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Quando falo sobre liderança, falo sobre os donos agirem como verdadeiros líderes. Moramos numa cidade grande, onde encontramos cães de todos os tipos e tamanhos pela cidade, assim como pessoas de todos os tipos também, com vários aspectos culturais e religiosos (afinal, moramos num país laico – cinofilia também é cultura).

Bem, entre esses cães que se encontram constantemente nas ruas, nas praças, nos parques ou nos prédios, acaba se desenvolvendo uma estrutura, a tal da hierarquia. Isso acontece principalmente entre cães que moram na mesma casa, no mesmo prédio, enfim, que dividem um espaço em comum, mesmo que grande, como um bairro. Quando o assunto envolve os donos e cães na mesma casa, os donos devem se intrometer e fazer com que o que chegou mais tarde aceite a liderança do que estava há mais tempo em casa. Para isso eles cumprimentam antes o mais antigo, o alimentam antes também, deixam o líder andar na frente nos passeios e assim por diante. Dessa maneira o recém-chegado vai entender que manda quem pode, obedece quem tem juízo. E assim não haverá briga entre os cães.

Em alguns casos, mais raros, o animal que já estava na casa está acostumado com a brincadeira de seguir o líder, e não quer ser o chefe. Isso pode acontecer quando o cachorro antigo já tem mais idade e não tem muita paciência pra ficar de olho nos acontecimentos. Ou simplesmente o cachorro não se interessa em ser o líder, caso do Basquiat, o Labrador amado por todas as pessoas que o conheceram, e temido pela maioria dos cães que o conheceram. Ele atravessou a ponte do arco íris há duas semanas, teve um ataque cardíaco fulminante. Já estava com idade e tinha problemas cardíacos, o que facilitou, pois fez com que ele fosse sem sofrimento. Ele morava com a mãe, e a seguia sempre. Quando a mãe morreu ele ficou meio perdido, então os donos resolveram dar de presente para ele um filhote, a Nina. Eu a apelidei carinhosamente de LabraLouca, pois a pilha dela não acaba nunca. O Basquiat não curtiu muito no começo, mas depois de algum tempo começou a gostar bastante de ter uma filhote companheira, apesar dele já estar com 11 anos. No começo até deixamos claro que ele seria o líder, mas ele deixou mais claro ainda que não tava nem aí, só queria ser feliz. E era. Super amado, sempre solto e livre, e agora ainda por cima tinha uma líder louquinha. Ainda vou falar do Basquiat e da Gaia, a mãe dele, pois foram cães muito especiais.
Mas voltando à hierarquia, quando o assunto foge do âmbito familiar os cães se entendem naturalmente. Essa foi mais uma experiência do Bud. A gente mora num prédio de 12 apartamentos. Quando o Bud chegou, meus vizinhos já tinham o Mike, um simpático Cocker Spaniel dourado. O Mike estava no auge de sua maturidade nessa fase, e o Bud mal havia saído das fraldas. O Mike era muito tranquilo, um tipo boa praça mesmo. Hoje ele já foi pro outro lado do arco-íris, velhinho e feliz. Mas o fato é que eles nunca, desde o primeiro encontro, nunca se desentenderam. O Mike era o líder, o Bud aceitava e cresceram assim. Mesmo depois de adultos nunca sequer discutiram. Até me impressionava o fato do Mike ter envelhecido e o Bud continuar a respeitá-lo. Digo isso porque nessa fase, quer dizer, quando o líder está bem mais velho e o mais novo no auge, eles normalmente têm uma briguinha, onde vão decidir se as coisas ficam como estão ou se o mais novo vai tomar a liderança. Mas o Mike foi líder até partir, com o respeito do Bud.

Bem, eram os dois no prédio e ia tudo muito bem, até chegar um terceiro, o Bob, um filhote simpático, fofo, que parece um mini ursinho. Um Lhasa Apso bem pequeno, que se apaixonou pelo Bud assim que o conheceu, e o nomeou como líder. É engraçado demais, ele vê o Bud e fica de pezinho tentando alcançar a boca do Bud, fica muito fofo. Fica todo orgulhoso se a gente se encontra e saem juntos pro passeio, ele acha o máximo andar ao lado do Bud. E se o Bud não gosta de algum cachorro, pode ter certeza, o Bob também não vai gostar. Hoje o Bob já é um rapazinho, mas continua idolatrando o Bud, e tenho certeza que, se ele se meter numa enrascada o Bud vai salvá-lo.
O Bob é tão fofo que fica irresistível, e acabei acostumando ele a latir cada vez que me vê. Ou seja, ele me treinou. Quando a gente se encontra ele começa a latir como um gigante, do alto dos seus poucos centímetros. E eu logo pego ele no colo, ou senão começo a encher ele de carinho. Tudo que um cachorro de apartamento quer.

Mas um prédio nunca é um mar de rosas como a gente espera que seja. Tem brigas de vizinhos, problemas com vagas na garagem, contas divididas, vidro para fechar a sacada, alguém que segura o elevador, enfim, mil coisas. E eis que aparece no prédio mais um cachorro. Ele já chega adulto, do tamanho do Bud e mesma idade. O problema é que o Bud, nessas alturas da história, já havia sido atacado quatro vezes, e tinha resolvido que não seria mais tão simpático com cães novos no pedaço. Ele ama de paixão filhotes, cachorros pequenos e fêmeas, mas esse novo vizinho de 4 patas era tudo que ele não queria. Sabe quando você não vai com a cara de alguém? É exatamente a mesma coisa, o Bud nunca foi com a cara dele. O que podemos fazer nessa situação? Nada, apenas lembrar que os racionais somos nós, e evitar conflitos. Então o Bud parou de sair solto – eu só colocava a coleira na porta do prédio, agora coloco no elevador – e, caso eles se encontram, a gente afasta eles, vai cada um para um lado, claro que com uma sinfonia de latidos até eles não se enxergarem mais, ou cansarem de tomar umas puxadas da coleira. Isso acontece, pessoal, até mesmo com um cachorro bacana como o Bud. O importante é a gente não deixar esse mal-estar entre os cães afetar a relação entre os humanos. E eis que chega mais um cachorro no prédio, na verdade, uma cadela. Uma charmosa Bulldogue, e eis mais uma face do Bud: Ele morre de medo dela, e ela, coitadinha, adora ele. Me parece que o medo dele é por causa da respiração dela, que faz um barulho que parece um rosnado. Como já disse, o Bud adora cadelas, filhotes e cães pequenos, e é incapaz de demonstrar qualquer tipo de agressividade contra eles, então ele simplesmente se afasta, abaixa a cabeça, evita o olhar. E a cadelinha, tadinha, continua tentando conquistar o Bud.

Aprendemos muitas coisas sobre hierarquia nos livros, programas de televisão, cursos, e em todos eles algumas coisas muito parecidas. Uma delas é a ideia que o cachorro não deve sair se estiver muito excitado e nem caminhar na sua frente no passeio.
O Bud não é nada dominante, larga o osso quando eu mando, deita, fica quieto, chega a ser submisso demais. Mas é só falar que vamos passear que ele pula, corre, vai e volta, fica doidão, pega a coleira na boca e vai pra porta. Qual o problema? Alguém pode me explicar? Por que meu cachorro não pode ficar tão contente e excitado com a situação? Se alguém chegar aqui em casa e dizer que vamos comer o melhor brigadeiro da cidade, eu só não busco a coleira, mas a chave do carro eu pego rapidinho. E fico na expectativa até a gente encontrar o tal brigadeiro. E vou salivando de vontade e grande expectativa, só pra chegar logo no meu alvo, o brigadeiro.

Então por que o cachorro não pode criar expectativa quanto ao passeio? Eu não só deixo o Bud livre e doidão antes de sair, como estimulo falando “Vamos, carinha, a rua nos espera. Vamos lá!” Ele ama esse momento, pra que eu vou cortar isso dele, guardar a coleira e esperar ele se acalmar? Seria a mesma coisa que, ao chegar na loja de brigadeiro, encontrar bolo de jiló. Ah, e quando o passeio é dele, ou seja, só para xixi, ele que escolhe para onde vai. Ele cheira o ar e decide o lado que quer ir. Caso tenha um objetivo – farmácia, padaria, algo assim – eu aviso e ele vai direitinho.

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