“Ninguém pode construir em teu lugar as pontes que precisarás passar para atravessar o rio – ninguém, exceto tu.” Nietzsche

 

Essa semana participei de um sessão de psicodrama onde o tema foi: O Medo.

Um grupo de aproximadamente 35 pessoas e para minha surpresa, metade dos participantes eram homens, algo inimaginável há apenas alguns anos atrás. Confesso que sai de lá bastante perturbada afinal muitas pessoas ali vivem, ou melhor sobrevivem a uma vida muitíssimo limitada em função de seus medos. Quem não?

Podemos aqui discorrer sobre a origem do medo, começando pelo parto, o medo do escuro, o homem das cavernas, o medo da morte, enfim são tantos mas o fato é que temos medo e não estou falando sobre o medo físico – como o medo que você sente quando uma arma é apontada para você, onde o medo faz todo sentido. Esse é o lado positivo do medo, nos protege, nos fez chegar até aqui, nos agrupou, pelo medo ficamos mais atentos, evitamos situações que possam nos expor ao risco de perdermos nossa vida, mas convenhamos não é esse medo que nos interessa. Estou falando do medo que paralisa, que impede o indivíduo de evoluir.  Medo de falhar. Medo da solidão. Medo de ser julgado. Medo de falar em público. Medo de voar. Medo de altura. Essas fobias irracionais constituem verdadeiros obstáculos à realização pessoal, nos impede de seguir em frente, nos impede de viver com toda plenitude que a vida merece ser vivida.

Nesse grupo, nenhum dos 35 participantes trouxe um medo real, do tipo, fui diagnosticado com uma doença terminal e portanto, tenho medo de morrer, moro num bairro violento, temo pela minha segurança e de meus filhos, entre outros. Os medos que mais surgiram foram os de fracassar, o da rejeição e da solidão. Muitos deles podem estar interligados mas vou falar um pouco de cada um, começando pelo medo do FRACASSO, pois confesso que me ronda toda semana antes de publicar essa coluna. Sempre releio inúmeras vezes, acho que tem erros de português, de pontuação, de concordância, afinal é algo novo para mim e o novo quase sempre nos dá medo não é mesmo?  Mas mesmo assim sigo em frente pois entendo que só há um jeito de superar, superando! Seguindo em frente, enfrentando possíveis críticas, de vez em quando sairá uma bobagem sim, ou um ponto de vista muito particular que pode não ser da maioria, e aí, esse não deve ser nunca motivo de desconforto. Talvez todos nós com medo do fracasso falta nos um pouco de humildade. Sim, pois as críticas deveriam servir como aprimoramento, quantos exemplos temos no mundo de pessoas bem sucedidas no que se propuseram a fazer que foram escrachadas nas tentativas anteriores e usaram isso como alavanca para chegarem no topo: Steve Jobs, Gisele Bundchen, só para citar alguns exemplos. Sim, sem críticas seguiríamos sem aprimoramento.  E por outro lado, se não concordamos com a crítica do outro, devemos lembrar que é apenas a opinião do outro, nada além disso. Esse medo do fracasso é aquele que faz você postergar tanto um novo desafio que quando vê alguém fez por você e está feliz da vida colhendo os frutos e você se lamentando que não colocou em prática essa ideia antes.  E aquele exemplo clássico, quando o professor fazia uma pergunta e nós tínhamos certeza da resposta mas com tanto medo de errar, ficavamos quietos, ai um colega respondia e o professor se mostrava encantado com a resposta e você super frustrado.  Esse é um medo infundado, e esse deve ser combatido, trabalhado inclusive com ajuda profissional. Ao falharmos, devemos ter a racionalidade de entender que foi uma falha e não que somos um ser humano falho. Essa falha não deve nos definir. O que geralmente acontece é que nossa ansiedade nos faz de fato falharmos e ai confirmamos esse viés e nosso medo aumenta e falhamos mais uma vez e isso confirma nosso medo…..ufa!!! E isso nos exaure e nos impede de uma vida plena.

Na minha pratica, vejo muitos pacientes com medo de perder o emprego, é muito interessante pois mais de 90% desses casos nunca, eu disse nunca, foram sequer demitidos uma única vez em sua vida. Aliás a maioria das pessoas com medo do fracasso, tendem a ser perfeccionistas e excelentes profissionais, claro o medo de fracassar o faz se cercar de todas as possiblidades, de todas as estratégias possíveis para que tudo sai perfeito, geralmente são profissionais adorados pelas organizações.

SOLIDÃO:  Um medo cada vez mais comum e que nos incomoda muito, afinal somos seres sociais. Desde os tempos remotos o homem sabia que viver em “bandos” era fundamental para sua sobrevivência. Mas hoje percebemos que a solidão, antes tão temida pelos idosos, é conversa corriqueira nas sessões de terapia. Como enfrentar esse medo? O que noto é que as pessoas  com mais receio da solidão são as que mais agem, mais se comportam de forma a ficarem solitárias de fato. Cobram muito, mesmo que de forma velada, cobram não só a presença, como sentimentos. Acham erroneamente que não seriam solitárias se tivessem mais dinheiro, se tivessem um companheiro, filhos presentes, irmão amorosos…nesse grupo que participei, 80 % dos que manifestaram o medo da solidão, eram casados, com filhos e boa situação financeira. Como assim? Pois é! Todos sabemos que ter um companheiro, filhos, dinheiro, não afasta a solidão. O que afasta? O que você faz de sua vida. O que você faz por você, para ser pleno? O que você faz para ser interessante? O que você faz para sua felicidade? Qual o sentido de sua vida? Pessoas plenas dificilmente se sentem solitárias. Vejo pessoas que fazem muito pelo outro, se dedicam quase que exclusivamente para o outro e esquecem de si mesmas. O que acontece, sem generalizar, muitas delas se dedicam sim mas de uma forma ou de outra cobram  retribuição e ficam muito frustradas quando não recebem. Ficam tristes e chatas e aí cobram mais e com isso mais isoladas ficam, e mais chatas e mais cobram e mais solitárias…Olha aí o círculo vicioso. O que faz uma pessoa não ser sozinha? As pessoas desejarem estar a nossa companhia. Primeiro, estarmos alinhamos com o que queremos da vida e buscando isso, sermos interessantes, saber escutar, ter empatia, abandonar qualquer  tipo de julgamento e entender que a solidão faz parte da condição humana e que se isso acontecer, que recursos você tem dentro de você para lidar com isso sem virar uma pessoa amargurada?

REJEIÇÃO: Quem não?

Todos nós já passamos por isso, rejeição pode vir de quem menos deveria, nossos próprios pais, família, colegas e mais comumente de alguém que nos relacionamos afetivamente. O ponto aqui é que quando acontece deveríamos rapidamente racionalizar e entender que se acontece não é porque você não tem valor, mas porque o outro não deu conta ou não quis estar com você naquele momento, naquela história, enfim… Você continua sendo você, um ser cheio de possibilidades, cheio de qualidades e também com pontos a melhorar e pode se aceitar incondicionalmente e se acolher, sempre que necessário. Que poder temos no “amar” do outro? Nenhum! Mas temos no nosso!

Normalmente pessoas com esse medo, costumam  perceber o mundo de uma forma polarizada. Eles acreditam que se não receberem atenção imediata e incondicional de alguém é por que esse alguém não gosta deles. Entenda que nem sempre os outros estarão disponíveis para você. Isso é natural, mesmo seu melhor amigo ou namorado (a) tem outras obrigações e necessidades. Isso não quer dizer que ele (a) não esteja interessado ou já não goste de você. Daqui para frente quando se sentir rejeitado (a) pare e reflita se você não está exagerando.

Outro ponto importante:  Discordar não é rejeitar! As pessoas podem não gostar de certos comportamentos ou características que você possua e ainda assim gostarem de você. Provavelmente o medo e preocupação com a rejeição está relacionado a algum trauma do passado, crenças psicológicas ou algo do tipo.  É nessa hora que você deve avaliar a possibilidade de procurar a ajuda de um profissional. Sim é claro que algumas vezes somos realmente rejeitados, isso acontece com todo mundo, alias você mesmo já rejeitou outras pessoas, não é mesmo? O que você não deve fazer é levar isso para o lado pessoal, e nem ficar culpando alguma característica sua pelo ocorrido: Ele não quis ficar comigo pois estou acima do peso, por que sou baixinha, por que estou desempregada, etc. Aliás para as mulheres que sofrem muito com isso, vale lembrar quantas mulheres belíssimas, beirando a perfeição já foram rejeitadas? Pensar coisas assim não vai solucionar o problema e ainda irão aumentar os seus sentimentos de inferioridade e auto estima.

Sobre tantas teorias da origem do Medo, a mais plenamente aceitada no meio acadêmico é que a origem está nos nossos Pensamentos. Ah o pensamento, essa entidade com vida própria que faz o que e quando quer, nos deixando totalmente a mercê dela. Feliz o homem que o controla!

Hoje existem diversas técnicas de controle desse “ser com vida própria” e cada vez mais pesquisas sendo realizadas com foco nesse tema. O que sabemos com certeza é que se a crença que alimenta nosso medo (os) não for eliminada, ela continuará alimentando nosso inconsciente, nos aprisionando. Afinal, quem pode dizer que é livre quando se tem medo. E como disse Charles Chaplin: “A vida é maravilhosa se não se tem medo dela”.

Procure ajuda de um profissional sempre que sentir que o medo o está impedindo de viver!

 

Magali

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