A utilização da restauração monumental para cancelar determinados episódios da historia, por ser considerado vergonhoso, é relevante em países com uma historia traumatizante ou violenta, como por exemplo, a Alemanha, mais precisamente Berlim, cheio de arestas e contradições.

O processo de transformação da cidade e de seus monumentos revela as dificuldades da Alemanha de assumir parte da sua historia recente, ou as tensões políticas, sociais e culturais de reunificação reconstruindo uma nova identidade, que responde mais a decisões políticas do que a consensos sociais. Um dos casos seria o desaparecimento do Palácio da Republica e a reconstrução do Castelo Real.

A capital alemã é uma cidade estratificada historicamente, com episódios de tensão e dor (nazismo, segunda guerra mundial, comunismo) que conjuga de maneira complexa memória e historia.

A partir de 1989, reescreveu-se a historia através da reconstrução monumental na qual a arquitetura cobra um extraordinário valor simbólico e na busca de uma nova identidade comum, que supere as diferenças entre o Leste e Oeste.

Sinaliza com o modelo deste processo, o famoso Palácio da Republica, um edifício multifuncional, inaugurado em 1976 como sede do parlamento da Republica Democrática Alemã de vida curta (apenas 30 anos de existência) posto que foi demolido entre 2006 e 2008 com um intenso debate de 15 anos em torno do uso e destino dessa infraestrutura.

Construído entre 1973 e 1976, seguindo um projeto coletivo de arquitetos, o Palácio da Republica, também conhecido como o Palácio do povo, ergueu se onde anos atrás era ocupado pelo Castelo Real de Berlim.

2

O Castelo Real era uma construção notável de valor histórico-artístico, um heterogêneo conjunto arquitetônico do século XV ate o século XIX, com uma decoração interior e mobília, hoje perdida, na qual oferecia um testemunho completo da historia da Prússia e da arte Europeia. Ate a segunda guerra mundial, respondia  a um majestoso Palácio Barroco que se converteria com o tempo no símbolo da casa Real Prussiana e que dominava estrategicamente o centro de Berlim como conexão entre a parte oriental e ocidental da cidade.

Com o fim da monarquia em 1919, perdeu sua função política e desde 1921 era utilizado como museu. Afetado pelos bombardeios da segunda guerra, não foi esse o motivo do seu desaparecimento, se não pela iniciativa do político Walter Ulbricht, destacado político comunista e Presidente da Republica  Democrática Alemã desde 1960, foi a personalidade que mandou sua demolição ao considerar estes restos como símbolo de um regime feudal, militarista e monárquico. Em dezembro de 1950, com a oposição de muitos berlinezes ( a maior parte arquitetos, urbanistas, historiadores)o castelo foi eliminado sem piedade, como sucedeu muitos outros símbolos da historia Prussiana. Com o desaparecimento do Palácio, ficou um vão enorme no centro da cidade, um gigantesco espaço publico onde se realizavam paradas militares e reuniões políticas.

Em 1973 iniciam-se as obras do maior centro cultural denominado Palácio da Republica, tão em  “moda” em outras cidades europeias, como o centro Georges Pompidou em Paris 1970/1977. Essa construção de 5 andares na qual continham sala para espetáculos com mais de 5000 lugares, 1 teatro, 13 bares e restaurantes inclusive uma famosa discoteca e a câmara  de representantes do povo, converteu-se no maior centro cultural da historia da Alemanha recebendo 70 milhões de visitantes nos seu 21.000 atos culturais. Como podemos notar, se converteu num edifício de alto valor simbólico, respondendo a vontade política do governo da R.D.A e sua história ficou marcada em 1990 com o descobrimento do amianto contaminante no ambiente do edifício, que obrigou a fechar as portas, porem antes do seu encerramento, o Palácio foi testemunha de um acontecimento histórico no dia 23 de agosto, os membros do parlamento da R.D.A votaram a favor da união com a Republica Federal materializando-se a união das duas Alemanhas.

3              4

Com a queda do muro e a tão sonhada reunificação das duas Alemanhas, começam as discussões sobre o uso da instalação do Palácio da Republica; eles o viam como um símbolo de regime político fracassado e do mesmo modo que a ideologia socialista havia condenado o Castelo Real  40 anos atrás, a historia aqui se repete.

Em 1990, sob a direção do arquiteto Hans Stimman, começa um plano diretor que propunha uma reconstrução  critica do centro da cidade e ao mesmo tempo surgia a ideia de recuperar a imagem de Berlim do século XIX como uma maneira de superar as desgraças do século XX ( imperialismo, nazismo, militarismo e comunismo). Em 1993, Boddien, um empresário cobriu o Palácio da Republica com umas gigantescas lonas, um  “ tromp-oeil “ que representava a fachada do histórico edifício que impressionou a opinião publica.

5          6

Entre 1998 e 2001 foi realizada a descontaminação (descobriu se que foi utilizado amianto que é altamente toxico e cancerígeno) do Palácio e o coletivo a favor da reconstrução do Castelo Real ia ganhando adeptos sobre o meio político alemão e também financeiro. Uma comissão reunida em 2002 recomendou reconstruir um edifício de usos públicos e cultural com um volume similar ao do castelo, integrando alguns vestígios da construção original e apesar das 80.000 assinaturas recolhidas contra a demolição do Palácio da Republica, em novembro de 2003 foi aprovada definitivamente a demolição do mesmo. O governo alemão aprovou somente as replicas das fachadas que seriam financiadas exclusivamente por meio de fundos privados.

7

Funcionário desmontando protegido do amianto

8

Sendo demolido

 

Construir um edifício novo, dotado de uma fachada barroca fingida sem conexão alguma com o interior da construção… Um dos argumentos dessa “solução” é que deveria ser devolvida ao centro de Berlim uma construção com certa entidade; um elemento chave na identidade da cidade por mais de 500 anos. Para essa reconstrução, foi convocado um concurso em 2008 com escassa participação internacional e ausência de grandes “archistars”. Franco Stella, arquiteto italiano, ganhou o concurso com certa polemica, já que seu projeto se adaptava melhor as bases estabelecidas. Parece que a demolição do Palácio da Republica é uma forma de vingança contra a demolição do castelo real por parte dos comunistas.

questiono os seguintes pontos:

  • Porque não se considerou como opção a restauração do edifício?
  • Se este edifício estivesse localizado na Republica Federal Alemã teria sido demolido?
  • Porque é mais interessante uma fachada barroca que um edifício de arquitetura contemporânea?
  • O que tem atrás desse “revivel”?

9                  10

foto tirada em 26 fevereiro de 2016                                Detalhe dos ornamentos

 

 

 

http://portaljudaico.com.br/vendoo/uploads/2016/07/1-3-1024x693.jpghttp://portaljudaico.com.br/vendoo/uploads/2016/07/1-3-150x150.jpgAlicia StiubiARTE E ARQUITETURAPRÉDIOS HISTÓRICOS E RETROFITarquitetura,historia,restauracaoA utilização da restauração monumental para cancelar determinados episódios da historia, por ser considerado vergonhoso, é relevante em países com uma historia traumatizante ou violenta, como por exemplo, a Alemanha, mais precisamente Berlim, cheio de arestas e contradições. O processo de transformação da cidade e de seus monumentos revela as...Comunidade Judaica Paulistana