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Vez ou outra aparecem histórias trágicas de suicídio nos noticiários. Cada vez mais pessoas são diagnosticadas com depressão, síndrome do pânico, crise de ansiedade, e outras síndromes. O diagnóstico também não se atém mais a grupos específicos como por exemplo jovens rebeldes, usuários de drogas, o homem de meia idade que perdeu o emprego, a mãe que sofre com a síndrome do ninho vazio. Nas últimas décadas trata-se de um fenômeno mais generalizado, ou pelo menos, mais divulgado, atingindo executivos no auge de sua carreira, jovens recém formados com uma vida pela frente, mães com uma família estruturada, entre tantos outros casos.

Esse artigo pretende abordar um grupo específico de pessoas diagnosticadas com depressão e que tem e praticam uma religião e os rituais inerentes à essa religião.  Não são raros os comentários de pessoas questionando “como alguém com tanta fé pode perder as esperanças, depressão atinge pessoas sem fé, a pessoa deprimida perdeu a conexão com D’eus”, comentários totalmente infundados, que só agravam a situação e em nada ajudam essa pessoa que está doente.

Se a mãe sofredora não pediu ajuda, provavelmente ela estava envergonhada ou com medo de expor seus pensamentos estranhos. E o executivo acredita que sua insônia e fadiga é consequência de sua jornada de trabalho. O jovem enxerga que quase todos seus amigos estão “meio perdidos” também, e assim os pensamentos perigosos, memórias estranhas, persistentes, indesejadas, e a sensação cada vez maior de inadequação vão criando um cenário limítrofe, onde a angústia aumenta exponencialmente levando, muitas vezes, a buscar uma saída extrema. Como sabemos acabar com a vida pode ser a forma encontrada de acabar com a angústia dilacerante.

Muitos se questionam: “Eu perdi meu caminho? “Isso está acontecendo por que me afastei de D’eus.” Eu estou na cama chorando, quando eu deveria estar rezando ou me empenhando mais em ajudar o próximo, fazer serviço voluntário, dar mais para a caridade”.

O perigo da pessoa que entende que ter e praticar uma religião deveria imuniza-la de sofrimento, torná-la forte, é uma linha de pensamento bastante perigosa. Essas pessoas tendem a acreditar que não precisam de ajuda médica e sim se dedicar mais à religião, que não há necessidade de um diagnóstico. Medo e vergonha de ir a um psiquiatra ainda são generalizados. ” Por que as rezas não ajudam mais? Por que não me concentro mais como antes nas minhas orações?” Esses questionamentos são frequentes em pessoas que praticam uma religião. O que é preciso entender é que a depressão é incapacitante, suga energia, tira a concentração, exaure. Obviamente a pessoa depressiva não perdeu a conexão com D’eus, não deixou de acreditar, não perdeu sua fé, ela só está doente.

Um conselheiro espiritual, um rabino, um padre pode desempenhar um papel importantíssimo no apoio moral, mas ele não substitui um médico. Claro, uma boa conversa tem um elemento terapêutico, é uma forma de limpeza que permite aliviar os sentimentos. Mas, muitas vezes, é uma solução de curto prazo, porque os problemas voltam, as dificuldades se acumulam, a dor não diminui, a sensação de impotência aumenta e pior a vergonha, o sentimento de fraqueza impede essa pessoa de procurar novamente esse mentor espiritual pois sentirá que falhou em cumprir as orientações dadas por ele.

Terapia é trabalhar em si mesmo e é sempre um processo, nem sempre rápido e indolor, mas valioso. O processo terapêutico busca entender suas crenças centrais, qual o “gatilho” que dispara determinado sentimento e consequentemente, um comportamento inadequado em você. Entender,  por exemplo: Por que tudo está certo em sua vida e você se sente infeliz?  Por que você só sabe amar possessivamente? Por que ao menor sinal de rejeição, na sua interpretação, você se desestrutura? Por que sua franqueza e transparência, muitas vezes parece tão agressiva para as pessoas próximas, que elas acabam se afastando de você? Por que as vezes você quer demonstrar afeto e age completamente ao contrário? Por que a sensação de solidão te aterroriza tanto?

Quando nos afastamos da vida cotidiana e nos sentimos tristes e sem esperança, quando temos pensamentos negativos frequentes, suicidas, obsessões, compulsões, devemos procurar ajuda de um profissional da área de saúde. Neurose ou doença mental não é algo de que se deva ter vergonha, mas negar o conhecimento e os recursos do campo da psiquiatria e psicologia é! Esses profissionais não ficarão surpresos, eles estudaram para isso, eles são treinados para isso. Nada os surpreenderá! O trabalho desses profissionais é descobrir o que está acontecendo com você.

Obviamente inúmeras pesquisas apontam cada vez mais para a importância e os benefícios da fé e da espiritualidade para manter uma boa saúde, não há dúvidas sobre isso, mas é importante lembrar que quando a pessoa está doente não é sua fé que está abalada e sim sua saúde. Importante entender isso! É importantíssimo diferenciar os problemas espirituais dos psicológicos. Em vez de sentir culpa constante, permanecer na dor e lutar sem êxito contra você mesmo é crucial admitir que seu problema não é espiritual, mas psicológico. Você não está perdido, você não perdeu sua conexão com D’eus. Você está doente. Você não tem uma crise de fé, mas você tem um problema de saúde. Qualquer pessoa que já não é capaz de lidar com seus sentimentos e pensamentos e sente que seus pensamentos podem representar um risco para si ou para seus entes queridos, deve procurar ajuda imediatamente.

As práticas religiosas e terapêuticas não devem competir entre si. Elas podem e devem se completar. Um bom terapeuta não luta contra a fé do paciente, ele sabe que para ele é um valor fundamental. E um bom mentor espiritual deve reconhecer quando orientar essa pessoa a procurar um profissional de saúde mental.

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