post Incompreensão

Incompreensão é certamente uma grande barreira à Felicidade. É a mãe de todas as dores. Ver o mundo e achar que tudo é aleatório, que não faz sentido, é apavorante e paralisante ao mesmo tempo. Se sentir injustiçado, achar que a vida lhe é hostil e viver todos os dias a certeza de um amanhã sombrio, sem nada poder mudar, é a cama de todos os prazeres masoquistas da vitimização.

Se a vítima é o infeliz, então feliz é o herói? Se a vítima não compreende nada, o herói compreende tudo?

Para começar, nem vítima nem herói são absolutos no quesito incompreensão ou compreensão do mundo.

A vítima compreende que tem alguma responsabilidade nos eventos da sua vida, mas se recusa a enxergar isso pois prefere o poder da vítima de culpar o mundo por todas as suas dores e frustrações. Que não lhe tirem esse direito!

O herói não compreende tudo em sua vida, mas prefere achar que há uma lógica no mundo e uma grande ligação entre seus atos e os resultados negativos ou positivos em sua vida. Essa crença de uma lógica que ele pode não enxergar mas acredita que existe, preenche as lacunas da insegurança. Ele se responsabiliza por sua vida, pois se sente “responsable”. Response Able. Capaz de responder ao mundo, à vida, com todos os desafios que ela há de lhe apresentar.

A vítima tem a certeza da sua fraqueza. O herói tem a certeza do seu poder. A vítima acredita apenas no que ela vê, no que ela constata que vai de encontro com suas certezas. Já o herói, acredita que há uma parceria na vida com o inefável, seja com um poder pessoal que ainda não conhece, seja com uma divina providência que cria coincidências positivas.

Fé em Deus, Fé em Si e a Equação da Felicidade
Depois de 5 anos morando na França, eu já não tinha sonhos. Meu coração parecia pesado e duro como uma pedra. A necessidade comunitária, cultural mesmo, de ser racional, de ter um pensamento cartesiano, expulsou todas as elucubrações que não fossem baseadas estritamente nas oportunidades, capacidades e habilidades já constatadas, e no planejamento e controle milimétrico da execução. A frase que mais ouvia na França era “C’est impossible” (é impossível). E cada vez era um tiro no meu ouvido.

Não é por acaso que 70% dos franceses se consideram ateus. E não é por acaso que é a população que mais utiliza antidepressivos per capita do mundo. Meu cotidiano era ver a competição entre si dos franceses para decidirem quem era o mais injustiçado. Na França, o esporte nacional é culpar alguém por suas insatisfações nas eternas manifestações e greves. Talvez o que salva é a imensa confiança que o francês tem em sua própria inteligência, e na constatação ainda que limitada, pois baseada apenas no já manifestado, de que seus poderes são muitos.

Lá pode não ter muitos líderes religiosos para criarem uma visão do mundo inefável, mas os intelectuais, filósofos e sociólogos são celebridades, e são eles que escrevem a bíblia francesa. Criaram uma religião laica do pensamento cartesiano.

A França não era para mim, mesmo se fui mais do que bem recebida. Estudei em suas melhores escolas, recebi uma bolsa generosa do seu governo. Mas nasci e cresci no Brasil, onde posso expressar minha fé em Deus e na Vida de forma livre, sem precisar de me justificar em 5 horas de conversa sem nunca conseguir convencer ninguém.

Descobri que eu preciso da incerteza das possibilidades brasileiras e que não convivo bem com a certeza das impossibilidades francesas. Aqui no Brasil, podemos sonhar todos os dias e ninguém nos impõem regras de lógica e realismos. O extremo oposto do francês, eu diria. Mas pecamos no extremismo também: confundimos liberdade de pensamento com o direito à ignorância… Isso continuei admirando nos franceses: a busca metódica por conhecimento. Tinha um amigo francês que sempre parava na frente de uma livraria que gostava e, admirando os livros na vitrine, suspirava e resmungava: “Tanto conhecimento que ainda não tenho…”

Na França prega-se o poder pessoal a todo custo. No Brasil falamos sempre do poder de Deus e da nossa humildade humana perante seu poder. Mas não podemos ser felizes apenas acreditando no poder de Deus, na intervenção divina nas nossas vidas. Nos tornamos vítimas indefesas da vida, passivas e inativas, e vemos tudo como prova do amor ou desamor de Deus por nós. Mas também não podemos ser felizes achando que só existe o que podemos constatar do nosso poder pessoal. O desespero pode ser constante ao vermos os desafios possíveis da vida e nos sentirmos aquém da tarefa e totalmente sozinhos nessa batalha.

Uma fórmula efetiva seria a mistura dos dois: nem colocar tudo nas mãos de Deus, nem tudo apenas em nossas mãos. Essa fórmula, talvez 80% nas nossas mãos e 20% nas mãos de Deus, nos daria mais autoconfiança, mais propósito, mais proatividade.

No judaísmo que eu vivo é essa a proporção que eu sinto. Até no Shemá, a oração mais importante da religião, pouco ou nada se fala do que Deus fará por nós, mas sim, do que nós faremos por ele. Amaremos nosso Deus com todas as nossas forças, colocaremos seus mandamentos na cabeça, no coração e nas mãos, rezaremos duas vezes ao dia o Shemá, falaremos da Torah aos nossos filhos, colocaremos a oração no batente das nossas portas. Não é só acreditar ou confiar em Deus. É fazer um pacto com ele, e trazer nossa capacidade para a mesa de negociação.

Talvez a fórmula da Felicidade ainda não esteja completa. Mas certamente a vítima não é feliz, nem nunca poderá ser. Eliminar um elemento subtrativo sem dúvida aumentará nossas chances matemáticas de Felicidade.

Deixemos então de lado a vítima, e comecemos nossa caminhada na direção certa para sermos o herói das nossas vidas. Aprendamos com os filósofos e heróis, sejam franceses, judeus, indianos, japoneses, brasileiros, não importa de onde, sejam eles diplomados ou não. Tomemos mais responsabilidade sobre os eventos das nossas vidas, vejamos mais os nossos dedos nos resultados que recebemos, e aprendamos com eles para manifestar resultados diferentes e melhores.

Conquistemos a confiança na nossa própria capacidade e a juntemos com a fé necessária para aquele momento inevitável do grande desafio.

Ainda não será a Felicidade…

Ainda.

Shavua Tov (Boa semana)

https://portaljudaico.com.br/vendoo/uploads/2017/01/post-Incompreensão.jpghttps://portaljudaico.com.br/vendoo/uploads/2017/01/post-Incompreensão-150x150.jpgNaomi YamaguchiFELICIDADE SE APRENDESem categoriaacreditar,aprender,autoconfiança,Brasil,brasileiro,cartesiano,confiança,conquistar,Fé,Felicidade,FRANÇA,francês,herói,poder pessoal,shemá,sonhar,vitimismoIncompreensão é certamente uma grande barreira à Felicidade. É a mãe de todas as dores. Ver o mundo e achar que tudo é aleatório, que não faz sentido, é apavorante e paralisante ao mesmo tempo. Se sentir injustiçado, achar que a vida lhe é hostil e viver todos os...Comunidade Judaica Paulistana