Se há cerca de seis mil anos a escrita revolucionou a humanidade dotando-a a capacidade de registrar sua história, hoje a comunicação é o motor de todo o sistema. Política, negócios, ideias, educação… até mesmo a guerra é motivada por uma linha num jornal. O marketing da informação é o setor da economia mais solicitado. Sendo de tamanha importância e influência, sobre a comunicação recai uma responsabilidade muito maior, ou ao menos deveria. Ao comunicar algo de forma equivocada dependendo das circunstâncias pode ter efeitos irreparáveis.

Há um pouco mais de quarenta anos a cidade do Recife parou. O desespero e o caos se instalaram na cidade, principalmente nas áreas ribeirinhas e planas. As lojas fecharam, uma multidão lotava os ônibus para voltarem a suas casas e recolherem tudo o que se poderia salvar, pois a barragem de Tapacurá se havia rompido e isso provocaria a inundação da cidade.

Recife sempre sofreu com enchentes e inundações. A cidade tem uma topografia que a desfavorece neste sentido. Cortada pelos rios Capibaribe e Beberibe, a zona plana não está a mais do que 4 metros acima do nível do mar, e há zonas que estão abaixo. Em julho de 1975 a cidade sofreu com enchentes que provocaram mais de 100 mortos. A cidade ficou dias sem energia. Passado uma semana da catástrofe, quando a cidade já se recuperava, no dia 21 de julho o boato de que a barragem de Tapacurá havia se rompido provocou um caos sem precedentes.

As vezes não nos damos conta do quanto podemos fazer mal com apenas em dizer a verdade. “Há mas é verdade, fulano é assim mesmo…” o fato de ser verdade não quer dizer que deva ser dito sem qualquer responsabilidade. Nossa parashá Tazria-Metzorá nos ensina o quanto devemos ser responsáveis pelo o que falamos.

Quando falamos não estamos apenas soltando palavras ao vento, estamos expressando o que pensamos. Ao falar externamos nossos desejos, nossos anseios, nossas ideias, nossas crenças, etc. Estamos fazendo conhecer o que se passa em nossas mentes.

מצורע (Metzor’a), explicam os sábios, significa מוציא רע (Motzi R’a – extrair o mal). Quando fofocamos de alguém (e as fofocas nunca são sobre um bem que este alguém tenha feito) e, principalmente, quando mentimos sobre alguém estamos extraindo o mal sobre aquela pessoa. Então rapidamente alguém diz: “mas não é mentira, fulano é assim mesmo”. Em toda a oportunidade em que se fala de alguém sobre seu mal comportamento, quando o faz sem as intenções e as devidas ações em busca de ajudar tal pessoa a se concertar ou para evitar que alguém seja diretamente prejudicada por ela, se está cometendo o pecado de “Lashon Há’a”.

Ensinam os sábios que todas nossas ações influenciam e provocam câmbios tanto nos mundos inferiores como nos superiores. O homem está na condição de dominador das forças do mundo e por isso suas ações influenciam[1]. Câmbios no mundo e em nós mesmos! Se dizemos que tudo o que falamos estamos externando o que está em nós e se os sábios entendem Lashon Har’a como Motzi R’a, então ao cometer este nefasto pecado estamos extraindo o mal que estava dentro de nós mesmos. Aqui entendem os sábios que a punição daquele que difama seu irmão é a enfermidade de צרעת tzar’at. A própria Torá nos ensina no episódio de Mirian que o castigo de quem fala mal de seu irmão é tzar’at (Bamidbar 12).

O psiquiatra alemão J. C. Heinroth (século XIX) foi um dos pioneiros em estudar as enfermidades psicossomáticas. Hoje não faltam médicos e naturistas que aconselham uma vida mental sadia para manter um corpo sadio. Nossas angústias e nossas frustrações podem voltar contra nós mesmos debilitando nosso corpo. E no que se refere a linguagem, a fala é capaz de modificar a organização molecular, fato provado na década de 80 pelo cientista japonês Massaro Emoto. Não é coincidência que ao rezarmos pela saúde de alguém dizemos “lerefuat hanefesh velerefuat haguf”(para a cura da alma e do corpo), pois a cura começa na alma.

Nossas palavras devem ser a serviço da luz e não das trevas. Iniciamos nossa reza diante do Eterno dizendo “abre, Senhor, os meus lábios, e a minha boca entoará o teu louvor”[2] e nos retiramos de sua presença dizendo “meu D’us, livra minha língua do mal e minha boca da mentira”. Devemos sempre estar diante do Eterno, ou melhor, estar cientes que sempre estamos diante dele, como se diz “tenho posto o Eterno diante de mim sempre”[3].

Por um diálogo tivemos a queda do homem do Éden, por Lashon Har’a se destruiu o Beit Hamikdash, e hoje, mais que nunca, por fofocas em redes sociais pessoas tem se deprimido, suicidado, perdido família e trabalho. Devemos ser mais responsáveis pelo que falamos para evitar que se aflore de dentro de nós o mal e que seja repartido entre os demais.

Que abramos nossas bocas com palavras de Torá, bênçãos, elogios, incentivos e encorajamento. Devemos nos conectar com a Torá e com a linguagem dos salmos. “Se o homem se deixa levar pelo mundo e se afasta de D’us, causa danos em si mesmo e no mundo inteiro. Mas se ele domina a si mesmo, se conecta a Hashem e usa o mundo para habitar nele e como auxílio para servir a Hashem, ele se eleva e eleva o mundo consigo”[4]

Por Refuá Shelema de Menachem ben Mirian

Shabat Shalom

[1] Harav Milovoz’im, Nefesh Hachaim 1:3

[2] Tehilim 51:15

[3] Tehilin 16:8

[4] Rabi Moshe Chaim Luzzato, Senda dos Justos 1

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