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Na minha última coluna, como um bom Yiddishe Tate, um bom pai judeu, falei sobreo nascimento de minha filha Yael, primeira filha, nossa primogênita. Segundo as práticas judaicas mais tradicionais, costuma-se valorizar muito o filho homem. Aos 8 dias de vida há uma cerimônia muito especial para os meninos, o Brit Milá, a circuncisão ritual. Ao levar um filho para ser circuncidado, o pai e a mãe repetem o ato de Abrahão que, a mando de Deus, circuncidou seu filho Isaac aos 8 dias de vida. Não há ritual similar para as mulheres. Com o tempo, foram se desenvolvendo novos costumes para celebrar a alegria do nascimento de uma filha – não necessariamente a primogênita: alguns chamam de Simchat Bat, Zeved Habat, Brit Habat, Brit Lebat, Siete Candelas.

Deve haver outros termos, conforme a cultura, a época, o local. Seja como for, é isso o que Yael é, nossa primeira filha, e nós lhe damos o mesmo valor e amor que daríamos se tivéssemos tido um primogênito do sexo masculino. Yael, este é o seu nome. Olha, o nome “causou”! Não esperávamos (muito) por isso. Nossa escolha foi por um nome judaico, em hebraico, muito popular em Israel por sua sonoridade. Mas as pessoas começaram a nos perguntar o que significa este nome diferente. Dois significados principais: Cabra Montesa, e uma personagem bíblica do Livro de Juízes, próxima à Profetisa Débora. Uma mulher corajosa e destemida. Mas nada disso convenceu o pessoal do cartório, que criou alguma dificuldade para que eu pudesse registrá-la, pelo fato de terem achado o nome estranho. “Yael? Nunca vi um menino com esse nome”.

Eu olhei para a atendente e expliquei: “É menina”. E ela: “Menina com este nome? Não pode ser”. Expliquei que era um nome em hebraico, que estava na Bíblia. Fiz uma rápida pesquisa no Google, mostrei a ela um site de nomes judaicos. “Mas está em inglês? Não tem em português?” Meia hora depois, já sem muita paciência, expliquei que minha família é judia, que meu nome é hebraico – “Aliás, estranho também o seu nome”, tive que escutar – e que nossos nomes eram assim e nunca nos criaram o problema que ela estava me criando. Me senti um pouco no período anterior à 2a Guerra Mundial, quando influenciados pelo nazismo e com um nacionalismo exacerbado, o governo não permitia que judeus vindos da Europa e não naturalizados brasileiros ocupassem cargos nas diretorias das recém fundadas instituições judaicas. Movimentos juvenis, sinagogas, clubes… não poderiam ter nomes estrangeiros.

Vemos que a fobia a estrangeiros – e sim, refugiados – não é algo exclusivo dos tempos em que vivemos. Aliás, eu pensava, aliviado, que estes tempos haviam ficado para trás, na triste época em que meus avós eram crianças ou jovens. Ledo e lerdo engano. Agora volto à Yael. Se eu chegasse no cartório e dissesse, orgulhoso, que o nome da minha filha seria “Eaíbeleza”, “Jaénóis” ou “Aiquelinda” e a atendente estranhasse ou não permitisse, eu concordaria que exageramos; mas Yael?! Por ser um nome estrangeiro? Afinal de contas, também somos um país de imigrantes – e que felicidade por meus avós, refugiados da Europa nazista, conseguirem entrar no Brasil a tempo.

Uma gente de nomes diferentes, como Michale, Shloime, Moishe, Surale, Brandla, Rivke… entre eles meus avós Aizik e Libe Reizl, Aarão e Chaia Brucha – esta última, polonesa, registrada com um nome que soa quase indiano, Chaja Budha; por fim, tornou-se Dona Clara, mais fácil; mas pediu para quando morresse, que na sua matzevá ficasse registrado o seu nome de verdade, em yidish, Chaia Brucha. Também aí houve uma pequena novela dos “nossos cartórios”, mas essa fica para uma outra vez. Por hoje me basta dizer que, graças a eles, pôde nascer uma judia mineirinha, filha de um paulistano com uma gaúcha, de nome Yael.

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