holocaust-survivor

Página em branco… Um mundo de possibilidades. Um desafio, uma oportunidade… Um jeito de enrolar até ver se a inspiração chega… Não chegou. Então vou fazer o que tenho feito ultimamente, colocar no papel o que me passa pela mente. Não é fácil… Não sou daquelas pessoas práticas, lógicas, que tem uma linha linear de raciocínio. Para dizer a verdade, eu mesma me perco facilmente… Na estação central do meu trem de pensamento, tem baldeação para todos os lados e, principalmente, para o passado…

E olha só o tal trem partindo, lá para trás… Lembrando, elucubrando…

Sem ter com quem me deixar, minha mãe às vezes me levava com ela para o escritório e me dava papel e caneta para que eu me distraísse e não a atrapalhasse. Mas não funcionava muito. Afinal, sempre precisei da validação dela…  De cinco em cinco minutos ia mostrar meu desenho. “O que é isso?” ela perguntava, sem saber que eu ainda não sabia que desenhos poderiam ser “interpretados”… Para mim era óbvio que aquela coisa era ou um cachorro, ou um carro, ou uma pizza. Afinal, nunca fui menos do que explícita nos meus desenhos. Tá, hoje eu sei que era péssima desenhista, mas, aos sete anos, poderia muito bem ter sido uma pequena Picasso, fosse minha mãe mais dada ao abstrato…

Deixei o desenho de lado e escrevi, no mesmo dia, minha primeira poesia… Algo entre construtivista e parnasiana. Uma obra lúdica… Era algo assim como “tchoc, tchoc, tchuc você vai. Ttchoc , tchoc, tchuc, você vem. Tchoc, tchoc, tchuc, espera papai, eu quero ir também”…

Eu hein! O que vocês esperavam? O que não entenderam com “aos sete anos”? Sei… Todo mundo é crítico…

Enfim, sempre muito ocupada, minha mãe bateu o olho, pegou uma caneta e fez um circulo nas palavras que eu tinha escrito de maneira errada e me devolveu para que eu corrigisse. Saí meio envergonhada e estava prestes a abrir o berreiro, magoada, quando a chefe dela me parou no meio do caminho e quis ver o que eu tinha na mão. Senti minha mãe me fuzilando com o olhar…

Aquela senhora alta, que falava peremptoriamente com um sotaque carregado, leu o meu poema até o fim, arqueou uma das sobrancelhas (eis aí algo que nunca consegui fazer, arquear só uma das sobrancelhas. Quantas coisas podem ser ditas com esse gesto!) e perguntou: Foi você quem escreveu? Olhei lá para cima, para o rosto dela que me parecia ficar a quilômetros de distância e maneei a cabeça. Ela dobrou o papel, me devolveu e disse: Está bem, vá para o seu lugar e não atrapalhe mais sua mãe, ouviu? Ótimo, pensei, não só levo bronca da minha mãe, como agora levo bronca da mãe de todo mundo! E voltei para de onde eu achava que nunca devia ter saído, para espanto geral.

Explico: É que eu sempre fui meio respondona, sabe? Menos para a minha mãe. Para minha mãe não. Claro, excetuando-se naquela fase estranha em que todos encarnam o “taxi driver” e, prontos para a briga, ficam perguntando para o espelho e para o resto do mundo “você está falando comigo?”, aquela fase que o pessoal chama de “adolescência”… Mas, em geral, só minha mãe obtinha uma vitória sem muitos debates. Ninguém, além dela, mandava em mim. E, no entanto, quando aquela senhora disse “vá para o seu lugar”, eu fui.

Acontece que aquela era uma das “senhoras tatuadas” da minha vida. Havia várias delas a minha volta quando eu era criança. Aquelas, de tatuagens meio arroxeadas, meio azuladas, só com números…

Eu não consigo lembrar, por mais que tente, quando fiquei sabendo ou quem foi que me contou o que elas significavam. Por sorte, ninguém da minha família com quem eu tivesse contato direto tinha uma, mas eu intuía o que aqueles números representavam. Não sei por que, mas parece que eu sempre soube o peso daquela tatuagem na história de todo mundo. Eu sabia então, como sei hoje, que não se desrespeita uma tatuagem como essa. Não se subestima alguém com uma tatuagem como essa.

Uma semana depois do episódio do poema, minha mãe chegou com um embrulho. Um presente da dona “Margarida italiana” para mim. Margarida era o nome daquela senhora, e “italiana” era para diferencia-la das outras Margaridas, mas para mim era nome e sobrenome. Era um livro de contos italianos. Histórias de crianças do começo do século XX. Lindo! Ilustrações belíssimas. A dedicatória: “Nunca pare de criar, você é uma artista”.

Ok… Eu achava que artista era quem fazia arte. Achei esquisito, porque ela não tinha visto meu desenho, mas sim meu poema. Achei então que ela quisesse que eu fizesse desenhos como os do livro… Dona Margarida Italiana entendia das coisas!!!

Que? Estou escrevendo o que aconteceu e não o que deveria ter acontecido. Foi um gesto lindo o dela, eu sei, e eu gostaria de dizer que aquela mulher, ao mesmo tempo dura e sensível, foi inspiradora da minha obra. Mas não, nem obra eu tenho, pelo menos não ainda… Mas algumas coisas sim aconteceram por causa disso.

A primeira é que minha mãe me olhou de uma maneira estranha por algumas semanas, tentando ver, acho, o que aquela mulher que ela admirava tanto tinha visto na caçula espoleta dela. Foi minha mãe que, com calma, explicou que não eram as ilustrações que eu deveria fazer e sim escrever… Dona Margarida Italiana entendia das coisas, dona Rosa, minha mãe, entendia de mim…

A outra coisa que aconteceu foi que li os contos do livro. Em todos eles as crianças ou seus pais morriam. Eu ainda estava tentando entender porque não tinha pai e, de repente, fui confrontada com a hipótese de que minha mãe também pudesse morrer. Tempos difíceis esses antes dos avanços da psicologia infantil… Adivinha? Parei de escrever. Acho que liguei uma coisa com a outra, sei lá… Bom, na verdade, parar de escrever não parei nunca, parei foi de mostrar para as pessoas. Só comecei a fazer isso de novo aos poucos, quase 20 anos depois…

Assim, momentaneamente afastada da “literatura”, resolvi fazer “escola de esporte”. Pois é! Eu!

Infelizmente só tinha esse tipo de coisa no clube, longe da minha casa e minha mãe tinha que trabalhar. Sem poder me levar ou buscar no meio da tarde e sem querer me decepcionar, ela então optou pela alternativa mais viável… Aulas de Piano… Claro que não foi bem assim, mas foi o que entendi na época…

Ela procurou uma professora no bairro… Achou a professora Susana… Alemã! Alemã Alemã, não “judia alemã”, se vocês me entendem…

Pois é, eu passei a ter aulas na casa dela. Coitada. Uma senhora muito agradável, cuja mãe fazia os biscoitos mais deliciosos que eu já comi. Biscoitos estes que eu só experimentei quando a filha comeu também, na minha frente… Vai saber…

Realmente, certos livros não deveriam ser deixados ao alcance de crianças pequenas. Aos oito anos eu sabia talvez demais sobre campos de concentração, campos de extermínio e torturas e uma delas, eu achava, podia muito bem ser obrigar uma criança a decorar solfejo.

Foram maus bocados… Pra ela, não pra mim. No começo, eu não deixava nem que ela trancasse a porta da casa dela durante as aulas!… Aliás, não só por ser míope como por ser uma idiota completa, eu decorava onde ela colocava as mãos para poder tocar sem olhar a partitura e poder vigiar a porta em caso de necessidade de fuga…  E vocês achando que ter imaginação era o máximo, né?

Nossa relação durou algum tempo e, conforme fui crescendo, parei com essas idiotices todas. Também parei de me dedicar ao piano. Eu realmente gostava mais dos biscoitos do que de minuetos. Despedimo-nos como amigas, depois de um concerto que toquei em rotação acelerada para poder sair do palco mais rapidamente. Vexame geral. Primeira e ultima vez que minha mãe obrigou a família a assistir qualquer coisa minha.

Poucos anos depois, fui ajudar minha mãe no trabalho. Quando acabei minha tarefa, desci para esperar por ela. Na sala, no canto, um piano solitário… Abri a tampa e comecei a tocar. Nada do que tivesse aprendido com a senhora dos biscoitos… Quem é que lembra da  lição decorada depois da prova? Não… Toquei uma música que tinha na cabeça. Toquei com vontade, com o coração…

Com vontade, com o coração e também com um andar pesado, minha mãe desceu correndo as escadas para me dar uma bronca por atrapalhar a reunião lá em cima.

Aposto que vocês estavam de novo esperando um daqueles momentos de sessão da tarde… Não… Não funcionou bem assim para mim… Mas até que chegou perto… Quase…

Atrás da minha mãe, vieram várias outras senhoras. A maioria olhando feio. Exceto uma, cuja expressão eu não consegui definir. Essa mulher chegou perto de mim e disse: Quem deixou você tocar? Ninguém, respondi. Toquei porque tive vontade (respondona, lembram?). “Você sabia que se a pessoa não sabe tocar pode desafinar o instrumento?”, ela disse. “Sabia que o que desafina mais é a falta de uso? Sabia que eu sei todas as notas que estão fora do tom e elas já estavam assim quando eu comecei a tocar e que eu mesma disse para a secretária chamar o afinador?” (Nojentinha eu, né?).

A mulher arqueou as sobrancelhas… (O que rola entre senhoras de idade e sobrancelhas? Este é um mistério que não estou ansiosa em desvendar…) Ela me olhou tão intensamente que eu estranhei e então se aproximou, esticou o braço, fechou a tampa do piano e me disse que não atrapalhasse mais a reunião.

Acompanhei o movimento com os olhos e adivinhem? A tatuagem…  Ali, no pulso. Droga… Eu e minhas respostas prontas idiotas… Estava comprovado, eu era a pior pessoa do mundo. Fui pra casa muda. Minha mãe ainda dando bronca, eu me reprendendo internamente de maneira muito mais contundente…

Passa uma semana, minha mãe chega do trabalho e me chama. Eu tentando inventar já as desculpas para seja lá o que ela tinha descoberto que eu fizera ou pelo que deixara de fazer… Difícil escrever sem tema, mais difícil ainda é inventar uma desculpa específica quando não se sabe ainda qual é a bronca.

Quando eu cheguei, minha mãe estava com aquele olhar esquisito de novo,  aquele mesmo de anos antes… Olhar que hoje eu poderia dizer que era um misto de curiosidade e esperança…  Oba, pensei, estou livre do castigo!  Sabe aquele ditado horrível “não sei porque estou batendo, mas você sabe porque está apanhando?”… Não, minha mãe não me batia. Coitada… Mas, com relação a broncas, o ditado me servia direitinho. Ainda estava respirando aliviada quando ela disse: A concertista Sofia quer dar aulas para que você possa entrar no conservatório! Ela vai dar aulas de graça e pagar as mensalidades até você se formar! Ela quer nos encontrar amanhã para comprarmos um piano para você!

Que tom era aquele na voz da minha mãe? Que coisa mais estranha! Em primeiro lugar, quem era Sofia? Em segundo, aliás, segundo não, primeiro mesmo, porque eu não estava nem aí para quem era Sofia… UM PIANO PARA MIM! Ok, todos vocês aí, achando que a ênfase era no “piano”… Isso porque, provavelmente, vocês não são a caçula de 5 irmãos… O que me pegou mesmo foi o “para mim”…

Gente, de novo, não, eu não abracei minha mãe e choramos juntas pela oportunidade única que batia à nossas portas. Pelo futuro brilhante que eu teria como concertista… Alguém aí já ouviu falar de mim? Pois é, obviamente minha mãe não pode se orgulhar de mim por isso também… Cheguei sim a ter aulas com a professora/concertista Sofia. Uma mulher extraordinária. Aquela, da tatuagem, a que fechou a tampa do piano e me olhou tão intensamente. Ela bem que tentou, mas, ao final, teve que reconhecer que eu era um caso perdido. Ela gostava muito de mim, e eu dela. Formamos um elo quase de amizade, dentro dos limites que uma diferença de idade de cerca de 60 anos pode permitir… Mas, sabiamente, ela decretou: A única coisa maior que o seu talento é a sua indisciplina. E também saiu da minha vida.

A essa altura, se é que leram até aqui, devem estar pensando ou esperando que eu tenha algo mais a dizer do que as minhas experiências frustradas… E não é que dessa vez acertaram?

Ao contrário do que fiz parecer, o texto que fala basicamente de mim, não é, pasmem, exatamente sobre mim. Entendo o engano. Quando comecei, também achei que fosse. Não, esse texto que comecei meio displicentemente, a procura de inspiração, não é absolutamente sobre mim ou sobre minhas derrapadas em busca de um propósito na vida. Não, na verdade o texto é mesmo, de certa forma, sobre essas duas mulheres. Uma que era escritora (e não é que a dona Margarida era escritora na Itália, antes da guerra? Soube disso décadas depois dela ter falecido) outra que era concertista famosa antes mesmo de eu saber soletrar concertista. Não sei se elas chegaram a se conhecer. Em comum, que eu soubesse, tinham a arte, a força, a determinação e, sim, a tatuagem…

O que pareciam cenas de especial da tarde, tanto a de uma dando um livro inspirador para uma criança quanto a da outra, se propondo para ser tutora de uma pré-adolescente, podem parecer estranhas agora, em uma época em que felizmente não existe mais tanta urgência e as pessoas parecem se preocupar pouco com o que existe além dos próprios umbigos. Mas, para essas mulheres, e para milhões como elas que sentiram a loucura na pele, ou melhor, que carregaram na pela a prova da loucura em sua forma mais sórdida, a vida era sim uma dádiva, um presente que precisava não só ser saboreado, mas merecido. E cada momento, vivido em sua plenitude.

Todos os dias são uma oportunidade única a ser aproveitada e isso elas tentaram ensinar para todos que estivessem dispostos a ouvir. Talvez eu não tenha compreendido, na época, o presente que elas tentaram me dar. Ou talvez eu tenha, na verdade, compreendido, mesmo em tenra idade, que o presente maior foi ter convivido com essas mulheres magnificas, e com muitas outras pessoas, homens e mulheres, sobreviventes, lutadores, perpetuadores de uma identidade que tentaram apagar.

E aí, quando sorrateiramente o meu trem de pensamento abandona o passado e vem, vagarosamente para o presente, o que embarca nele é um pouco de revolta. Sim, revolta… Nem vou tocar no assunto dos que negam o holocausto. Estou falando de algumas pessoas, de políticos que apareceram recentemente na TV, dizendo-se vitimas de perseguição, comparando uma investigação policial com a perseguição aos judeus durante a Segunda Guerra.

Pois é… Eu pensei tantas coisas sobre isso… Nem sabia o quanto tinha me perturbado. E, no entanto, perturbou tanto que, querendo pensar em um texto não relacionado, acabei pensando nisso de novo. E ainda penso… Por exemplo, penso que já sabia aos sete anos, e todas as pessoas que eu conhecia também sabiam muito bem, da afronta que seria e ainda é fazer tão absurda comparação. Penso que usar uma palavra como “nazismo” de uma maneira tão leviana é, no mínimo, tentar acabar um trabalho que nem os nazistas foram capazes de realizar. É enlamear a história de sofrimento e de luta de pessoas realmente maravilhosas como essas mulheres da minha infância, é ofender a memória de milhões de pessoas. É ofender um povo, aliás vários povos, e é ofender a mim, pessoalmente. Vergonha, senhores, muita vergonha de vocês e de suas patéticas desculpas esfarrapadas. Para mim, uma comparação como essa, por si só, já os torna culpados, se não do que são investigados, com certeza de ignorância, e provavelmente de covardia…

Agora percebo onde queria chegar… Olha só, nem eu sabia… Aparentemente, nem tudo muda… Raramente escrevo poesias, menos vezes ainda dedilho algo no piano… Mas em uma coisa não mudei muito… Continuo respondona…

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