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Ontem morreram Oscar Niemeyer e meu amigo Chris Rodrigues. Curioso que eles passaram pelo dia 02 de novembro, dia de finados, um dia que reforça em mim a necessidade de pensar sobre a morte. Pode parecer estranho, mas eu não fico triste quando penso na morte, ou na minha morte. Por outro lado, percebo o quanto seria desconfortável a idéia de que as pessoas poderiam não morrer, de que poderiam ser eternas.

Que graça teria a vida se nós não morrêssemos? A ânsia de viver, de gozar a vida parece só ter sentido porque sabemos que vamos morrer. Sei que esta é uma filosofia meio esquisita, contudo, não esqueçamos que, no fundo, a filosofia é apenas uma sofisticação do senso comum.

Me desculpem, mas não precisamos de profundidade alguma para fazer essa reflexão desconcertante. A morte é sim, desesperadora. É o fim das leituras, das viagens, do amor, do sexo, da música, de tudo. Todavia, por mais que isso pareça absurdo, é ótimo que haja morte e nós temos de assumir nossa mortalidade. Quanto mais assumirmos isso, mais poderemos degustar a vida.

Alguém aqui conhece a história de Aquiles, o herói grego que participou da Guerra de Troia, o personagem principal e maior guerreiro da Ilíada de Homero? Talvez seja necessário lembrar que Aquiles era invulnerável em todo o seu corpo, exceto em seu calcanhar; ainda segundo estas versões de seu mito, sua morte teria sido causada por uma flecha envenenada que o teria atingido exatamente nesta parte de seu corpo. A expressão “calcanhar de Aquiles”, que indica a principal fraqueza de alguém, teria aí a sua origem: os deuses, se é que existem é que devem invejar os mortais, pois é a nossa condição de mortais que permite sentir a importância de cada momento.

Mas talvez haja vida após a morte, quem pode afirmar que sim ou que não, se não se conhece o lado de lá. Contudo, se me fosse dada a oportunidade, na hipótese de haver vida após a morte, eu gostaria de dizer que renuncio à eternidade. Eu devolveria o bilhete. A eternidade me cansa. Seria um tédio insuportável viver para sempre. Só a idéia já me cansa. E eu quero ter um corpo, e parece difícil a idéia de que meu corpo também sobreviverá. Ele ficará imperecível, insuscetível à ação do tempo? Se eu não quero aqui a eternidade, lá eu também não quero. Porque se eu não a desejo aqui, não vejo razões para mudar de idéia lá. compreemdem o que eu digo?

Se eu fosse um outro eu, talvez a quisesse, mas aí já não seria mais eu, e não sendo mais eu, não saberia como esse outro eu agiria, como ele sentiria as coisas. Se houvesse vida após a morte, eu seria condenado à eternidade? Ao que parece sim, embora isso não seja necessário. Mas se fosse eterno, isto é, se minha vida pós-morte implicasse uma duração infinita no tempo, eu mais perderia do ganharia. Ora, eu não escolho nascer, mas posso escolher me matar. Se fosse eterno não teria essa liberdade.

A morte é a inspiração para quase tudo na vida. Filosofia, Arte, Ciência, Religião e outras manifestações humanas são, ao que me parece, uma forma de protesto contra finitude da vida, contudo, por mais desconcertante que nos seja refletir sobre o lado bom da morte, creio que o devemos fazer com o mesmo empenho que dedicamos à reflexão sobre a vida.

Quando o ser humano imagina seres eternos em suas lendas e mitos, no geral, são sofredores enormemente potencializados por esta fatal condenação. em tempos da SAGA CREPÚSCULO, seres condenados à vida eterna, dotados de grande conhecimento, porém, por isso mesmo angustiados e infelizes. Por que será que sempre pensamos nesses seres como demônios e poucas às vezes como um condenado infeliz, desgraçado ao sofrimento de viver eternamente? Frankenstein foi outro exemplo estranho de alguém que foi trazido à vida sem o seu consentimento onde muitas misérias e dores terríveis foram cruelmente aplicadas a ele, mas também o vemos como monstro, aberração demoníaca e etc… Mesmo que este último não tenha sido, além de tudo, “presenteado” com a vida eterna nos serve para uma reflexão.

O cinema também construiu grandes metáforas sobre a morte. Um bom exemplo é o filme alemão de 1921 “Der Müde Tod” do diretor Fritz Lang que saiu no Brasil com o nome de “A Morte Cansada”. Uma tragédia provocada exclusivamente por um destino implacável de uma jovem que perde o seu amado e que pelo desespero de tal acontecimento, após ter lido em um livro a frase: “O AMOR É MAIS FORTE DO QUE A MORTE” vai até o castelo do ceifeiro tentar convencê-lo a devolver-lhe seu grande amor. A Morte lhe diz que se ela salvar a luz de uma de três velas prestes a se apagar (a vida dos homens é representada por velas enormes) terá novamente a vida do seu amado. Por três vezes a jovem tenta com todas as suas forças e fracassa. A Morte então lhe oferece outro acordo. Se a jovem levar a vida de alguém para a Morte, esta lhe devolverá seu príncipe. A moça sai em busca da vida de alguém entres os mendigos, asilos e hospitais onde se encontram doentes terminais. Mas ninguém está disposto a entregar sua vida, por mais miserável que esta seja, à jovem já quase desenganada. Então, durante um incêndio num casarão, a pobre moça encontra seu alvo perfeito, um bebê que provavelmente morreria queimado. Mas, é tomada por uma consciência moral e salva a criança e morre no incêndio.

Será que Kant concederia a essa ação o estatuto de ação moral por dever? Um filme quase gótico onde a própria a morte é representada na figura de um senhor de mais ou menos uns 45 anos de semblante sério e profundamente melancólico, que passa a eternidade a ceifar a vida dos homens sem descanso. Profundamente atacado e desenganado pelas reflexões sobre o cruel destino que Deus o deu.

No fundo é ainda os que permanecem vivos aqueles que continuam a sofrer terrivelmente. Quando perdemos alguém que amamos a dor é desesperadora e acredito que todos, neste momento pensam: Porque não fui eu? Depois de algum tempo nos resignamos sem saída e nos dizemos com grande pesar: A vida continua! Mas, enquanto continua a dor não passa.

Acredito também que a vida deve ter um fim. Quantas pessoas queridas perderia aquele que tivesse a vida eterna. De quantas guerras, miséria, fome, dor, doença, pobreza, racismo, violência e todo tipo de injustiça seria este condenado testemunha?

Por mais que se possa pensar que, por outro lado, ele seria também testemunha de muitas coisas boas, o prazer, me parece, chegaria rapidamente a seu esgotamento. Sem o alívio da morte, creio que a vida perderia inteiramente seu significado.

Um outro dilema se nos apresenta quando pensamos na possibilidade de uma vida após a morte. Como seria esta vida? E se fossemos para o inferno, qual o aspecto ganharia a eternidade? Deixo este poema de Augusto do Anjos, o qual, particularmente considero um dos maiores poetas que a natureza com toda ironia já produziu, intitulado terrivelmente de “Eterna Mágoa” para que pensemos sobre a vida e a morte, e se pudéssemos escolher entre a morte e a eternidade, qual se nos apresentaria como escolha acertada.

O homem por quem caiu a praga
Da tristeza do Mundo, o homem que é triste
Para todos os séculos existe
E nunca mais seu pesar se apaga!

Não crê em nada, pois, nada há que traga
Consolo à mágoa, a que só ele assiste.
Quer resistir, e quanto mais resiste
Mais se lhe aumenta e se lhe afunda a chaga

Sabe que sofre, mas o que não sabe
É que esta mágoa infinda assim, não cabe
Na sua vida, é que esta mágoa infinda

Transpõe a vida do seu corpo inerme
E quando esse homem se transforma em verme
É essa mágoa que o acompanha ainda!

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