Nestes dias de 9 de Av recordamos a destruição do Segundo Templo há 1949 anos. E se perguntamos a qualquer criança de nossas escolas porquê se destruiu o Beit Hamikdash elas dirão que por Sinat Hinam (ódio gratuito). Aprendemos isso da história de Kamtza e Bar-Kamtza onde o primeiro era o amado e o segundo o odiado pelo anfitrião de uma festa. Transcrevo aqui o texto em Massechet Guitin 55b:

“Por Kamtza e Bar-Kamtza se destruiu Jerusalém. Havia um homem que amava a Kamtza e odiava a Bar-Kamtza. Ele organizou uma festa. Disse a seu secretário: ‘vá e convide à festa a Kamtza, o qual eu amo’. Fui o secretário e trouxe por equívoco a Bar-Kamtza, o odiado. Se deparou o dono da festa que Bar-Kamtza estava sentado ao lado de sua mesa. Disse-lhe: ‘Eis que o mesmo homem que me odeia. O que você faz aqui?’ Responde Bar-Kamtza: ‘já que vim deixe-me em paz e pagarei pela minha comida e por minha bebida’. Disse-lhe o dono da festa: ‘Não! Saia daqui!’

– Pagarei o dinheiro correspondente a metade da festa.

– Não!

– Pagarei o dinheiro correspondente a toda a festa.

– Não!

Pegaram a Bar-Kamtza pelos braços e o retiraram da festa. Disse Bar-Kamtza:

– Eis que se sentaram lá os sábios e não intercederão. Parece que que isso lhes é agradável. Irei e os entregarei ao rei.

Foi e disse ao César: ‘Se rebelaram contra ti os judeus’. Disse-lhe César: ‘explique-me’. Respondeu-lhe Bar-Kamtza: ‘Envie por mim um novilho’.

Quando trouxe o novilho para ser sacrificado lhe feriu nos lábios, há quem diga no olho, em um lugar que o invalide para o sacrifício, mas que para as oferendas dos não judeus não se considerava inválido.

Deliberaram os sábios se aceitar a oferta para manter a paz como reino. Disse-lhes Rabi Zacharia ben Avkulas: ‘Dirão que estamos sacrificando no altar animais inválidos’. Então responderam ‘matemos a Bar-Kamtza para que não vá ao César nos acusar’. Disse Rabi Zacharia: ‘Dirão que matamos a todo aquele que traz um animal inválido’. Disse Rabi Yochanan: ‘o excesso de humildade de Rabi Zacharia ben Avkulas destruiu nossa casa, queimou nosso Templo e nos expulsou de nossa terra”

Explica Maharal de Praga que Kamtza e Bar-Kamtza não são nomes de pessoas reais, são uma alegoria da situação em que se encontrava Am Israel naqueles dias. O ódio e o desprezo entre os líderes do povo eram tão grandes que nem mesmo nos momentos alegres se tinha alívio. A indiferença dos sábios em seus julgamentos demonstrava sua preocupação de se manter bem e com bom nome. A lei da sobrevivência era o que estava em vigor naqueles dias. Já não se julgava o certo do errado, já não haviam tempos propícios para o acerto de contas.

Escreve Harav Haim Vital z”l: “disseram chazal: na Segunda Casa (Beit Hamikdash) haviam grandes justos e sábios e não se destruiu senão pelo pecado de Sinat Hinam. Os demais pecados não transgredimos se não o praticamos ativamente. Porém, Sinat Hinam no coração é constante e em todo o momento está transgredindo o pecado de ‘não odiarás teu irmão’ e anula o mandamento positivo de ‘amarás o próximo como a ti mesmo’. E não apenas isso, mas sobre esta mitzvá se disse ser ‘uma grande regra da Torá que a faz depender dela’”. (Portais da Santidade 2:4)

Há cada momento que odiamos nosso próximo estamos transgredindo a Torá. É como se tivéssemos uma borracha para apagar cada letra da Torá que temos em nossos corações. Isso porque aquele que deliberadamente transgrede qualquer mandamento da Torá não tem parte no Mundo Vindouro. Porém as pessoas não entendem isso, não alcançam seu real valor. Por isso Hashem prefere perder sua casa para não perder seu povo. Pois com a dor da perda do Templo podemos sentir o que seria a perda do Mundo Vindouro (leia mais a respeito aqui).

Então nos perguntamos qual seria a forma de corrigir este erro terrível. Comumente escutamos por aí que o Ahavat Hinam (amor gratuito) é o antídoto para o ódio que nos fez perder o Segundo Templo. Os seguidores do Amor Gratuito pregam que devemos aceitar a todos da forma como estão. Que devemos não só respeitar, mas aceitar todas as opiniões pois cada um tem sua própria forma de ver o mundo. Que os pecados não são necessariamente pecados e que não temos condições de julgar a ninguém cabendo este dever a D’us.

Este conceito de amor gratuito não está muito longe da posição de Rabi Zacharia ben Avkulas. Não é a toa que a suguiá que transcrevi acima começa atribuindo a destruição de Jerusalém a Kamtza e a Bar-Kamtza e termina também culpando a Rabi Zacharia. Os extremos são prejudiciais. O ódio que nos separa é tão daninho como o excesso de amor que se transforma em indiferença. Assemelha-se a uma mãe que por amor a seu filho ignora seus crimes e odeia seus acusadores. Isso é auto destrutível.

Se buscamos na literatura dos sábios Ahavat Hinam como solução para o Sinat Hinam não encontraremos. Isso porque o amor incondicional é supra-humano, está além de nossa capacidade. Ao tentar praticá-lo o destruímos. Por isso que a Torá não nos ordena amar os outros incondicionalmente, mas devemos amar o próximo como a nós mesmos.

Em mais de 2000 anos de literatura rabínica somente no século passado que se trouxe à luz o conceito de Amor Gratuito e quem o fez foi Harav Abraham Itzhak Kook ztz”l em sua obra Orot Hakodesh. Rav Kook não apresentou o Ahavat Hinam como antídoto. Justamente Harav explica que o mundo é muito cheio de particularidades para se o entender com dicotomias. Dentro do Sinat Hinam, explica Rav Kook, está escondido o Ahavá. Pois o ódio é uma força fundamental divina a qual vem para se antepor àquilo que está errado. Neste ódio se encontra o amor que faz trazer do erro aquele que se desviou da vontade divina.

Ora, que nunca escutou a expressão: “D’us odeia o pecado mas ama o pecador”? Pois esta é uma verdade. Não podemos ser indiferentes com o erre e achar que assim estamos nos amando e trazendo de volta a Shechiná. Pelo contrário, pois está escrito na Torá: “Se andardes nos meus estatutos, e guardardes os meus mandamentos, e os cumprirdes, então eu vos darei as chuvas a seu tempo; e a terra dará a sua colheita, e a árvore do campo dará o seu fruto” (Vaikra 26:3,4).

E mais traz a Torá:

Porém vós, que vos achegastes ao Hashem vosso D’us, hoje todos estais vivos.

Vedes aqui vos tenho ensinado estatutos e juízos, como me mandou o Hashem meu D’us; para que assim façais no meio da terra a qual ides a herdar.

Guardai-os pois, e cumpri-os, porque isso será a vossa sabedoria e o vosso entendimento perante os olhos dos povos, que ouvirão todos estes estatutos, e dirão: Este grande povo é nação sábia e entendida.

Pois, que nação há tão grande, que tenha deuses tão chegados como o Hashem nosso D’us, todas as vezes que o invocamos?

Devarim 4:4-7

Se me perguntam se o Amor Gratuito é o antídoto para o ódio gratuito respondo que sim, mas em seu conceito pleno como nos traz Rav Kook: “Se nos destruímos, se destrói o mundo conosco por meio do ódio gratuito. Voltemos para o entendimento, e o mundo se construirá conosco por meio do amor gratuito” (Orot Hakodesh).

Amemos uns aos outros nos respeitando. Não precisamos impor nossos valores ou nossas convicções aos demais. Orientemos qual o caminho da Torá e que cada um escolha por qual caminho seguir.

Tzom Kal Umoil

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