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Esse assunto é bastante delicado, pois envolve mais do que a criação. Quando você se dispõe a receber um novo cachorro em casa podemos ter situações distintas:

Cachorro novo numa casa sem cachorro

Se o cachorro novo já é adulto e tinha dono, ele já vem com comportamentos e rotina enraizados. Nesse caso o melhor é tentar seguir a rotina que ele tinha. Mas não mude totalmente seu ritmo por causa do cachorro. Lembre-se que o cachorro se molda muito bem a novas situações. Claro que ele prefere seguir sua rotina, mas ele se adapta. Se ele vem de uma ONG ou feirinha de adoção é mais fácil, pois qualquer coisa é melhor do que a vida que ele teve até o momento que encontrou você. Ele fará qualquer coisa para se adaptar, para te agradar e viverá ao longo da vida totalmente agradecido pelo que você fez. Ele jamais esquece, e o olhar de um cachorro resgatado é emocionante, verdadeiro, chega a doer de tão lindo. Normalmente a adaptação dele é feita como se faz com um filhote. Só temos que tomar muito cuidado pois, na maioria das vezes, esses cães chegam em casa com muito medo de tudo, e nesse caso a palavra chave é paciência. Sim, paciência, tranquilidade e calma para trabalhar com esse cão e não acontecer de, sem querer, estimular esse medo.

Cachorro novo numa casa com cachorro

A apresentação deve ser feita em ambiente neutro. Eles devem brincar e o novo cachorro tem que saber que o antigo, mesmo que mais novo ou menor, é o líder. Quando forem para casa, o antigo vai entrar antes, mesmo que o novato se esgoele na coleira para passar, não deixe. A tendência é ele aprender tudo com o antigo. Para evitar brigas e desentendimentos utilize a técnica da hierarquia. Sempre o mais antigo come antes, recebe carinho antes, passeia um pouco mais na frente e, caso tenha alguma briga entre eles, tente não se meter. Só entre no meio se a situação ficar grave, se você perceber que um deles está se machucando. E mesmo assim, quem leva a bronca é o mais novo. Parece injusto, mas é o jeito de mostrar que você diz quem é o líder, sem discussão. Se você optar por defender o mais novo a confusão se instaura, pois o mais novo acha que sempre vai ser defendido por você, e o mais antigo vai querer se vingar.
Ah, muito importante: Assim que o mais novo chegar ele deve ser castrado. Isso evita que ele continue produzindo testosterona, o hormônio responsável pela agressividade, marcação territorial, entre outras coisas.

A História do Hoppe

O Hoppe é um Whippet lindo. Por um acaso do destino ele teve que ser doado, e por uma feliz coincidência uma vizinha minha, a Kika, cachorreira como eu, achou que estava na hora de ter um cachorro de novo. Ele veio de uma casa onde morava com um irmão, um amiguinho Yorkie e um casal de bípedes, seus donos. O irmão dele foi atropelado, precisava de muito mais cuidados, e aconteceram várias situações que os donos decidiram que o melhor para todos seria doar o Hoppe. Fiquei sabendo que a separação dos dois foi muito triste, pois o dono tinha um carinho muito grande por esse cão, mas achava que estava fazendo a coisa certa. Então chegou o Hoppe, num apartamento onde vive um casal e ele como cachorro único, e sai para conhecer a vizinhança. Na cabeça dele estava tudo muito confuso. Eu imagino que para ele era algo como um adolescente que simplesmente é mandado embora da família. Dá para imaginar? Vamos tentar exemplificar, um menino de uns 15 anos que vive com o irmão e família, um dia é colocado no carro e entregue para estranhos. Para nós, pessoas sensatas, é impossível pensar numa situação dessas, mas é assim que o Hoppe se sentiu. E olha que essa minha vizinha é a melhor dona de cachorros que eu já vi na minha vida. Antes de conhecê-la eu achava que eu era uma dona bem legal pro Bud, mas ela me mostrou que daria para ser muito mais legal. A dedicação dela em fazer o Hoppe se sentir bem fugiu dos parâmetros normais. Ela chegou a tirar férias porque ele uivava quando ficava sozinho, comprou sacos de brinquedos, petiscos, um monte de coisas importantes para a adaptação dele, e vendo os dois parecia que ele tinha sido feito para ela. Passeávamos juntos, e o Bud logo percebeu que o Hoppe era carente e precisava de um amigo. O Bud cuidava dele nos passeios, e isso fez o Hoppe ficar um pouco mais seguro. Mas sempre que aparecia alguém que lembrasse o antigo dono ele realmente se exaltava, ficava querendo ir em direção àquela pessoa, fixava o olhar nela. E para pessoas como a Kika e eu doía ver o quanto ele sentia falta do antigo dono.
Gostaria que essa história tivesse tido um outro final, não dá para saber exatamente como o Hoppe ficaria, se ele melhoraria em algum tempo ou entraria em depressão (sim, acontece de cachorro entrar em depressão nessas situações, mesmo sendo bem tratado). Mas eis que o antigo dono, que sempre mantinha contato com a Kika, diz um dia que não estava mais aguentando de saudades dele e que, se ela topasse, ele o pegaria de volta. Claro que ela topou, pelo bem do cachorro.
Final feliz para o Hoppe. Novo aprendizado para a Kika, que hoje tem duas cadelas sensacionais, a Pipoca, uma Border Collie adotada por força do destino, e a Nevada, uma Vira-Lata linda pela qual a Kika se apaixonou numa ONG de animais. Antes desses três cães ela teve uma Golden e uma Labrador. A Golden era a Jow. Inexplicável, sem palavras, não existem adjetivos para o que era essa cadela. Só quem a conheceu pode entender. A Jow só não falava porque – como diria Vitor Hugo – um cachorro não se envolve nas mazelas humanas. Ela nem precisava de voz, pois se fazia entender com o olhar e movimentos. Sorte que eu tive o privilégio de conhecê-la e amá-la como todos que a conheceram. A Labrador se chamava Pretinha, louca como todo Labrador deve ser, fez a Jow viver seus últimos anos com mais alegria. Por uma ironia do destino, apesar da Jow ser uma velhinha e a Pretinha uma jovem, essa molequinha preta atravessou a ponte do arco-íris antes. Tenho cá comigo que foi um capricho do destino, e a Pretinha foi chamada antes para preparar o paraíso para a chegada da Jow, que merecia tapete vermelho na entrada e os melhores companheiros que o céu pode oferecer.

Mas voltando ao Hoppe, tudo foi muito mais difícil porque ele veio de uma matilha formada. E quando esse é o caso tudo deve ser feito com muito mais carinho, paciência, brinquedos, petiscos, e tempo para a coisa acontecer sem sofrimento. No caso da Kika foi impossível por causa da vizinhança. Ela fazia tudo certo, mas os vizinhos não gostaram muito da ideia.

Matilha, gente. Matilha é a vida de um cachorro. E reconhecer o líder dentro da matilha é o que transforma o cachorro num companheiro sensacional.

A História da Sam e do Zé Pequeno

A Rê, amiga minha, tinha um Husky impressionante, o Igor. Nunca vi um cachorro com tanta personalidade. A impressão que dava era que, como a Rê mora sozinha, o Igor se sentia no dever de protegê-la. Eles faziam tudo juntos, viagens malucas, passeios de jipe, trilhas, caminhadas. Pensando bem, tem certeza que o Igor era um Husky? Aparentemente ele era, mas no espírito estava mais para Labrador. Não, ele era um Husky que abriu mão das características de sua raça, como ser dócil, delicado com as pessoas e sempre pronto para trabalhar, e se tornou o cachorro da Rê, um companheiro que sabia ser bravo, ciumento, não muito delicado, um cachorro do jeito que ela queria. Ele fazia o que queria na hora que ele queria mesmo. E se ele quisesse ficar com a Rê, mas naquela hora ela estivesse com algum namorado desavisado, coitado do cara. Ele transformava a vida do namorado dela num inferno, mas sempre na hora do “ele ou eu” o Igor ganhava.

Mas infelizmente a vida de um cachorro é muito mais curta do que a gente gostaria, e o Igor passou para o outro lado do arco-íris. A Rê já tinha a Cau, uma viralatinha peluda, preta, muito fofa que um dia surgiu na vida dela e foi ficando. O Igor adorou ter uma amiga pra brincar e ela nem precisou de adaptação, parecia que já era de casa. A Cau sentiu muita falta do Igor naquele dia, mas ficou sozinha menos de 24 horas. No mesmo dia que o Igor se foi surgiu a Sam. Ela veio de uma feirinha de doação de cães, com todo o histórico de uma vida sofrida que já falei no começo do capítulo, mas parece que ela sabia que a Rê estava fragilizada e precisaria dela. Não deu tanto trabalho quanto imaginaríamos que ela daria, um certo receio, uma certa timidez, a Rê até achava que ela fosse muda, e aí a Sam foi se adaptando à nova casa, conquistou a Cau e foi relaxando. Alguns dias depois ela latiu, e virou a nova Sam, abusada, cheia de vida e muito dedicada a amar e ser amada. Ela parece um pedacinho de estopa, e vai se chegando e conquistando qualquer um. A vida da Rê já fazia sentido de novo quando ela encontrou o Zé, um filhote de qualquer coisa, absurdamente lindo. Ela ia cuidar dele e doá-lo, mas eis que o moleque começa a ter certos comportamentos que lembravam muito o Igor. A cor predominante do Zé é marrom, mas ele tem pelos de todas as cores, é só procurar que você vai encontrar nos seus pelos longos branco, cinza, preto, bege e, só para ser mais diferente ainda, tem três quartos dos olhos azuis e um quarto castanho. O Zé fica, ponto final. Três fêmeas numa casa ainda era esquisito para ela, faltava o macho, e o Zé chegou chegando. Hoje o carinha cresceu, é metido pra caramba e, se eu quiser que ele fale comigo, tenho que fingir que não tô nem aí pra ele, chamo as fêmeas que respondem prontamente e aí ele vem também. Ele sabe que é lindo, assim como o Igor sabia.

Foram duas historinhas de duas pessoas que eu gosto muito e seus cães, mas cachorro adotado é demais. Amor demais. Carinho demais. Paixão demais. Uma experiência que vale a pena. Na verdade teria tantas histórias de cães adotados que daria alguns livros. A Bolo foi adotada pelo Armando para ser feliz, já que morava numa casa onde era maltratada e parece que ninguém dava bola para ela. Tanto que foi só pedir que deram. Era uma Pit Bull com Labrador, o que tinha de tamanho tinha de docilidade, gigante. Apesar de não ter sido tirada da rua, a gratidão que tinha pelo Armando era visível mesmo para quem não gostasse de cães, ou tivesse medo, pois ela era muito grande. Depois dela o Armando, que tinha ainda uma Labrador, me confessou que só iria adotar cães, não compraria mais.

Não estou criticando quem compra, pois para mim qualquer cachorro vale muito. Só queria que as pessoas acabassem com o preconceito com o cão sem raça. Sempre que alguém elogia a beleza do Bud logo pergunta a raça, e eu me orgulho em dizer que é um vira lata. As pessoas se surpreendem por ele ser tão bonito e eu pergunto: Vira lata tem que ser feio?

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