Lembro me perfeitamente a primeira vez que pensei na morte de uma forma diferente, filosófica, digamos assim. Estava no primeiro ano da faculdade de Psicologia e foi sugerida a leitura do livro “No país das sombras longas”, de Hans Ruesch, onde ele descreve a cultura pouco conhecida e comentada dos povos Esquimós. Um dos capítulos é sobre o ritual de morte da matriarca da família, que em sua velhice caminha em silêncio, sozinha até a morte, pois já não se sentia mais útil às gerações mais novas e compreendia que tinha completado seu ciclo. Vai à beira de um penhasco e espera para ser devorada por um urso, que por sua vez, serviria de comida ao povo da aldeia num futuro próximo e assim essa matriarca voltaria a ser útil ao povo novamente. Na minha cabeça tão ocidental, fiquei incrédula. Mas a vida seguiu e muitas perdas aconteceram e confesso, reagi muito mal a todas elas, muito longe da elevação e resignação de um Esquimó.

A morte para nós, principalmente ocidentais, pode ser vista como um mistério incompreensível ou um absurdo inaceitável, mas seja como for, aceitemos isso ou não, a morte é uma realidade inexorável. Pode-se aceitar a inevitabilidade da morte e olhá-la de frente ou pode-se negá-la, fugir dela, imaginar que não pensar na morte possa fazer com que ela deixe de acontecer conosco ou com nossos entes queridos.

Certa vez li um artigo que dizia que uma maneira para conviver melhor com a ideia da morte seria imaginá-la como o fim de uma festa: você já sabia que ela acabaria em algum momento e, pensando bem, talvez não seja de todo mal que a festa termine. Você aguentaria dançar na pista para sempre? Por melhor que seja a música, tem uma hora que seu corpo e sua mente pedem descanso. E aí, talvez, seja o momento mesmo de sair da pista, serenamente, sem traumas, e dar lugar a quem está chegando à festa cheio de gás.

Pena que não é tão fácil pensarmos assim!

Para quem busca na filosofia maneiras de lidar melhor com a morte, as reflexões finais do filósofo grego Sócrates, representam um excelente exercício de aceitação. Para quem não acredita na continuação da vida, a morte é o nada, é o fim das aflições. E para quem acredita na continuação da vida, a morte é a passagem desta existência para outra melhor. De qualquer modo, a dor estaria na vida e não na morte.

“O medo da morte é fundador da cultura”, diz a antropóloga Luce des Aulniers, responsável pela disciplina de estudos sobre a morte, da Universidade de Quebec, Canadá. “Esse medo funciona como pivô e como motor de todas as civilizações. A partir do desejo de perenidade, se desenvolvem as instituições, as crenças, as ciências, as artes, as técnicas e mesmo as organizações políticas e econômicas.” Esse é o lado, digamos, vital da morte, positivo, se é que podemos chamar assim. O medo da morte nos força a viver – a nos relacionar, a procriar, a criar, a construir coisas que nos transcendam.

Todas essas reflexões visam dar um entendimento a morte, um certo conforto, mas tudo fica muito desconexo e perturbador quando falamos de uma partida precoce, jovens que não estão cansados e nem próximos de completar o ciclo.

Sim, de acordo com várias religiões, a crença na imortalidade da alma e de que todos viemos com um propósito e tempo de validade, servem como mais do que uma explicação, um abrandamento do sofrimento da perda de um ente querido, e um ato de fé e sabemos que pessoas com fé e certo envolvimento religioso, costumam passar por esses momentos mais facilmente.

Mas o ponto é: se nada podemos fazer para evitar o inevitável, podemos sim fazer para “significar” uma perda precoce ou alguma fatalidade que nos ocorreu. Lembro me que ainda muito jovem, perdi minha cachorrinha e imediatamente tomei a decisão de me tornar vegetariana, algo que fazia muito sentido naquele momento. Infelizmente outras perdas vieram e continuei com o propósito de que a cada perda eu tomaria alguma atitude visando melhorar, aprimorar, refinar meu caráter / personalidade. Essa foi a forma que encontrei de dar um significado a essas perdas inevitáveis.

Tenho lido e visto muitos pais que ao perderem seus filhos tão jovens se engajam em trabalhos voluntários, ONGs, recentemente tomei conhecimento do projeto Alpapato – Anna Laura Parques Para Todos, iniciativa de um casal que ao perder a filhinha de 3 anos, decidiu construir parques acessíveis a crianças deficientes. Essa foi a forma de dar sentido, homenagear a filha querida que partiu tão precocemente.

Como no artigo postado na semana passada, ações como essa, o Logoterapeuta Viktor Frankl chama de Valor de Atitude, ou seja, a atitude que tomamos frente a uma tragédia inevitável que nos assola, está nas nossas mãos. Dar um significado àquela perda, além da honra que estamos concedendo aquele ente querido que nos deixou, pode fazer muita diferença na nossa vida e na de outras pessoas também.

Finalizo lembrando algo muito interessante, em certas ordens religiosas, os monges, ao se encontrarem nos corredores do mosteiro, costumam dizer uns aos outros: “Memento mori”, expressão latina que significa “lembre-se de que vai morrer”.

Sim vamos um dia, mas os demais, vamos viver! E dar sentido a nossa vida e levá-la de modo significativo é a melhor maneira de honrar nossos entes queridos que se foram.

Dedico esse artigo para elevação da alma de Chaia Mushka bat Harav Avraham Meir.

Magali

 

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