Apresenta-se o dia mais esperado pelo povo hebreu desde a entrega da Tora no monte Sinai: o dia em que poderão oferecer seus sacrifícios a Hashem. Hoje esta ideia pode parecer sem sentido, mas devemos ter em mente que no mundo antigo não se conhecia outra forma de cultuar uma divindade que não fosse por meio da oferta de sacrifícios de animais e de incensos.

Então aqui estamos, Parashat Shemini, no oitavo dia depois da ordenação dos sacerdotes, em Rosh Chodesh Nisan, dia da inauguração do Mishcan. Neste dia o Eterno, bendito seja, quis agraciar seu povo com um presente. Mesmo com todos os milagres vistos desde as pragas com as quais se castigou os egípcios, com a atravessai do mar, com a coluna de fogo e de nuvem que acompanhava o acampamento dia e noite e com as codornizes e com o mana; Hashem quis mostrar ao povo que seus sacrifícios eram aceitos e para isso mandaria um fogo para consumir as oferendas.

Neste clima de alegria e expectativa pela inauguração do Mishkan, no qual se trabalhou todo um ano, Nadav e Abihu, filhos de Aharon Hacohen, decidiram por entrar no santuário e oferecer um sacrifício de incenso. Sua oferta não foi apreciada por Hashem o qual enviou um fogo que os consumiu. O dia mais alegre passou a ser o dia mais triste. A oferenda que deveria agradar a D’us, o aborrece. O fogo que deveria consumir o holocausto e alegrar o povo traz a dor da perda e luto para toda a congregação.

Nadav e Abihu eram tzadikim e conheciam muito bem as leis dos korbanot, também ensinavam o povo as leis da Torá. O que deu errado? Como que de um ato de amor e devoção pode ter originado toda esta desgraça?

Nos diz a Torá que Nadav e Abihu ofereceram um sacrifício a Hashem com um fogo estranho o qual não havia sido ordenado a eles. Chazal discutem as possibilidades do que realmente haveria passado haja vista que há a mitzvá de oferecer incenso duas vezes por dia, manhã e tarde. O Midrash Rabá nos traz cinco possibilidades:

  1. Porque se aproximaram do Santo dos Santos
  2. Porque ofereceram um sacrifício que não lhes fora ordenado
  3. Porque usaram um fogo estranho, acendido de forma não ordenada
  4. Porque não compartilharam o serviço, mas cada um fez por si mesmo

Adiciona Rabi Eliezer que foi por haverem estipulado uma halachá sem consultar Moshe: ainda que o fogo descesse dos céus, os cohanim ainda estariam obrigados a trazer o fogo para o kitóret.

Em nome de Rabi Levi disseram: porque estavam embriagados por vinho.

O que aprendemos da tragédia dos filhos de Aharon é que as boas intenções não valem nada quando se age de forma errada. Como diz o ditado: “de boas intenções o inferno está cheio”. Quando nos dedicamos ao serviço divino e ao cuidado nas práticas das mitzvot estamos conectando nossas ações com o Divino e santificando-as, bem como santificando a nós mesmos, o Eterno e o povo judeu como um todo.

Não podemos fazer do serviço divino como um laboratório onde experimentamos qual a melhor forma que nos parece que devemos servi-lo. Em um relacionamento, quando queremos agradar nossos parceiros nos dedicamos a fazer as coisas que eles gostam e esperamos o mesmo da parte deles. Da mesma forma que quando rezamos ou celebramos nossas festas devemos fazer conforme o que agrada ao Eterno e não segundo nossos desejos ou movidos por políticas sociais (refiro-me ao ecumenismo, assimilação e etc) com a finalidade de agradar a sociedade.

Nos ensina Rambam[1] que a mitzvá dos sacrifícios nos foi dada para que por meio dela alcancemos a compreensão e o entendimento de D’us. As mitzvot são guias que nos levam a conhecer a D’us[2] (saiba mais). Ninguém que não cumpra seus mandamento não pode conhecer Sua vontade.

Quando Nadav e Abihu passam por cima das orientações de Moshe e definiram como deveria ser o serviço divino não apenas “ifsoku halachá lifnei rabô” (determinaram a halachá ante seu rabino) mas revelaram que suas intenções verdadeiras de agradar a D’us estavam submetidas aos interesses pessoais de servir independente do que se fora estipulado. Por isso está escrito na Torá que fizeram cada um por si mesmo. Pois na verdade o altruísmo deu lugar ao EGO.

O nosso foco não é este mundo e nem agradar ao homens. Certamente se cumprimos os mandamentos da Torá seremos temerosos santos guardiões da Torá e também seremos tolerantes com o próximo, com as ideias distinta da nossa. Também seremos compreensivos e piedosos com a dor alheia e nos dedicaríamos à confraternização mundial. Pois a Torá nos ensina tudo isso. Apenas que não deve ser da forma como nós pensamos mas sim na forma como a Torá nos ensina.

Shabat Shalom.

[1] Guia dos Perplexos 3:32

[2] Sefer Hamitzvot Lei 3

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