– Seu Mateus, por favor conta uma mentira!
– Agora eu não posso. Tenho de procurar meu passarinho que fugiu de casa com gaiola e tudo!

Eu nasci em 1949 e já já você saberá porque isto é importante. Por volta de 1966 ou 1967 começaram a me contar algo que eu tomei como certo até a semana passada.

As pessoas me diziam que valia a pena esperar, que a sensação seria maravilhosa, que eu ficaria maravilhado. E eu – durante todos estes anos ( e lá se vão cerca de 52 anos) – eu acreditando, esperando, imaginando, sonhando.

Nos devaneios juvenis eu imaginava que eu flutuaria no ar. Mais tarde, já com menos ilusões, achava que seria algo inesquecível, um acontecimento marcante – bastava esperar.

Os anos iam passando e eu só esperando. Claro, até os cinquenta a gente acha que a velhice é tão distante que nunca chegará, então o que eu hoje chamo de “A Grande Mentira” era um evento imaginário, distante no tempo e no espaço, algo inatingível. Mas os amigos não deixavam esquecer. Chega então o dia que a gente completa os cinquenta anos, o tempo acelera a passagem e chegamos aos sessenta. Todo mundo continua batendo na mesma tecla e a oportunidade não chega. Mas agora a sensação de que aquela promessa vai se cumprir começa a ser mais possível e a gente fica pensando que falta pouco. O grande dia vai chegar. Ei-lo, ali, na virada da esquina.

No ano passado eu comecei a por mais ênfase na imaginação. Afinal todo mundo falava e repetia, quase como um mantra, que seria gostoso, seria diferente, sensacional, inesquecível. A mente ficava colorida só de imaginar como seria.

E aí chegou o dia. Foi na semana passada. Me iludiram. Uma mentira. “A Grande Mentira”.

Sim, meu amigo, sim minha amiga. Eu finalmente fiz 69 e não foi nada diferente de quando fiz 68, 67, 66 …

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