A maioria dos sábios de Israel buscaram conectar o tikun hamidot (aperfeiçoamento de nossas virtudes) com as mitzvot como sendo estas o meio pelo qual alcançamos nosso aperfeiçoamento. Também viram tikun hamidot como sendo o trabalho principal e fundamental do ser humano ante seu Criador, bençoado seja. Em Pirkei Avot chazal nos ensinam que “sem Torá não há derech eretz e sem derech eretz não há Torá”[1]. O bom comportamento, a ética e o respeito são, na visão de muitos, os ensinamentos essenciais da Torá.

Os dias de Sefirat Haomer, contagem do ômer, são conhecidos como dias nos quais devemos lapidar nossas midot aperfeiçoando nossas virtudes e eliminando nossos defeitos éticos e morais. Aprendemos também que como os 49 dias do ômer serviram para consertar as midot do povo hebreu para que estivessem aptos para o recebimento da Torá, estes dias também servem a nós para que façamos uma autorreflexão de nossas ações e busquemos nos corrigir para que estejamos também aptos para receber a Torá na festa de Shavuot.

Devemos sempre cumprir as mitzvot com alegria, não obstante nos dias de ômer diminuímos nossa alegria e nem mesmo celebramos casamentos por causa da morte dos vinte quatro mil alunos de Rabi Akiva. E o que tem a ver uma coisa com a outra? Nos explica a guemará que os alunos de Rabi morreram por não guardar o respeito uns com os outros[2]. E se morreram pelos seus próprios pecados por que deveríamos estar de luto? Porque justamente neles se cumpriu as palavras da Mishná em Pirkei Avot que recitamos acima. Como não se comportaram com derech eretz uns com os outros todo o conhecimento de Torá que possuíam foi anulado e nem mesmo pudemos receber de sua massoret.

Vemos que está tudo em torno do ômer, o que ele tem a ver com derech eretz e tikun hamidot? A resposta encontramos em nossa parasha: Emor.

Ômer é a colheita da primeira safra de grãos do ano, conhecida como bicurim, primícias. Esta colheita se dá na primavera logo depois da festa do primeiro dia de Pessach. Cinco mitzvot estão relacionadas com o ômer: a entrega das primícias da primeira colheita aos cohanim, sacrifício de minhá das primícias, a proibição de se comer dos novos grãos até que se oferte as primícias, a oferta de dois pães a cabo de 49 dias contados desde o segundo dia de Pessach e a oferta de minhá em Shavuot. No cumprimento dessas mitvot vemos como devemos controlar nossas vontades e impulsos.

Sobre a colheita do ômer diz a Torá: “Fala aos filhos de Israel, e dize-lhes: Quando houverdes entrado na terra, que vos hei de dar, e fizerdes a sua colheita, então trareis um molho das primícias da vossa sega ao sacerdote … E não comereis pão, nem trigo tostado, nem espigas verdes, até aquele mesmo dia em que trouxerdes a oferta do vosso D’us” (Vaikra 23:10,14). A festa de Pessach nos proíbe de comer chametz e seorá. O chametz que representa o orgulho e altivez nos fica proibido por sete dias, contudo os grãos e suas farinhas sim estão permitidos. Passado o primeiro dia de festa nos encontramos com outra proibição: a de não comer da nova colheita.

Estas proibições parciais (pois se tratam de alimentos permitidos que neste momento nos estão proibidos) nos levam o domínio próprio, para que nos eduquemos a não passar dos limites. Comer trigo posso, porém não fermentado; comer aveia posso, porém depois de ofertado das primícias. Como nos ensinam os sábios: quem é o valente? Aquele que domina a suas inclinações[3]. Essa é a parte mais difícil do aperfeiçoamento pessoal. Estamos condicionados a sempre atender nossos desejos no momento em que os desejamos. Comportamento natural que nos vem com a infância. Enquanto não atendemos as necessidades do bebê ele chorará. Esta inclinação deve ser trabalhada durante toda a vida.

Uma outra qualidade que os dias de ômer nos vêm a ensinar é o valor de dar. Com a primeira colheita se dava ao cohen das primícias. Ao fim dos 49 dias cada família preparava dois pais para serem entregues no Templo juntamente com um sacrifício de minhá. O ego é outro comportamento que devemos lapidar. Não necessariamente devemos eliminá-lo, pois ele também nos é muito importante para nossa sobrevivência e êxito na vida. Contudo ele é como o sal, onde com a penas uma pequena e insignificante porção é suficiente para dar o devido sabor. Mas se erramos e colocamos muito sal a comida é insuportável. E assim é uma pessoa egoísta que pensa sempre em si e que crê que tudo deve estar a seu serviço, uma pessoa assim é insuportável.

O ego é o pai de todas as más qualidades de um ser humano. Ele tem o poder de motivar todo a má inclinação que existe no homem. O antídoto para este mal é a boa ação. Quando fazemos boas ações sem o interesse de receber nada em troca eliminamos nosso ego. Deixamos de pensar em nós para pensarmos no outro. Porém até mesmo quando damos podemos dar com egoísmo. Isso acontece quando damos a quem queremos dar. A tzedaká em si não é suficiente para nos corrigir o Ego pois podemos cumprir a mitzvá subjugados ao ego quando damos tzedaká a quem queremos dar. Como a tzedaká não é suficiente a Tzedaká não é suficiente para corrigir essa forte inclinação, o Eterno nos presenteia com uma outra mitzvá: leket shichehá.

“E, quando fizerdes a colheita da vossa terra, não acabarás de segar os cantos do teu campo, nem colherás as espigas caídas da tua sega; para o pobre e para o estrangeiro as deixarás. Eu sou o Eterno vosso D’us” Vaikrá 23:22

Este pasuk parece sobrar aqui neste capítulo, pois ele não está conectado a nenhuma festa e nem mesmo ao ômer, uma vez que a mitzvá de peah e leket shichehá também podem ser cumpridas nos demais dias de colheita do ano. Além do mais esta mitzvá já foi ensinada no capítulo 19. Rashi se fez esta pergunta e responde: “que todo aquele que dar de leket shechihá (dos produtos caídos no campo) e da peah (canto do campo) para o pobre como devido, se o considera como se tivesse construído o Templo e sacrificado dentro dele” (Sifrá).

A grandeza desta mitzvá é que não damos a quem queremos dar mas deixamos para que qualquer pobre e qualquer estrangeiro venha buscar. Assim o ego é eliminado completamente. As vezes temos a boa vontade de ajudar mas nos restringimos a ajudar aqueles que nos parece cabido, seja por nosso juízo seja por nossa afinidade de ideias e valores. Mas aqui isso se acaba e de nossa parte se dá a qualquer um sem qualquer distinção de pessoa. Essa ajuda mútua nos eleva ao nível de como deveremos ser nos tempos da Gueulá (Redenção), por isso a menção de que como se tivesse construído o Templo e sacrificado nele.

Este pasuk veio apenas para nos ensinar o valor de dar ao que necessita, seja quem for. E justamente aqui, junto às leis de ômer para que em todos os anos nestes dias onde aumentamos nossas riquezas com nossas colheitas possamos recordar de aprimorar nossas qualidades.

Por Refuá Shelema de Menachem ben Mirian

Shabat Shalom

[1] Pirkei Avot 3:17

[2] Yevamot 62b

[3] Pirkei Avot 4:1

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