Quando ouvi pela primeira vez esta canção, entoada pelos lábios de minha avó, tive certeza de que, em sua homenagem, traduziria para o português, mantendo – na medida do possível – o que há poético nesta canção.
Tomei as rédeas de minha liberdade poética a fim de alterar o nome de Reyzl para Bia, afinal, com que palavras em português eu poderia rimar o nome desta bela moça judia que bordou para o bem amado David uma bolsa para seus Tefilin?

Abaixo, uma dócil animação ilustrando a canção.

Reyzele

Inesperada, Em uma pequena via,
Sonha, em delongas, acima da pia,
No efêmero sótão do antigo lar,
Enquanto vive, Minha estimada Bia.
Enquanto o poente no céu se estende
Por lá eu passo, me debruço e grito:
Bia, querida,
Vinde, vinde, vinde!

Com o tilintar da janela, assustada:
Acorda, dormente, a casa tomada
Para ver brilhar no céu as estrelas
Dos anjos, então, a voz eu escuto:
Quando, enfim, me responde a bem amada.
“Breve virá, da minha liberdade a vez.
Caminhe, querido, uns passos mais n’oculto:
Um, dois, três”.

Eu canto enquanto as nozes vou quebrando:
Continuo a caminhar jubiloso,
Escada abaixo, gentil e amoroso
Os pezinhos vão, dela, declinando.
Então ela pula – abraço-lhe agora,
O coração bate como percussão
Com amor beijo-lhe a testa por hora.
“Vão, Vão, Vão!”.

“Preciso dizer, querido David:
Nunca mais assobie em minha janela.
Mame se enraivece – diz a mim: “Vi
Que ele está assobiando de novo nela”.
“Assobiar”, ela diz, “não é kosher,
Outros fazem – Conosco não tem vez!”
Melhor será me chamares em Yiddishe:
“Um, dois, três.”

Não mais assobiarei em tua janela.
Para isso: um pequeno juramento:
Por ti eu cumprirei o mandamento
De ser eu piedoso como o vento.
Serei justo, minha querida dar-te- ,
-ei como presente um justo judeu,
Caminharei ao Shil todo Shabat.
Vinde, vinde, vinde

Em ti, amado, eu confio plenamente
E, por isso, David, para ti farei
Uma nobre capa e nela bordarei
A estrela de David, para teu tefilin
Bordada com a estrela de David.
Então deveras dizer-lhes,
Se gostarem no Shil:
“Minha amada Bia tricotou para mim,
Um, dois, três!”

Obrigado pelo pequeno presente.
Amo-te tanto, ó minha amada querida
Amo sua mame, amo a sua avenida
Amo o seu antigo e pequeno lar
Amo, do lar, a escadaria em par
Por onde tu sibilas cima e baixo.
Ouça, sua mame chama-te agora.
Vinde, vinde, vinde.

Andando em casa, feliz… alegre,
Descasco as muitas nozes cantando;
Os pezinhos de Bia declinando
Escada abaixo com um gentil frescor.
Mais uma vez, a casa é só um sonho,
Tranquila, ela se queda em suave torpor,
Querida, vinde me visitar em sonho:
Vinde, vinde, vinde!

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