Outro dia minha linda sobrinha escreveu sobre seu passeio com a cachorrinha. Em resumo, disse que não era para os fracos em autoestima, pois todos só queriam saber da pet, tirar foto da pet, comentar os acessórios da pet… Pelo que entendi, parece que, pelo menos dessa vez, quando alguém pedia o número do telefone da cachorrinha, era mesmo o telefone da cachorrinha que queria. Dei risada. Minha sobrinha é linda e bem resolvida (e não, não estou sendo coruja não! Ela é mesmo! Eu só concordo com entusiasmo…), mas mesmo assim, achei engraçada a questão sobre a autoestima levantada por ela.

Imagina, pensei, jovem, linda, de bem com a vida… Só podia ser brincadeira. Li, curti, e segui meus afazeres sem pensar mais no assunto… Entre esses afazeres estava a muito adiada compra de uma botinha marrom. As minhas desintegraram ou são altas demais. Enfim… Adiei tanto a compra que o inverno está praticamente acabando e nada… Resolvi que não ia passar daquele dia. Entrei na loja, meus olhos fixos no “modelitxo” perua, estilo que sempre me foi peculiar. Achei… Linda! Pedi para a vendedora, “lógico”, meu número, um número a menos e um número a mais… Talvez eu não devesse revelar esse segredo, mas agora que já comecei, lá vai: Não, homens, a gente apenas finge ser a Cinderela… Ao comprarmos sapatos, a maioria de nós encarna mesmo é uma das irmãs dela. Se pudéssemos, cortaríamos os dedos ou o calcanhar para que os nossos pés coubessem nos sapatos que nós gostamos, mas até isso hoje é politicamente incorreto dizer…

Isso mesmo, hoje tem um monte de mulheres que dizem “jamais comprarei um sapato que aperta, o conforto e a saúde em primeiro lugar”… E o pior é que elas geralmente dizem isso do alto de um salto 15, com a cara mais deslavada possível, sem se dar conta de que o que falam e o que demonstram são duas informações antagônicas… Então tá, né? Fazer o que? Depois a louca sou eu… Calcei os chiquérrimos instrumentos de tortura… Levantei… Bom, levantar talvez seja o termo incorreto… Arremeti meu corpo para cima e teria ido ao infinito e além, como Buzz Lightyear, se a loja não tivesse o teto rebaixado… Lindo! Ganhei 15 centímetros de altura e achei que rejuvenesci no espelho. Parecia que eu estava nas nuvens… Mas só se fosse à noite, porque a dor do meu joelho que apareceu assim que levantei, me fez ver estrelas, fato do qual a vendedora se deu conta rapidinho, embora eu estivesse crente que havia disfarçado.

Sem querer perder a venda, ela fez a viagem até o estoque e retornou sem nem mesmo me dar tempo de dizer uma palavra tipo “achei caro”, “acho que não é meu número”, “você tem em fúcsia?” ou qualquer outra coisa que geralmente uso para justificar não levar, menos a realidade… Quando voltou, trazia o par de sapatos mais ”estranho” que já vi. Era um legítimo representante dos tais dos “sensible shoes”, que as pessoas geralmente compram de presente para a avó… Pensei na minha sobrinha desfilando com a cachorrinha “fashion”… Tive um flash imaginário meu, do lado dela, com um andador e um cão guia… Olhei ressentida para a vendedora. “Não é muito meu estilo” disse, olhando em volta para saber se havia alguma velhinha na loja que eu não tivesse visto entrar. Não… Só eu… Ei!… Teria saído correndo de lá, mas ainda estava com aquele par de botas que não me permitiam nem andar… Olhei magoada para a vendedora. Ela gentilmente me disse: Só experimenta, se não gostar, não leva… E não ia levar mesmo, pensei.

Mas resolvi experimentar porque o tempo extra viria a calhar para passar a dor no joelho… Experimentei. Não sei se realmente o fundo musical que tocava nas caixas da loja era de um coral de anjos ou se foi apenas uma sensação que tive, de que querubins haviam entrado na loja única e exclusivamente para massagear meus pés… Sim, os sapatos ainda me faziam lembrar da minha avó, mas não como uma velhinha frágil que arrastava os pés em câmera lenta… Lembrei-me da senhora simpática que jogava memória comigo e me fazia torta de maça sempre que eu visitava. Aqueles sapatos eram um abraço de infância. Claro, de olhos fechados. De olhos abertos continuavam horrorosos… Tentei relevar a aparência… Consegui. Era mesmo a coisa mais confortável que eu já calçara. Sem falar que quando me levantei, a calça cobriu a parte mais “idosa” daquilo… Gente! Disfarça legal! E eu posso usar com quase tudo, já que detesto fazer barra em calça mesmo (barra, bainha, ou seja o nome que se dê, não faço e pronto. Nunca fiz… É um habito que mantenho desde criança… Vai que eu cresço?…). Logo minhas engrenagens começaram a trabalhar em prol da comissão da vendedora: Não era uma questão de ser velha, pensei. Era apenas ser ou não “prática”.

Uma mulher que trabalha fora do escritório, que anda muito e até corre, porque, graças ao transito de São Paulo, sempre estou em cima da hora, merece e precisa de sapatos assim. É isso aí, não estou envelhecendo! Estou virando prática e politicamente correta! E ainda usando um sapato confortável no processo! Ponto pra mim! Fiquei feliz da vida… A vendedora era um gênio! Ela sabia das coisas! O sapato nem era assim tão feio! Questão de costume… Nada assim tão “generoso”, tão bom para mim, podia ser feio, certo?… Pois é, quem diria. “Quem ama o feio, bonito lhe parece” adaptado à indústria de calçados… Fui para o caixa, segura, tranquila. Feliz por ter tomado a decisão certa. A bota que me perdoasse. Eu a havia namorado por muito tempo, mas a verdade é que nosso relacionamento estava fadado ao fracasso.

Eu estava em um momento, ahn, digamos, “mais maduro”, mais egoísta… Não queria mais fazer sacrifícios, apenas estar junto do que me fazia bem… (Entenderam porque essa coluna chama “elocubrações”, certo? Quando outras pessoas entram na loja, escolhem o sapato, pagam e partem para atividades que realmente significam alguma coisa, eu deliro no “sentido oculto” do sapato da vovó… Sério, cultura, história, filosofia, tudo isso você encontra nas diversas colunas desse site. Aqui, espero que venham atrás de histórias mais leves, para passar tempo mesmo… Fiquem a vontade para se entreter e divertir com meus pequenos e patéticos dramas pessoais… Nada do que eu falo aqui é para ser analisado ou levado muito a sério, pelo menos não na maioria das vezes…).

Continuando… Satisfeita com a vitória da praticidade sobre a vã vaidade, fui com o ticket retirar minha compra com a vendedora… Estico a mão para pegar a sacola e a vendedora diz: “A senhora não vai se arrepender. Essa é uma linha que sai muito!”. “Imagino. São realmente muito confortáveis. Você tinha razão!”, respondi. Perceberam o tom conciliatório das minhas palavras, certo? Fui simpática até, não? Poderia ter emitido um muxoxo qualquer, pego minha sacola e ido embora… Mas não… A burra aqui tinha que levantar a bola para a mocinha cortar… (desculpem, ainda sob efeito das olimpíadas…).

E não é que a moça, sem a menor provocação da minha parte, já com sua comissão garantida e tudo, diz: “É uma linha especial, sem costura, voltada para diabéticos”. Hein!!!!???? E todos meus esforços foram por agua abaixo em uma frase mal escolhida… “Sensible Shoes”, “politicamente correto”… Uma ova! Trabalhei, fiquei exausta, peguei meu salário e, de livre e espontânea vontade gastei uma parte considerável dele e o que acabei comprando mesmo foram sapatos de velha! E de velha doente, ainda por cima!!! Sim, querida vendedora cuja cara pretendo nunca mais vislumbrar enquanto viver, você conseguiu… Fez com que eu comprasse essa coisa horrorosa. Espero que esteja satisfeita consigo mesma. Lá se foi minha autoestima. Vou até conversar com minha sobrinha para ver se ela me empresta a cachorrinha. Tudo agora é válido em busca do “controle de danos”… Mas você não perde por esperar! Um dia eu volto nessa sua lojinha mequetrefe, e sem olhar na sua cara, vou comprar com a outra vendedora! Isso mesmo, me aguarde! E pode aguardar mesmo! De preferência com o mesmo modelo, só que em preto… Essa coisa é confortável pra caramba!

 

http://portaljudaico.com.br/vendoo/uploads/2016/08/salto.pnghttp://portaljudaico.com.br/vendoo/uploads/2016/08/salto-150x150.pngCarla SpachCRÔNICASELOCUBRAÇÕESelocubraçõesOutro dia minha linda sobrinha escreveu sobre seu passeio com a cachorrinha. Em resumo, disse que não era para os fracos em autoestima, pois todos só queriam saber da pet, tirar foto da pet, comentar os acessórios da pet... Pelo que entendi, parece que, pelo menos dessa vez, quando...Comunidade Judaica Paulistana