Mentira

Começamos o livro de Vaikra e com ele todas as leis referentes aos trabalhos dos cohanim e dos sacrifícios que devem ser oferecidos em nome de todo o povo e em nome de pessoas particulares em agradecimento, louvor ou expiação de pecados. Em outras palavras este livro está dedicado às particularidades do serviço litúrgico no Mishkan.

Todos os detalhes do serviço dos cohanim estão explicados em centenas de leis acompanhadas de um ritual metódico e repetitivo. Muito embora o judaísmo seja pragmático, se fazemos uma leitura cuidadosa da Torá notamos que há uma relação, ou atenção, especial de Hashem com a espontaneidade, seja para bem seja para mal. Espontaneidades como a de Yaakov que luta com o anjo por sua bênção ou como a de Moshe que renega sua parte no Mundo Vindouro se Israel não tiver também parte nele, rompem os protocolos e as normas e alcançam a misericórdia divina recebendo dela sua graça.

Por outro lado houveram ações espontâneas que não encontraram a aprovação divina mesmo que as intenções fossem atender a vontade do Eterno ou sua justiça. Assim foram os casos de Shimon e Levi ao matarem todos os homens de Shechem e também o caso de Nadav e Abihu que ofereceram um sacrifício de incenso no Mishkan e foram consumidos por um fogo divino.

Refua ShelemaNo fim da Parashá Vaikrá encontramos uma forma de espontaneidade muito comum em nossos dias: o juramento de inocência. Quando somos acusados ou quando nos sentimos coagidos nosso cérebro se ocupa naturalmente em ativar suas armas de defesa. A mentira é uma delas e surge como uma ferramenta de defesa já na infância motivada pelo medo do castigo. Por este motivo não se deve castigar uma criança que mente nestas circunstâncias pois o faz por medo e por ainda não dominar das ferramentas necessárias para lidar com a situação. O correto a se fazer é orientar. Mas quando alcançamos a idade adulta já devemos ser responsáveis por nossas ações e tomar a responsabilidade de nossos erros.

Nos traz a Torá:

“Quando alguma alma pecar, e fizer falsidade contra o Eterno, e negar ao seu companheiro a coisa que lhe foi entregue sob custódia, ou um empréstimo em dinheiro, ou roubo ou extorquiu o seu companheiro, ou encontrou uma coisa perdida, e negou e jurou em falso; se fizer alguma de toda essas coisas que fazem o homem pecar” (Vaikrá 5:21.22).

Quando alguma alma pecar, e fizer falsidade contra o Eterno” – Se na verdade a pessoa está mentindo a seu companheiro dizendo que não tomou nenhum objeto seu e nem seu dinheiro, por que diz a torá que a falsidade é contra o Eterno? Porque há duas falsidades nesta situação. A primeira, como foi dito, é contra o próximo e a segunda é contra a Hashem por jurar em falso. מעלה מעל בה’ que traz o pasuk se refere a jurar em nome de Hashem que não fez tal coisa. E aqui é onde pode estar uma grande falha no caráter.

Além do medo e da insegurança diante de uma acusação contra um erro cometido devemos também tomar em conta que a mentira, no caso de nossa Parashá o Falso Juramente em Nome de D’us, também pode ser motivada por uma falha no caráter. A mentira como ferramenta de defesa inocenta o acusado mas não obstante também incrimina um inocente.

Cinco situações nos traz a Torá neste pasuk: 1- fiel depositário; 2- empréstimo; 3- roubo; 4- não pagamento do salário e 5- ao encontrar algo perdido. Para quatro dos cinco casos a mentira pode questionar com base em suspeitas. Será que o objeto encontrado realmente lhe pertence? O trabalho foi executado como devido? O material roubado realmente lhe pertence, ou você não tem alguma dívida comigo? As testemunhas e o contrato de empréstimo são legítimos? Etc. Porém o objeto que foi entregue sob custódia tem um problema.

Quando se entrega um objeto a alguém que o cuide e o guarde por um determinado tempo não se tem nem testemunhas nem contrato. O que valida a ação é a confiança na pessoa do fiel depositário como sendo alguém íntegro, idôneo e com temor divino. Esta operação é feita na presença de três: o depositante, o depositário e o Eterno que sabe de todas as coisas. Então quando o depositário deixa de ser “fiel” e nega ter recebido determinado objeto não apenas ele joga a boa fama que tinha no lixo, mas ao jurar em nome de D’us, a única testemunha, ele tem a ousadia de incriminar a D’us de falso testemunho.

Vemos a que baixo nível podemos chegar com nossas palavras. Nossas falsas promessas e nossas mentiras destroem o sagrado. Alguém que se sente lesada por um Talmid Hacham não apenas perde sua fé nele mas pode chegar a perder sua fé em Hashem! Todo aquele que se demonstra ao demais como uma pessoa temente a D’us carrega sobre si uma responsabilidade muito grande de manter e viver esse temor para que as demais pessoas não venham a pecar em seu nome. A responsabilidade é tanta que na Halachá se uma pessoa grande em Torá e em Hassidut comete uma ação que escandalize a sociedade, mesmo que não seja um pecado, tal Hacham peca por Hilul Hashem (Rambam, Yesodot HaTora 5:11).

Mas Baruch Hashem é bom saber que as portas da Teshuvá sempre estão abertas. Segue o pasuk e diz:

“E como oferta de delito, trará ao Eterno um carneiro do rebanho, sem defeito, no valor de dois siclos, por oferta de delito, ao sacerdote. E expiará por ele o sacerdote diante do Eterno, e lhe será perdoado em qualquer uma de todas estas coisas que fizer” (Vaikrá 5:25,26).

A espontaneidade mais desejada por Hashem é a Teshuvá, o arrependimento de nossas más ações. Para esta as portas estão sempre abertas e é recebida com festa na corte celestial. Pois o arrependimento verdadeiro vem da parte mais profunda da alma e não é motivado por nenhuma outra coisa senão o interesse de fazer a vontade divina.

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