto, sem um banheiro com ducha, dividindo a comida com os vermes, onde a água que bebemos fede, onde nossas crianças sobrevivem com barrigas d’água sustentadas por pernas raquíticas, onde não somos e podemos nada. Pelo amor de D’us, aquilo não é vida!

Por que D’us permitiria uma existência dessas? Sem medo de ser politicamente incorreta, visto que duvido que uma daquelas pessoas no deserto um dia lerão esse texto, posso afirmar que muitos de nós prefeririam morrer a viverem naquele mundo.

E no entanto, os grandes heróis são aqueles que superaram desafios inimagináveis. O que seria do herói sem a situação desesperadora? Para a alma ambiciosa, o problema não é castigo e sim, a grande oportunidade que o transformará em herói. Quem se torna herói sem uma grande causa?

Quando fugimos dos problemas, passamos a não querer a grandeza. Nos contentamos com a perseguição do bem-estar. Mas e se a vida fosse um parque de diversões? Onde não importa o que fizéssemos não haveriam consequências e todos os dias fossem fáceis e indolentes? Existem vidas assim? Certamente! Diríamos que são os sortudos a quem nenhum empecilho acontece. Como Buda antes de encontrar o velho pobre e doente. Que delícia uma vida dessas, não? É o que todos queremos para nós e nossos filhos! Mas será isso a Felicidade?

Existe uma pequena mishná que fala de uma cidade onde todos prosperaram. Que paraíso! Todos tinham recursos, ninguém precisava de ninguém. Como todos eram autossuficientes, seus cidadãos foram desaprendendo a ajudar o próximo, pois ninguém precisava de auxílio. Aos poucos, as pessoas foram ficando cegas aos outros, afinal não precisavam mais se preocupar uns com os outros. Suas mentes começaram a se concentrar unicamente nos seus próprios interesses, perderam a capacidade de empatia. O egoísmo começou a ser a norma e a violência irrompeu. Não mais se reconhecendo, vão ao sábio da cidade perguntar o que fazer e ele responde: contratem um pobre para poderem dar-lhe esmolas.

Buscar unicamente uma vida sem problemas e desejar um mundo onde ninguém precise da ajuda do outro é uma utopia de muitos. De acordo com essa mishná, pode ser a nossa destruição. Certamente é o fim da alma heróica. Não haveria necessidade de coragem, de determinação, de abnegação.  Talvez por isso D’us fez um mundo desequilibrado, onde precisamos um do outro, onde há problemas que nos provocam a desenvolver a empatia, para que aprendamos a ajudar e sermos ajudados, a amar e sermos amados, a dar e receber.

Os gigantes são pessoas que conseguiram encontrar tesouros nas maiores adversidades. Tiveram humor no sofrimento, descobriram a liberdade na prisão, o amor no ódio, a luz nas trevas. Aquele momento mágico de se tornar um gigante parece que só é possível depois de muitas quedas, como se a estatura do gigante dependesse do tamanho da vala onde ele caísse e de onde conseguisse sair. Desse molde fumegante saíram todos os heróis e homens santos. Dali brotaram todas as conquistas da humanidade.

Estar no papel do salvador, do doador é ótimo. Mas para isso, é preciso também ter alguém que precise, que esteja necessitado. Um não pode dar sem ter outro recebendo. Não podemos ser magnânimos se alguém não nos prejudicou e precisa do nosso perdão. A verdade é que ambos têm igual importância nessa dinâmica e deveriam estar igualmente agradecidos pelo papel de cada um e a oportunidade que oferecem um ao outro.

Assim também é a vida. Ela atrapalha nossos planos, brinca com nossos desejos, arranca nossas posses mais queridas. É nesse desequilíbrio que encontramos a oportunidade de crescer.

Por isso, se você tem problemas, não se martirize. Saborei-os. Não por masoquismo, mas por puro instinto de sobrevivência. A autossuficiência é autofágica, o equilíbrio garantido é a morte lenta e certa. Abrace o problema para sacar-lhe todo o seu potencial de crescimento. Se desafie. Como David, procure um Golias e uma causa nobre. É a sua oportunidade de se tornar um herói, de ser belo, forte, impávido colosso por mérito, e de fazer a vida valer realmente a pena.

 

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