Toda hora eu falo do difícil que deve ser para as crianças e adolescentes de hoje em dia crescerem assim, tão expostos. Se não são as câmeras por todos os lados, são os amiguinhos filmando e postando tudo que o colega faz nas mídias sociais. É uma enxurrada tão grande de informações, desinformações e cliques que não me espantaria se crianças de sete anos já estiverem tomando remédio para artrite, síndrome do túnel do carpo e sei lá mais o que.

Não deve ser fácil…

Pois é… Mas sabe o que é infinitamente pior do que crescer nessas condições? Envelhecer…

Eis aí uma coisa que definitivamente não nasci sabendo… “Envelhecer”… Confesso que não tenho o menor talento para a coisa. Envelheci absolutamente contra a vontade e só decidi assumir porque, bom, porque a Fátima Bernardes falou isso em rede nacional! Sério! Ela falou! Escancarou para o mundo que eu estou ficando velha!

Tá bom… Não foi exatamente com essas palavras… Ela não chegou perto da câmera, olhou pra dentro e disse especificamente “Carla, mulher, você está velha!”. Não foi isso… Claro que não. Ela nem me conhece! E eu também não a conheço… Ao contrário do que minha irmã diz, eu não sou paranoica e não acho realmente que as pessoas da TV falam comigo ou sobre mim (de novo, aquilo foi um mal entendido!)… E não, não acho que só porque assisti ao programa dela da minha sala de estar que ela esteve realmente em minha casa e muito menos que isso significa que nós somos “BFF”…

Então, você deve estar pensando, do que raios esta senhora está falando?

Bom, em primeiro lugar, não precisava colocar “senhora” aí na frase de cima, foi completamente desnecessário… Eu estou escrevendo aqui, me expondo, você está aí, lendo, não tem necessidade dessa formalidade toda e, vamos combinar? Isso não ajuda em nada com relação ao lance do me sentir “velha”. Em segundo lugar, calma! Vou explicar…

Nada contra ao programa da Fátima Bernardes ou a apresentadora, imagina…  A verdade é que não tenho por hábito assistir o programa dela apenas porque, normalmente, estou trabalhando ou fazendo outras coisas nesse horário. Mas não naquele dia.

Naquele dia me deu na veneta ficar em casa e ligar a TV, só para ouvir o barulho, sabe? Assim, sem maiores intenções. Não aumentei, não mudei. Apenas liguei. Mesmo porque liguei e fui para o computador e como quebrou o controle remoto, já viu né? Aqui é assim…  Falta de controle remoto significa “Guerra” entre meu marido e eu, ambos lutando bravamente para que o outro seja o que vai se levantar e ficar mudando de canal até achar algo que interesse aos dois.  Por enquanto sem ganhadores… Agruras da vida moderna… E, falando em “vida moderna” finalmente chegamos ao ponto de como a Fátima Bernardes me chamou de velha!

O programa, pelo que entendi, falava de coisas antigas e modernas e, para “ilustrar”, ela trouxe um ator da Malhação e o avô dele, para perguntar coisas sobre uma série de objetos divididos nessas duas categorias. Bom…

Ela perguntou se ele sabia para que servia o número 130, da telefônica; mostrou um vídeo cassete, ficou tentando explicar para o menino o que era “rebobinar” e mais um monte de coisas, todas elas parte da minha vida adulta… Depois declarou, sem nenhuma provocação da minha parte, que todas eram “muito antigas”!…

Como assim, “muito antigas”? Eu me lembro de tirar sarro da minha mãe, que não conseguia programar o vídeo, e se isso não foi ontem, foi anteontem…

Eu sei…, no caso, esse “anteontem” foi há mais de 20 anos…

Ok! Não estou gostando muito do rumo deste texto…

É o seguinte, Dona Fátima (que? Você pode me chamar de antiga e eu não posso chamá-la de “dona”?), eu me lembro da senhora (dói, né?) usando a mesma calça que eu. Isso mesmo! Ninguém me falou não, eu vi! A senhora estava vestindo uma horrorosa calça bag, igualzinha a que eu usava e estávamos ambas nos horríveis, em termos de moda, começo dos anos 90.

Ok… Não lembro onde foi exatamente… Você sabe, minha memória não é o que costumava ser quando era jovem… Ei!

Pronto, já era. Agora que eu mesma declarei, dessa vez em site internacional, vai ficar difícil negar… A Fátima tem razão… Estou mais para avó do que para neta e isso já faz algum tempo.

Mas tudo bem, até gosto de ser dessa geração de “transição”, de uma época em que bandido e polícia todo dia na rua era apenas uma brincadeira, de saber o que é rebobinar e ao mesmo tempo como usar um aplicativo (os poucos que eu sei, é claro). Está certo que os filmes cuja pré-estreia eu assisti no cinema hoje passam na Sessão da Tarde, mas, por outro lado, olha só, pode não ter sido em 3D, mas eu também fiquei na fila para assistir Star Wars, então, acho que tudo bem.

Dizem que não existe realmente algo como “a minha época”, que a “época” de uma pessoa é aquela em que ela está viva, do começo ao fim. Então, vejamos, cheguei a ver o Chaplin receber um Oscar pelo conjunto da obra. o que me faz contemporânea de alguém do final do século 19…  OK, sem comentários, vamos continuar… Hoje “Bin Laden” é nome de MC, que, aliás, eu achava que era a sigla de “Mestre de Cerimônias”, mas, tudo bem, está tranquilo, está favorável…

Parece que não estou me saindo muito bem em tentar provar minha contemporaneidade…

Vou tentar de novo, aproveitando esse clima de olimpíada…

Eu vi o Micha derramar uma lágrima em Moscou e vi a tecnologia e arte combinados para fazer a abertura dos jogos de Pequim… O Paul McCartney? A esse é de todos os tempos, até eu sei disso! Sim, fiquei emocionada com o Mohamed Ali acendendo a pira, e sim, ele já morreu. E o cara com Jet Pack? Será que ele sabe dirigir o carro que anda sozinho? Eu? Eu tive vontade de socar o painel da primeira vez em que cheguei a uma encruzilhada no meio do trânsito e aquela voz disse “recau, reca, recaucu, recalculando…”. Quase pude entender porque meu marido às vezes fica tão nervoso quando dou palpite enquanto ele dirige. Veja bem, eu disse “quase”… Digamos assim, ninguém jurou amar e respeitar o Waze…

Enfim, não acho que eu esteja velha, só estou aqui por mais tempo do que algumas outras pessoas e menos que outras. Deve ser por isso que se chama meia idade. Estar na meia idade é poder olhar nas duas direções e encontrar algo que me seja familiar… Isso não é nada ruim…

Além do mais, o que não tem remédio, remediado está e este sim é um dito popular muito antigo, mas que é sempre atual.

Eu queria ser como a Nádia Comaneci, mas sou espectadora e não espetáculo, e desse papel que me coube, eu vi também a Daiane dos Santos virar comentarista no que me pareceu apenas um segundo depois dela mesma ter tirado 10 no solo.

Pois é… Ter certa idade é poder recorrer ao seu próprio banco de dados e imagens, onde todos esses acontecimentos se sobrepõem, e poder acessar de olhos fechados não só os feitos, mas às vezes reviver o que eles me fizeram sentir.

Falando em “imagens”, consigo entender todas as referências feitas pelo personagem “Dean”, do Supernatural, ao mesmo tempo em que assisto todos os episódios de Game of Thrones e The Big Bang Theory. Ok, isso talvez me faça mais nerd do que velha, reconheço, mas “nerd” e “geeks” são atemporais. Ponto para mim!

A cada dia que passa, me torno mais “veterana da vida”… É, acho que prefiro “veterana” a “antiga”, se você não se importar, “Fá” (porque agora já somos praticamente íntimas…). Na verdade, eu queria mesmo era ser chamada de “Clássica”, mas quem estou querendo enganar? Se você preferir, pode me chamar de “vintage”…

Quer saber a verdade, Fátima, cá entre nós? Depois do choque inicial, devo admitir que você tem razão. Aquelas coisas todas que você mostrou, e muitas, muitas mais, inclusive eu, aliás… Tudo é sim um pouco antigo… Mas sendo ou não “vintage”, “clássica”, “de meia idade”, “veterana da vida” ou “antiga”, o que realmente sou é igual a todo mundo, a soma dos meus erros e acertos, do que eu li e vivi, do que aprendi e do que ainda estou disposta a aprender. Da graça que vejo nas coisas, do jeito debochado de levar tudo a sério. E é isso, essa disponibilidade para aprender, que me mantem atual, assim como a você, arrisco dizer…

A verdade é que me diverti com o programa e, no fundo, não ligo (tanto assim) de ser antiga. Afinal, como eu disse, sou a soma de várias coisas e o simples passar do tempo não define nem a mim nem a ninguém. O que importa são as experiências, viagens e aventuras que tive, e todas que ainda tenho vontade de ter. São as bobagens que falo, as verdades de calo e tudo, mas tudo mesmo que ainda quero aprender… (A começar por publicar essa crônica no site eu mesma, isso é o que eu quero ver… ).

http://portaljudaico.com.br/vendoo/uploads/2016/08/velha.jpghttp://portaljudaico.com.br/vendoo/uploads/2016/08/velha-150x150.jpgCarla SpachELOCUBRAÇÕESToda hora eu falo do difícil que deve ser para as crianças e adolescentes de hoje em dia crescerem assim, tão expostos. Se não são as câmeras por todos os lados, são os amiguinhos filmando e postando tudo que o colega faz nas mídias sociais. É uma enxurrada tão...Comunidade Judaica Paulistana