Yom-Hashoah

São 11:02 aqui em Israel

Escrevo com o peito apertado, com muitas lágrimas nos olhos e soluços.
O país acaba de parar por dois minutos. Todos os veículos param, as pessoas se postam em posição de sentido onde estiverem – atravessando a rua, na fila do mercado, no caixa do banco, dentro do ônibus. Ninguém se move. Silêncio.
Silêncio e dor. Durante dois infindáveis minutos soam sirenes por todo o país e a população homenageia seis milhões de Judeus mortos durante a segunda guerra ficando em silêncio que grita.

Por que morreram? Simplesmente porque nasceram Judeus. Ainda que tivessem se convertido, a máquina nazista os considerava Judeus.Não foram mortos por lutarem num exército inimigo, não morreram por opor-se a algum regime. Morreram por serem Judeus.

Não falavam a mesma língua – não importava se Gregos ou Tchecos, se Alemães ou Italianos, se Russos ou Líbios – bastava ser Judeu para ser condenado à morte sem julgamento, sem defesa, sem recurso, sem …

Nos dois minutos que acabam de acabar eu lembrei de meus avós que não conheci, de meus tios – oito deles – e seus cônjuges, de meus primos que nunca conheci e de quem sequer sei o nome.

Lembrei dos músicos e cientistas, dos vendedores de tecido e dos professores universitários, dos mascates e dos inventores, dos poetas e dos açougueiros, dos escritores e dos analfabetos que morreram porque tinham o Judaísmo como sua origem.

Lembrei das crianças arrancadas do colo de suas mães, atiradas ao alto para a diversão do tiro ao alvo, lembrei dos velhos que caiam pelo caminho pois não tinham força para seguir.

E chorei – chorei bastante – sem vergonha de fazê-lo ao lado de desconhecidos que, como eu, estavam em posição de sentido.

Mas junto com isto senti um tremendo orgulho de um povo que, tal como o fênix, se reergueu das cinzas, fundou um país moderno e pujante, inventou o waze e a medicina não invasiva, inventou o tomate cereja e a irrigação por gotejamento, inventou o celular e o pen-drive.

Este povo que tinha tudo para ficar chorando o passado se levantou e deu ao mundo, após tamanha atrocidade, músicos como Irving Berlin, Guershwin, Leonard Bernstein; cientistas como Aaron Ciechanover, Rita Levi Montalcini, Vitaly Guinzburg (todos premio Nobel); inventores como Denis Gabor, Yuval Neeman, Julius Lilienfeld; Filósofos como Iseah Berlin, Guershon Scholem, Abraham Herschel; cineastas como Steven Spielberg, Ben Stiller, Serge Gainsbourg e – principalmente – filantropos como Vidal Sasson, Edmond Safra, Samuel Klein.

Passaram-se alguns minutos, a emoção diminuiu mas o orgulho permanece.

Apesar de o pós-guerra ter gerado cerca de 4,500.000 de trapos humanos, famintos, destroçados física e emocionalmente, desterrados e empobrecidos, não existe nem sequer um Judeu em campos de refugiados, nem sequer um Judeu buscando vingança de seus opressores. O povo Judeu, como sempre na história, decidiu olhar para a frente, para o novo, para o desafio -e vencer. Trabalhar, desenvolver, contribuir para um mundo melhor..

As lágrimas de dor se transformam em lágrimas de orgulho.

http://portaljudaico.com.br/vendoo/uploads/2017/04/Yom-Hashoah.jpghttp://portaljudaico.com.br/vendoo/uploads/2017/04/Yom-Hashoah-150x150.jpgMarcos SusskindCRÔNICASSão 11:02 aqui em Israel Escrevo com o peito apertado, com muitas lágrimas nos olhos e soluços. O país acaba de parar por dois minutos. Todos os veículos param, as pessoas se postam em posição de sentido onde estiverem - atravessando a rua, na fila do mercado, no caixa do banco,...Comunidade Judaica Paulistana