No texto da Akedah, assim como em todo o Gênesis, as personagens simplesmente aparecem e desaparecem da mesma forma, não sabemos de onde vieram e nem para onde vão.
Quando Deus chama a Abraão pelo seu nome, igualmente não nos é dito de onde ele chama e nem como, já que imaginamos que seja inconcebível que Deus tenha alguma voz perceptível a ouvidos humanos. Talvez imaginemos Abraão deitado inconsciente ou em Estado alucinante, fora de sua tenda recebendo a dura ordem de Deus. E tudo o que diz é ( הנני – eis-me aqui). Para Auerbach, famoso crítico literário, essa simples palavra não indica o lugar físico em que Abraão se encontra, já que para Deus isso pouco importa.
Indica, sim, o lugar moral de Abraão. Indica a qualidade pela qual o patriarca será reconhecido a partir de então até os dias de hoje: a obediência.

Todavia, conforme sabemos, tudo não passa de um teste, e a Torá não nos relata o seu resultado. Abraão passou no teste? Para tanto, temos três respostas. A primeira, a partir de uma visão simplista, é a de que Abraão passou no teste pois não teve dúvidas quanto à sua fé em relação ao Deus que lhe prometera toda uma descendência a partir do filho ao qual ele pedia o sacrifício. Simplista visão, pois não leva em conta a condição humana de Abraão, que certamente foi posto à prova, teve suas dúvidas e muito pensou antes e durante a ação que desempenhou. A segunda interpretação concerne ao que acabei de escrever, de que Abraão, como todos nós, tinha as suas limitações e, através da obediência superou sua própria condição humana, cumprindo automaticamente todas as mitsvót.

Sem títuloA terceira visão – da qual compactuo – é a de que Abraão não passou no teste. Será a obediência cega o que esperava Deus de seu servo? Se recorrermos à própria Torá, no capítulo XVIII: 23-33 de Gênesis, leremos uma discussão calorosa entre Deus e Abraão acerca da destruição de Sodoma. No primeiro versículo, na fala de Abraão que desencadeia o debate entre o Patriarca e Deus,(ויגש אברהם ויאמר האף תספה צדיק עם רשע – E chegou-se Abraão, dizendo: Destruirás também o justo com o ímpio?) ele insiste em lembrar o Senhor que, porventura, existam inocentes que pagariam alto preço pela devassidão dos demais. A discussão chega a tal ponto que Deus afirma ao seu servo que se houverem dez justos com merecimento de vida, toda a cidade sobreviverá. No entanto, esse contingente não existia em Sodoma e Abraão desistiu de sua insistência e “retornou ao seu lugar” – novamente: seu lugar moral.

Segundo o Midrash, quando Deus vai até Abraão comunicar seu pedido, não demonstrando clareza quanto a qual filho deverá ser sacrificado, Abraão se coloca a discutir com Deus a respeito disso. Vejamos:
“E Deus volveu-se a Abraão e lhe disse:
– Abraão, passarás por grande prova. Terás força para suportá-lo?
– Experimenta, Senhor do Universo.
– Traze teu filho…
– …Tenho dois…
– Aquele que é único…
– Ambos são filhos únicos de suas respectivas mães…
– Aquele de quem gostas…
– E achas que um coração de pai tem preferências?”

Podemos notar claramente neste texto que Abraão não renega e nunca renegou a paternidade de Ismael, mesmo sendo ele filho de uma escrava e odiado por Sara. Contudo, dada a ordem do sacrifício, o homem impetuoso, que discute com Deus quando não concorda com suas ordens, desaparece. Simplesmente acata o pedido Divino, pega seu filho e o leva ao lugar indicado. Será que Deus não esperava de Abraão a mesma virtude de outrora? O questionamento? Será a obediência cega o que desejava de seu escolhido? O texto nos mostra duas perspectivas: a primeira, de que todos nós estamos passíveis de erro justamente por serem os erros parte de nossa condição humana, e nem mesmo o mais proeminente homem da Terra esteve impassível do erro. A segunda, de que a mesma condição humana determina que somos mutáveis. Aquele Abraão que contestou a Deus pensa diferente do Abraão que simplesmente acata um pedido tão duro com base em uma confiança e obediências cegas. Seria Isaac, para Abraão, apenas um meio para se atingir um fim (a rica descendência prometida)? Isaac é o filho querido ou um objeto? Abraão confiava tão cegamente na promessa que, acreditava que Deus lhe daria ainda outro filho depois da idade avançada?

Por hora deixo as presentes indagações a fim de que o leitor reflita este tema tão controverso até a próxima publicação.

http://portaljudaico.com.br/vendoo/uploads/2016/07/abraao.jpghttp://portaljudaico.com.br/vendoo/uploads/2016/07/abraao-150x150.jpgMatheus Steinberg BuenoHISTÓRIA JUDAICAakedah,isaac,sacrifícioNo texto da Akedah, assim como em todo o Gênesis, as personagens simplesmente aparecem e desaparecem da mesma forma, não sabemos de onde vieram e nem para onde vão. Quando Deus chama a Abraão pelo seu nome, igualmente não nos é dito de onde ele chama e nem como, já que...Comunidade Judaica Paulistana