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O Bud foi encontrado no momento em que o dono da mãe dele o deixava na rua com os irmãos, isso já falei. Mas como ele moraria na minha casa? Moro com meus pais, e minha mãe tem verdadeiro pânico de cachorro. Mas a paixão por aquele filhote foi tão grande que resolvi arriscar. Na época eu estava com a franquia da Lord Cão, e era muito estranho ser uma treinadora de cães e não ter meu próprio cachorro. Tava decidido: O Bud era meu e ninguém me impediria.

Peguei meus sobrinhos e a Tamy, na época com 5 anos, e fomos comprar o enxoval dele. Fiquei tão animada que comprei tudo em exagero, inclusive a cama. Como a gente não sabia o tamanho que ele ficaria, comprei aqueles redondos enormes. O Bud sumia dentro dele, mas amava. Brinquedos e ração, então, nem se fala, comprei para meses e meses de uso contínuo. E seguimos para minha casa.

Assim que entramos no meu quarto preparei o jornal para o xixi. O Bud foi fazer no chão, briguei, peguei no colo e coloquei o mocinho no jornal. No jornal aquela voz mansa, explicando que era o lugar certo e pasmem, ele nunca mais errou. Aliás, isso é surpreendente no Bud. Tudo que ele sabe aprende logo na primeira vez que está sendo ensinado. Demorei 6 minutos para ensinar os comandos básicos para ele. E as palhaçadas ele aprendeu rápido também.

Bem, ele ficava tempo integral no meu quarto e, mesmo que eu não estivesse com ele, era super silencioso. Meu pai ama cães tanto quanto eu, então foi meu comparsa na história de ter um cachorro escondido da minha mãe. Era nosso segredo, e ele adorou a ideia. Passava boa parte do tempo no meu quarto.

Alguns dias se passaram e conviver com o Bud estava cada vez mais gostoso, a inteligência dele me surpreendia. Na verdade até hoje ele aprende tudo muito rápido, mesmo aos 10 anos. Bem, esses dias passaram e eu achava que já era hora do Bud conhecer a rua. Numa dessas saídas aconteceu o inevitável, demos de cara com a minha mãe. O pânico tomou conta dela e dele, que não entendia por que ela gritava tanto. Falamos para ela que ele já estava em casa há dias e ela nem havia reparado, de tão bonzinho que ele era. A Tamy tinha 5 anos na época, e pediu para a vovó para ficar com ele de uma maneira que ninguém conseguiria negar. Minha mãe deixou depois de muita insistência, mas só caso ele não incomodasse. Ele nunca incomodou.

No começo mantive a porta do meu quarto fechada. Depois de um tempo comecei a deixar aberta, mas a vida do Bud era – e ainda é – o meu quarto, ele adora deitar na porta e ficar lá, de onde tem uma vista privilegiada pro resto do apartamento. Anda livre e tem acesso a tudo. Por várias vezes ele ia começar a caminhar pelo corredor e dava de cara com a minha mãe. Ninguém falava nada, ele decidiu sozinho que, cada vez que encontrasse com ela, simplesmente voltaria de ré até meu quarto, esperaria ela fazer o trajeto dela e seguiria em frente. Parecia questão de sobrevivência para ele. O Bud havia decidido não enfrentar minha mãe. Nem preciso dizer que ela achou o máximo isso.

O Bud sempre fez questão de ser bonzinho. Ele não é aquele tipo de cachorro que incomoda os outros quando os outros têm medo. Caso alguém tenha medo ele só fica por perto, com o olhar doce, e espera que o chamem. Se não for chamado vai se deitar e pronto.

Esse comportamento dele, além do fato de ele não fazer xixi nem cocô em casa desde a primeira vez que foi para a rua, acabou amolecendo o coração dela.

Desde então o convívio entre eles passou de improvável a amigável. Uma exigência do Bud, muito justa, é cumprimentar qualquer pessoa que chegue na minha casa, inclusive o grupinho de senhoras amigas da minha mãe, que se reúnem para um carteado. O Bud as recebe educadamente e, assim que minha mãe manda, ele volta para o quarto. Minha mãe nunca assumiu que gosta dele, mas já a ouvi falando com as amigas sobre o quanto ele é bonzinho, tanto que nem parece que tem cachorro em casa.

Outro dia eu cheguei e tinha queijo branco no chão do meu quarto. Eu odeio comida no quarto, é uma das poucas frescuras que eu tenho. Bem, todos os dias de manhã meu pai dá queijo branco para o Bud, então eu tinha certeza que ele havia levado para o meu quarto. Já saí reclamando, mas ele me garantiu que não havia dado nada. A minha mãe fazendo aquela cara de paisagem, só disfarçando. Aí descobri que tinha sido ela. O que ela não sabia é que o Bud não come nada do chão, a não ser que receba comando para isso. Fomos para o quarto e eu liberei para ele comer, ela ficou impressionada e isso foi mais um assunto sobre ele com as amigas dela.

Sei que o capítulo é sobre o Bud, mas já que falei que ele não pega nada do chão, vamos mostrar como fazer isso. Para o cachorro não pegar nada do chão você precisa trabalhar bastante com ele. Vai precisar de guia e petiscos. Você coloca o petisco no chão e, assim que ele for pegar, você dá um tranco e diz um “Não” bem seco. A maneira mais fácil é você estando agachado perto do petisco, e o tranco dado assim mesmo. Quando ele diminui a força para pegar o petisco você pega com a mão e dá para ele. É importante você não se esquecer de pegar com a mão, pois se você libera no chão o exercício fica sem fundamento. Depois você coloca a guia no seu cachorro, petiscos na mão, e sai andando pela casa. Então você “deixa cair” um petisco, finge que não vê. O cachorro vai querer pegar, você dá aquele tranco e segue em frente, faz a volta, passa pelo petisco e, se ele tentar pegar, mais um tranco. Não existe a quantidade de vezes que você vai repetir, mas assim que você se sentir à vontade faça o cachorro sentar, pegue o petisco e dê para ele. Refaça esse exercício quantas vezes você achar interessante. Esse treinamento precisa de muito tempo para funcionar, pois sempre há alguma coisa no chão que seja interessante o suficiente para ele esquecer que não pode pegar.

Lembre-se que esse treinamento é para cão de companhia, para nossos cães em casa. Quando o assunto é mais delicado, como cão de guarda e cães que correm o risco de comerem carne com veneno, jogada de algum vizinho irritado, aí o treinamento precisa da presença de um adestrador muito bom, pois nesse caso a melhor maneira de fazer o cachorro não pegar é na base do choque, ou seja, ele coloca um pedaço de carne com os fios preparados para dar um choque no cachorro. Precisa ser alguém que já esteja acostumado com esse treinamento porque a pessoa precisa saber exatamente o tamanho do choque, que na verdade pro cachorro não deve passar de um desconforto, mas grande o suficiente para ele preferir não pegar nada do chão.

O cachorro vive o aqui e o agora. Muitos donos não concordam quando falamos que o cachorro não destruiu o apartamento por ter sido deixado sozinho, e muito menos por raiva. Cães não têm esses sentimentos feios, isso é coisa dos humanos. Para o cachorro, a porta fechou, seu amado dono sumiu, e não aparece de volta. Ele começa a ficar inseguro, pois não faz ideia de quando o dono voltará, ou se voltará. Aí começa o stress. E qual a maneira mais fácil de aliviar o stress canino? Roendo coisas. E lá vai ele, roer mesa, cadeira, pano de chão, o que tiver ao alcance, ou o que ele conseguir alcançar. O tempo passa e você chega, ele vai te receber, mas, no mesmo segundo, você viu a bagunça e ele lê a sua postura corporal. Ele percebe que há algo errado. Ao escutar um monte de blá blá blá, mas o nome dele no meio, ele percebe que o problema é ele. Mas ele não entende o que houve, nem o porquê da sua fúria. Por via das dúvidas, o melhor é ficar quietinho, se esconder em algum lugar inalcançável, e se transformar num camaleão para se disfarçar de qualquer coisa, menos de cachorro culpado.

O Bud nunca destruiu nada aqui, mas ele ficava no meu quarto, e quase sempre acompanhado. Ele percebeu que cada vez que eu saía, deixava um petisco para ele e, em alguns minutos voltava. Aumentava o tempo fora e, em pouco tempo, ele percebeu que a porta fechava, eu sumia, mas sempre voltava. E ainda por cima ele recebia um petisco quando eu saía. Depois de algum tempo, quando ele começou a ter acesso ao apartamento todo, percebeu que o mesmo acontecia. Eu podia até demorar um pouco, mas sempre voltava para ele. Agora fala sério, tem coisa mais gostosa que ser recebido pelo cachorro? É impressionante como eles demonstram que a felicidade existe quando a gente chega. Ninguém, por mais saudade que esteja sentindo, consegue receber a gente melhor que nosso cão.

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