O caso Beilis — Uma acusação de assassinato ritual 

Portal - BeilisNo despertar do século XX, na Rússia czarista, um drama macabro, medieval, se abateu sobre a comunidade judaica. Já era um prenúncio da ferocidade de ucranianos contra os judeus durante o Holocausto, 30 anos depois, quando, como cúmplices dos nazistas, ajudaram o assassinato dos judeus da região.

Mendel Beilis, judeu de Kiev, capital da Ucrânia, foi preso e acusado de matar um jovem cristão por motivos religiosos.

Menachem Mendel Beilis nasceu em 1874. Na época de sua prisão, trabalhava como superintendente em uma olaria, em Kiev. Passara a juventude no exército russo e, nos 15 anos em que trabalhou na olaria, era o único judeu da vizinhança.

O drama de Beilis teve início em 20 de março de 1911, quando o corpo de um menino de 12 anos, Andrei Yushchinsky, foi encontrado mutilado em uma caverna, nos subúrbios de Kiev.

Um “prato cheio” para as forças reacionárias, que aproveitaram a ocasião para lançar sobre os judeus a medieval acusação de assassinato ritual.

Dois meses após o corpo do menino ter sido encontrado, Mendel Beilis é preso. A notícia da prisão de Beilis é levada ao conhecimento do Czar Nicolau II, que publicamente demonstra sua profunda satisfação por ter sido um judeu inculpado. O governo czarista queria “provar” que esse homem matara uma criança inocente para usar seu sangue em práticas religiosas.

O caso atraiu a atenção internacional. Milhares de pessoas ao redor do mundo, jornais, personalidades eminentes, inclusive dentro da própria Rússia, expressaram sua repulsa pela acusação.

Portal - Beilis 8Portal - Beilis 4Enquanto isso, a investigação policial indicava que o assassinato fora cometido por membros de uma gangue de ladrões associados a uma mulher, Vera Cheberiak, conhecida por seus crimes. Com provas na mão, a polícia os prendeu. No entanto, as forças reacionárias, lideradas pelas Centúrias Negras, bandos cavalarianos paramilitares armados, de forte tradição antissemita, pressionaram o ministro da justiça, para declarar que o assassinato havia sido perpetrado por “razões religiosas”.

O procurador chefe do distrito de Kiev desprezou as prisões da polícia e publicamente acusou Beilis e todo o povo judeu pelo crime hediondo.

Havia anos que o governo do Czar Nicolau II encurralado pela revolta popular de 1905, queria desviar a frustração das massas, convencendo o povo de que todos os “males da Rússia” eram causados pelos judeus.

Beilis-grupoPortal - 9Para acusar Beilis foi montada uma conspiração terrível que envolveu polícia, justiça e testemunhas falsas. A única “prova” contra Beilis era o depoimento de um acendedor de lampiões e sua esposa. O marido contara à polícia que, no dia em que o jovem desapareceu, tinha-o visto brincando com outros dois meninos nas dependências da olaria (durante o julgamento o casal desmentiu tais declarações).

Baseada nesse testemunho e forjando provas, a procuradoria montou a acusação. Documentos descobertos após a Revolução Bolchevique de 1917 nos arquivos particulares do Czar revelaram que, desde o início, as autoridades sabiam quem eram os verdadeiros culpados.

Os anos à espera de um julgamento

Os trâmites do processo arrastaram-se por mais de dois anos, pois a procuradoria sabia que não havia provas para sustentar a acusação.

Durante este período, Beilis ficou trancafiado em uma cadeia, sofrendo torturas e abusos. Todo tipo de estratagema foi usado pelas autoridades para descobrir algo incriminador. Um general russo visitou Beilis para alertá-lo de que o Czar poderia perdoá-lo bastando entregar os “verdadeiros culpados”, mas se teimasse em proteger Portal - Beilis 2a Nação Judaica, continuaria a Portal - Beilis 1sofrer. Beilis rechaçou a proposta afirmando que não queria ser perdoado, só queria sair da prisão quando sua inocência fosse provada.

O advogado que encabeçava a defesa, o lendário Oscar Grusenberg  sabia que o ataque da promotoria seria direcionado para o Talmud e as obras dos sábios. Portanto, cabia aos rabinos o conteúdo da defesa. O rabino Yaakov Mazeh, Rabino-Chefe de Moscou foi escolhido para instruir os advogados de defesa.

O julgamento

Portal - Beilis 7No dia 8 Portal - Beilis 3de outubro de 1913 teve início em Kiev o julgamento de Beilis. A acusação lida no tribunal afirmava que Menachem Mendel Beilis havia assassinado “juntamente com outras pessoas, até então não descobertas, por motivos religiosos, o jovem Andrei Yushchinsky”. O júri escolhido era composto por simples camponeses russos. O promotor chefe, Oskar Vipper, fez colocações contra os judeus em seu discurso e defendeu a gangue de Cheberiak do assassinato de Yushchinsky.

Portal - Beilis - corrigido2No tribunal, várias testemunhas atestaram a integridade e a honestidade de Beilis. Outras depuseram apontando Vera Cheberiak como a culpada. O acendedor de lampiões e sua esposa, cujo testemunho tinha causado a prisão de Beilis, quando questionados pelo juiz sobre o que haviam visto, responderam: “Nada sabemos”. Confessaram que, na ocasião, estavam embriagados e foram confundidos pelos policiais.

Duas autoridades russas da Bíblia e do Talmud ao serem indagados sobre os rituais judaicos responderam que segundo a lei judaica era proibido o derramamento de sangue de um ser humano, assim Portal - Beilis - corrigidocomo ingerir sangue animal. Ambos atestaram sobre a honra dos valores judaicos, rechaçando as acusações da promotoria.

O júri, depois de várias horas de debate, declarou Beilis inocente, por unanimidade.

Beilis, que ainda permaneceu em perigo, ameaçado pelas Centúrias Negras, mudou-se para Israel com sua família. Em 1920, mudou-se para os Estados Unidos onde fixou residência. Veio a falecer em 1934.

Em 1968 foi lançado o filme The Fixer (“O Homem de Kiev” em português) dirigido por John Frankenheimer e estrelado por Alan Bates, indicado ao Oscar, e Dirk Bogarde, baseado na história de Beilis. O filme é muito bom. Veja abaixo.

O Homem de Kiev – filme completo legendado em português

 

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